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O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026 sobre o trimestre anterior. Os dados foram divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 1º de setembro. O número confirma a desaceleração da economia brasileira e recoloca o risco de recessão no radar.
Esse resultado chega em um momento de juros elevados, crédito caro e contas públicas pressionadas. Antonio da Luz é economista-chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul). Para ele, o número não é um evento isolado, e sim uma sequência de crises acumuladas.
O crescimento de 0,5% veio acima da expectativa do mercado, que projetava 0,4%. Contudo, a composição do resultado preocupa mais do que o número agregado.
A agropecuária avançou 2,8% no trimestre. Ao mesmo tempo, a indústria cresceu apenas 0,1% e os serviços, 0,2%. Em outras palavras, dois setores que respondem pela maior parte do PIB praticamente ficaram parados.
Pelo lado da demanda, o sinal é ainda mais claro. O consumo das famílias recuou 0,4% e as exportações caíram 0,8%. Por outro lado, os investimentos (formação bruta de capital fixo) subiram 1,2% e o consumo do governo avançou 0,4%.
Na comparação com o segundo trimestre de 2025, a economia cresceu 2,0%. O PIB somou R$ 3,4 trilhões no período, maior patamar da série histórica.
Dentro da agropecuária, o destaque ficou com a soja (+5,3%) e o café (+15,1%) na comparação anual. Na indústria, o setor extrativo cresceu 3,4%. Por sua vez, a indústria de transformação recuou 0,4% e o segmento de eletricidade e gás caiu 1,1%.
Até o pequeno avanço industrial depende de um único segmento, o que reforça a fragilidade do resultado. Em análise enviada ao Ranking dos Políticos, o economista foi direto. Ele apontou o que aconteceria sem a contribuição do campo:
“Se não fosse o agro, que cresceu 2,8%, nós teríamos crescido muito próximo de zero ou, quem sabe, até zero, porque o agro causa um impacto positivo em indústria e serviços.”
O setor movimenta transporte, armazenagem, comércio de insumos e máquinas. Além disso, gera renda em municípios do interior. Por isso, quando a agropecuária cresce, parte desse impulso aparece nas contas de indústria e serviços.
O efeito da colheita se concentra historicamente no primeiro semestre. A soja entra no primeiro trimestre e o milho vem na sequência. Assim, o terceiro trimestre costuma perder parte desse motor sazonal. Uma economia que depende de um único setor para não estagnar carrega um risco relevante para os próximos meses.
A desaceleração não ocorre em um vácuo. A taxa Selic está em 14% ao ano desde a reunião de agosto do Comitê de Política Monetária (Copom). O colegiado promoveu um corte de 0,25 ponto percentual.
Mesmo em trajetória de queda, a taxa segue em dois dígitos. Com isso, o Brasil entra no quinto ano consecutivo nessa condição, porque a Selic ultrapassou 10% ainda em 2022.
O crédito reflete esse cenário. A inadimplência das famílias no crédito livre chegou a 7,8%. É o maior nível da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011.
No lado das empresas, 9,1 milhões de CNPJs estavam inadimplentes em junho, segundo a Serasa Experian. As dívidas somavam R$ 232,9 bilhões. Dessa forma, o custo do dinheiro corrói o consumo. Isso ajuda a explicar a queda de 0,4% no gasto das famílias registrada pelo IBGE.
Na frente fiscal, o Governo Central acumulou déficit primário de R$ 81,3 bilhões entre janeiro e julho de 2026. O mês de julho, porém, registrou superávit de R$ 10,8 bilhões.
A dívida bruta do governo geral chegou a R$ 10,9 trilhões em julho, o equivalente a 82,5% do PIB. Para Antonio da Luz, o conjunto configura a maior crise fiscal e de crédito desde o Plano Real. Nesse sentido, a desaceleração chega justamente para agravar o quadro.
Uma recessão técnica ocorre quando o PIB registra dois trimestres consecutivos de queda. O Brasil ainda não está nessa situação, porque o segundo trimestre foi positivo. A margem, no entanto, foi estreita.
O economista da Farsul avalia que o país começou a se aproximar desse cenário. Sem mudanças relevantes nas políticas de crédito e fiscal, ele alerta, a desaceleração pode se aprofundar e desembocar em recessão.
Nem todas as projeções apontam na mesma direção. O Ministério da Fazenda mantém estimativa de crescimento de 2,3% para 2026. A previsão se apoia no primeiro semestre, que acumulou alta de 1,9% sobre o mesmo período de 2025.
O próprio Copom adotou linguagem cautelosa em agosto. O comitê reconheceu riscos inflacionários elevados e condicionou os próximos passos à evolução dos dados.
Alguns indicadores merecem acompanhamento nos próximos meses.
A trajetória do resultado primário também pesa. Da mesma forma, as decisões do Copom em setembro e novembro vão definir se há espaço para alívio no custo do crédito.
O que acontecer com juros, crédito e contas públicas até o fim de 2026 vai determinar o desfecho. Com isso, o alerta do economista pode se confirmar ou se dissipar.