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Política fiscal é o conjunto de decisões do governo sobre arrecadação de tributos, execução de gastos e endividamento público. Ela define quanto o Estado tira da sociedade em impostos, para onde direciona esses recursos e em que ritmo se endivida para cobrir a diferença.
Toda vez que o preço da gasolina sobe, o juro da economia varia ou o salário mínimo é reajustado, decisões de política fiscal estão envolvidas. Entender a mecânica ajuda o eleitor a distinguir promessas viáveis de retórica eleitoral.
A política fiscal se sustenta em três eixos. Cada um deles é ajustado por instrumentos próprios, com efeitos diferentes sobre a atividade econômica.
É a arrecadação. Ela abrange impostos, contribuições e taxas cobrados de pessoas físicas e jurídicas. A Receita Federal é o principal órgão de execução no plano federal.
É o gasto público. Ele inclui despesas obrigatórias, como aposentadorias e servidores públicos, e despesas discricionárias, decididas ano a ano no orçamento.
É o endividamento. Quando o gasto ultrapassa a arrecadação, o governo emite títulos da dívida pública, negociados no mercado financeiro.
Governos podem adotar postura expansionista ou contracionista, conforme o momento econômico.
A postura expansionista corta impostos ou aumenta gastos para estimular a atividade em períodos de recessão. O objetivo é injetar dinheiro na economia e retomar o consumo. Contudo, expansão excessiva alimenta inflação e aumenta a dívida.
A postura contracionista faz o oposto. Ela eleva tributos ou reduz despesas para conter a inflação e equilibrar as contas públicas. Nesse caso, o custo aparece na desaceleração da economia e no desemprego temporário.
Nenhum governo escapa desse dilema. Excesso de estímulo gera inflação, juros altos e desconfiança dos investidores. Excesso de disciplina desacelera o crescimento e reduz arrecadação. O equilíbrio depende de escolhas técnicas e políticas, sempre polêmicas.
Desde 2023, o Brasil opera sob o chamado novo arcabouço fiscal, que substituiu o teto de gastos vigente entre 2016 e 2022. A regra fixa que as despesas primárias podem crescer entre 0,6% e 2,5% acima da inflação, dentro de uma banda condicionada à evolução da receita.
A ideia é criar limite fiscal previsível, mas menos rígido que o teto anterior. O modelo depende de resultados fiscais crescentes ao longo dos anos, com meta de zerar o déficit primário e reduzir a relação dívida/PIB.
Especialistas do Ipea apontam que o cumprimento das metas depende de mudanças estruturais na despesa obrigatória, cerca de 90% do gasto federal.
Em 2025, o governo federal arrecadou cerca de R$ 2,7 trilhões em impostos e contribuições, segundo dados do Portal da Transparência. O gasto total superou R$ 2,8 trilhões. A diferença virou aumento da dívida pública, que passou dos R$ 8 trilhões.
Esses números pesam sobre o presente e o futuro. Cada real gasto além da arrecadação atual será pago com impostos ou juros mais altos nos anos seguintes. E o custo dessa conta cai, no final, sobre trabalhadores e consumidores.
O Congresso Nacional aprova as três leis que estruturam a política fiscal. E o Plano Plurianual, a Lei de Diretrizes Orçamentárias e a Lei Orçamentária Anual, previstas no artigo 165 da Constituição, definem prioridades, limites e distribuição de recursos.
Cada emenda parlamentar, cada crédito extraordinário e cada elevação de teto fiscal passa pelo Congresso. Consequentemente, o eleitor que compara candidatos precisa examinar votações sobre orçamento e responsabilidade fiscal.
Política fiscal não é exclusiva do governo federal. Estados e municípios também tributam, gastam e se endividam, embora dentro de limites impostos pela Lei de Responsabilidade Fiscal, aprovada em 2000.
A LRF fixa tetos para gasto com pessoal, controla a dívida e exige transparência. Ela é o principal instrumento de disciplina fiscal do setor público brasileiro nas três esferas.
Sanções como suspensão de repasses federais e proibição de operações de crédito são aplicadas quando entes federativos descumprem os limites da LRF.
O Brasil tem um sistema tributário complexo, com múltiplos tributos federais, estaduais e municipais. A reforma tributária do consumo, aprovada em 2023, começa a ser implementada em 2026, com transição prevista até 2033.
O objetivo é substituir ICMS, ISS, PIS, Cofins e IPI por dois tributos sobre valor agregado: o IBS e a CBS. A promessa é reduzir custo de conformidade e simplificar o sistema. Contudo, o efeito real sobre a carga tributária dependerá das alíquotas fixadas ao longo da transição.
Escolhas fiscais também criam incentivos. Subsídios setoriais, isenções e regimes especiais direcionam recursos privados e alteram decisões de investimento. Nem sempre com o resultado planejado.
Uma tese central da tradição liberal em política econômica é que carga tributária excessiva e gasto público mal alocado limitam o crescimento de longo prazo. Estudos publicados pelo Ipea mostram correlação entre disciplina fiscal e ganhos de produtividade em economias emergentes.
Do outro lado, autores heterodoxos defendem que a expansão fiscal, quando dirigida a investimento produtivo, gera efeito multiplicador e ajuda a economia a crescer. O debate atravessa décadas e continua vivo em 2026.
O eleitor não precisa resolver essa disputa teórica. Basta comparar propostas dos candidatos com o histórico fiscal do país e verificar quem oferece números realistas para o problema estrutural das contas públicas.
As eleições de outubro definirão presidente, governadores e boa parte do Congresso. As três esferas concentram as escolhas fiscais dos próximos quatro anos.
Propostas sem contrapartida clara em corte de gasto ou aumento de receita são bandeira vermelha. Da mesma forma, apoio a benefícios setoriais sem avaliação de resultado é sinal de captura por grupos de interesse.
A política fiscal é o campo em que promessa vira orçamento. Quem entende esse ciclo escolhe melhor quem vai administrar mais de R$ 5 trilhões anuais em recursos públicos brasileiros.