Artigo de opinião
20 de agosto, 2026

Rejeição do eleitorado aos pré-candidatos é sinal de alerta

Rejeição do eleitorado aos pré-candidatos é sinal de alerta
Foto: A alta rejeição aos pré-candidatos acende um alerta para as eleições | Ranking dos Políticos

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A rejeição aos pré-candidatos voltou a aparecer com força nas pesquisas de 2026. O atual presidente da República disputa agora um quarto mandato. Ele foi eleito em 2022 com apenas 38,56% dos votos dos eleitores aptos. Foi um sinal claro de que os candidatos daquele pleito não eram os mais desejados pelo povo brasileiro.

Além disso, a abstenção e os votos brancos e nulos somaram mais de 24% do eleitorado, conforme a apuração final feita pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Isso correspondeu a praticamente um quarto do eleitorado. O número se igualou a 40% dos votos obtidos pelo vencedor.

A rejeição aos pré-candidatos já era alta em 2022

Naquela eleição, as pesquisas do DataFolha para o segundo turno já identificavam a insatisfação da maioria dos eleitores. Ela se expressava na rejeição aos dois candidatos, com 45% para Lula e 50% para Jair Bolsonaro. Foi um movimento crescente. Em agosto de 2022, os índices eram de 36% para Lula e de 47% para Bolsonaro.

Vale lembrar que rejeição significa a decisão do eleitor de não votar de jeito nenhum em determinado candidato. Um instituto de pesquisa chega a qualificar isso de ojeriza àquele postulante específico. O sentimento nasce da desconfiança e da repulsa às atitudes comportamentais do candidato. Pesam, sobretudo, as mentiras e os atos de suspeição de corrupção.

O que as pesquisas de 2026 dizem sobre a rejeição dos eleitores

Passados quatro anos, a situação não é diferente. Pesquisas do DataFolha e do Ipec/Ipsos mostram que a maioria dos eleitores mantém seu descontentamento com a classe política brasileira. São 158.864.999 brasileiros aptos a votar em outubro, de acordo com dados mais recentes do TSE.

O sentimento é de que os partidos insistem em manter e priorizar os mesmos candidatos. Também aparecem aqueles que levam o nome de família, já rejeitados no último pleito. Dessa forma, a comprovação do descontentamento está na constatação de que a rejeição aos candidatos permanece elevadíssima.

A avaliação do governo por área

Há razões para esse cenário. Por exemplo, as últimas avaliações do terceiro governo Lula ajudam a explicá-lo. Segundo pesquisas Ipec/Ipsos comentadas pela CNN Brasil, a avaliação ruim ou péssima é altíssima em setores essenciais.

São 46% na saúde e 47% na segurança pública. O combate à inflação chega a 49%. Já a economia e o controle de gastos sobem para 57% de reprovação.

Os números do Atlas/Intel confirmam a insatisfação

A última pesquisa do Atlas/Intel, de junho de 2026, corrobora o grau de insatisfação do eleitorado brasileiro. Os resultados são ainda mais expressivos. Na área de educação, 49% dos eleitores consideram o governo ruim ou péssimo. Já a saúde registra reprovação de 46%.

A segurança pública aparece com 54%. O combate à inflação fica no mesmo patamar. E o índice é ainda maior quando o assunto é economia e corte de gastos, com 55% de insatisfeitos.

A corrupção alimenta a rejeição do eleitorado

A reprovação poderia ser ainda maior se todos os brasileiros conhecessem os números da corrupção. Segundo estimativa da FGV-Ibre, ela retira dos cofres públicos de R$ 340 bilhões a R$ 540 bilhões por ano. Isso corresponde a 2,5% a 4% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

O estrago é ainda mais expressivo na estimativa do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT). O instituto calcula o rombo da corrupção duas vezes maior, entre R$ 675 bilhões e R$ 945 bilhões anuais. São números que dão a dimensão do problema. Corruptos e corruptores retiram esses recursos, reiteradamente, dos serviços essenciais à população.

Quanto esse dinheiro faria pela saúde e pela segurança

Somente a título de exemplo, o SUS presta serviços de saúde amplos à população em todo o território nacional. Seu custo total é de R$ 220 bilhões por ano. Esse investimento poderia ser dobrado com o dinheiro sugado pela corrupção.

O mesmo poderia acontecer com a segurança pública, que hoje registra mais de 35.000 homicídios por ano. A injeção de mais R$ 100 bilhões a R$ 150 bilhões anuais nesse segmento seria reforço substancial. Com isso, o combate às facções e organizações criminosas ficaria mais efetivo. Hoje elas desafiam o Estado e tiram a tranquilidade e o sono das pessoas de bem.

O Brasil despencou no Índice de Percepção da Corrupção

O Índice de Percepção da Corrupção (IPC) foi criado pela Transparência Internacional. Ele mostra, de maneira inquestionável, a decadência ética, moral e de honestidade no Brasil. Nesse índice, o país ocupava a 45ª posição em 2002. Hoje amarga a 108ª colocação.

Queda substancial. E o que isso significa? Que existem 107 países com o setor público mais honesto que o do Brasil. Uma vergonha nacional!

A percepção de que a corrupção cresceu no governo atual

Agora no mês de julho, o PoderData divulgou sua mais recente pesquisa popular. Para 49% dos entrevistados, a corrupção cresceu no governo atual. Segundo o Atlas/Intel, 85,9% da rejeição ao governo se deve à corrupção avassaladora. Daí a reprovação à gestão.

Nesse aspecto, vale lembrar o que disse o humorista, dramaturgo e apresentador Jô Soares. Ele falava dessa praga que aflige o país há tanto tempo. “A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade tem muito a ver com o Brasil”.

É triste, e especialmente preocupante, ver a corrupção crescendo exponencialmente. Ao mesmo tempo, a impunidade é tolerada e a indignação já praticamente inexiste. Nossas prisões estão superlotadas, mas não por causa dos corruptos, que são raríssimos no cárcere. Cúmulo do absurdo, hoje já temos até alguns corruptos com crachá de autoridade.

Rejeição alcança as cúpulas dos três poderes

A situação geral do país provoca desaprovação relativa a todas as esferas de poder. Pesquisa realizada pelo instituto Futura/Apex entre 7 e 11 de julho mostra rejeição alta às cúpulas dos três poderes. São 49,7% no Executivo, 67% no Legislativo e 52,3% no Judiciário.

Metade da população, e até mais, está insatisfeita com o desempenho do presidente da República. O mesmo vale para senadores e deputados federais. A insatisfação atinge ainda juízes e ministros dos tribunais superiores, sobretudo do STF. Isso ocorre em razão de sua maior exposição na mídia, que noticia e repercute suas decisões.

O eleitor sabe votar e pede novos nomes

Vale rebater o senso comum de que o brasileiro não sabe votar. Esse pensamento é rebatido pelas pesquisas que atestam elevados percentuais de rejeição. Os índices ficam sempre acima de 48% para candidatos à Presidência da República e ao Congresso Nacional. Na verdade, o eleitor sente falta de informações confiáveis, sem viés ideológico ou partidário.

Falta à classe política fazer a leitura do que os eleitores expressam por meio das pesquisas. Eles dizem não aos nomes resultantes da polarização, já reprovados. Ao mesmo tempo, mostram-se ansiosos por novos nomes como opção de escolha.

Ainda é tempo de os políticos voltarem a priorizar o país e os 213 milhões de brasileiros. O Brasil tem jeito, mas depende de um despertar. Nesse sentido, o país necessita de um grande concerto nacional, com menos conformismo e mais indignação. Pede ações assertivas e a certeza de que o cidadão merece muito mais do que hoje lhe é oferecido.

A rejeição já expressada em relação aos pré-candidatos é o maior sinal disso. O alerta foi ligado.


Samuel Hanan

Engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à deriva”, “Caminhos para um país sem rumo” e “Amazônia Brasileira, preservar para viver, responsabilidade mundial”.