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O Plano Real encerrou um período em que a moeda brasileira perdeu sua capacidade de preservar valor. A geração atual pouco se lembra desse cenário. Segundo A moeda e a lei, de Gustavo Franco, a hiperinflação atravessou 182 meses. O período foi de abril de 1980 a maio de 1995.
Nesse intervalo, a inflação acumulada chegou a aproximadamente 20.759.903.275.651%. O Banco Central também registra a dimensão da escalada dos preços. Em junho de 1994, a inflação acumulada em 12 meses chegou a 4.922%.
Gustavo Franco, um dos formuladores do Plano Real, dedicou parte central de sua obra ao estudo da inflação brasileira. Em A moeda e a lei, ele atribui o fracasso dos planos anteriores ao uso recorrente do congelamento de preços.
Para Franco, o congelamento funcionava como uma “espécie de arapuca”. A pressão era comprimida temporariamente e retornava quando a medida terminava. Dessa forma, o controle artificial dos preços não atacava as causas estruturais da inflação.
O economista também recupera uma formulação de Mário Henrique Simonsen sobre o chamado “princípio da contraindução”. A expressão ironizava a repetição de experiências fracassadas na expectativa de que, em algum momento, funcionassem.
Diferentemente dessas tentativas, o Plano Real partiu de uma premissa ligada ao controle das contas públicas. Ao mesmo tempo, buscava modernizar o Estado, reformar instituições e fortalecer as estruturas econômicas brasileiras.
O Plano Real não representou apenas a substituição da moeda anterior pelo real. E o programa abriu caminho para um modelo apoiado no chamado tripé macroeconômico.
Esse modelo combina metas para a inflação, câmbio flutuante e busca por superávit primário. O Tribunal de Contas da União associa esses três componentes ao regime implantado a partir do Plano Real.
Com isso, o país iniciou um período de maior responsabilidade fiscal e estabilidade monetária. O processo também ampliou a integração do Brasil à economia global.
O controle da inflação avançou por diferentes frentes institucionais. Uma delas envolveu o sistema de bancos estaduais, que permitia aos governos subnacionais ampliar crédito e financiar desequilíbrios.
Posteriormente, parte dessas instituições foi privatizada, extinta ou transformada em agência de fomento. Um estudo publicado pela SciELO descreve esse processo e sua relação com o Plano Real.
A mudança reduziu a capacidade dos estados de expandir gastos sem cobertura por meio dos próprios bancos. O processo também alterou a relação financeira entre governos estaduais e União.
Outro mecanismo era a chamada conta movimento. Ela permitia suprimentos automáticos do Banco Central ao Banco do Brasil. O Banco Central registra que a conta foi extinta em 1986.
Segundo Franco, o país havia institucionalizado, na prática, a “incontinência orçamentária”. O resultado era um grande orçamento parafiscal, que ajudava a alimentar desequilíbrios e comprometia o crescimento econômico.
Edward Chancellor discute problema semelhante em O Preço do Tempo. Segundo o autor, o “dinheiro fácil” produz distorções e incentiva atividades dependentes de condições artificiais.
Chancellor relaciona esse ambiente a bolhas de ativos, menor produtividade e maior tomada de risco. Essa lógica ajuda a explicar parte das dificuldades para construir crescimento sustentável.
Marcos Lisboa também chama atenção para a frequência das crises enfrentadas pelo Brasil. Em entrevista ao Brazil Journal, ele compara o desempenho brasileiro com outras economias.
Segundo Lisboa, o Brasil registrou 14 crises em aproximadamente quatro décadas. Países ricos tiveram, em média, três crises. Mesmo países com muitas crises chegaram a sete, segundo sua comparação.
A formação bruta de capital fixo ajuda a observar essa fragilidade. Entre 2016 e 2026, Brasil e Estados Unidos apresentaram trajetórias diferentes nesse indicador.
Dados da OCDE disponíveis no FRED para o Brasil mostram 16 trimestres negativos no período analisado. A série mede a variação trimestral da formação bruta de capital fixo.
Nos dados equivalentes dos Estados Unidos, houve seis trimestres negativos entre o segundo trimestre de 2016 e o primeiro de 2026. A comparação mostra uma diferença relevante na trajetória do investimento.
O investimento líquido em capital fixo desconta o capital necessário para reposição. Ele integra as bases do desenvolvimento econômico e da ampliação da estrutura produtiva.
Jesús Huerta de Soto relaciona acumulação de capital e estrutura produtiva em Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos. Nesse sentido, deteriorações recorrentes do investimento limitam a expansão econômica ao longo do tempo.
A hiperinflação atingia principalmente a população de menor renda. O Banco Central explica que a inflação funciona como um imposto sobre a posse da moeda.
Esse efeito reduz o poder de compra de quem depende do salário. O impacto também aumenta entre pessoas sem aplicações financeiras capazes de proteger seus recursos.
Por isso, a estabilização monetária beneficiou especialmente famílias dependentes da renda do trabalho. A própria instituição relaciona inflação baixa à preservação do poder de compra dos mais pobres.
Segundo Gustavo Franco, Pedro Malan e Edmar Bacha, os primeiros anos do Real produziram mudanças sociais relevantes. Os dados aparecem na obra 30 anos do Real.
A proporção de pobres caiu 25% nos três primeiros anos da moeda. No mesmo período, os salários reais cresceram quase 20%. O custo da cesta básica caiu 30%.
Além disso, o salário mínimo medido em dólares quase dobrou. Os autores também registram aumento dos lares com televisores, refrigeradores, fogões e máquinas de lavar.
Para eles, esses avanços refletiram os ganhos de renda real produzidos pela estabilização. A queda da inflação permitiu maior previsibilidade para salários, consumo e decisões familiares.
O PT se posicionou contra o Plano Real durante sua implantação em 1994. A Câmara dos Deputados registra que a oposição, liderada pelo partido, votou contra o plano.
Na época, integrantes da oposição desconfiavam das intenções políticas da medida. A estabilização, porém, foi aprovada pelo Congresso e o real entrou em circulação em julho de 1994.
Anos depois, o governo Lula manteve pilares relevantes da estabilidade econômica construída anteriormente. Na interpretação apresentada por Franco, Malan e Bacha, essa continuidade ajudou a preservar melhores condições econômicas.
Os autores também relacionam esse ambiente à popularidade do governo e à reeleição de Lula. Essa interpretação integra a leitura dos formuladores sobre a trajetória política posterior ao Real.
Franco afirma ainda que a oposição atuou no Legislativo, na imprensa, nos bastidores e nos tribunais contra a estabilização. O relato aparece entre os textos reunidos em 30 anos do Real.
Bacha registra que o PT “não quis negociar e simplesmente votou contra o Plano Real”. A posição contrária do partido também aparece em registros posteriores da própria Câmara.
O texto cita ainda instituições financeiras contrárias a aspectos do plano. Entre elas aparecem Garantia e Multiplic, mencionadas nas referências utilizadas pelo autor.
A Multiplic participou posteriormente da discussão judicial sobre a Lei 8.880 de 1994. O Supremo Tribunal Federal julgou constitucional o artigo 38 dessa lei em 2019.
Mais de 30 anos após a estabilidade monetária, o Brasil deixou de avançar em parte das reformas associadas ao Plano Real. O país também enfrenta dificuldades recorrentes para preservar responsabilidade fiscal e fortalecer a moeda.
O problema não está apenas na ausência de crescimento econômico. Ele envolve também a dificuldade de preservar instituições capazes de sustentar o desenvolvimento de longo prazo.
A estabilidade monetária foi uma conquista histórica, mas não garante prosperidade permanente. Regras previsíveis, controle dos gastos públicos, segurança jurídica e ambiente favorável ao investimento continuam necessários.
O Plano Real mostrou que o Brasil consegue enfrentar grandes problemas quando atua sobre suas causas estruturais. No entanto, o abandono gradual desses princípios recolocou antigos problemas no caminho.
Baixo crescimento, baixa produtividade, crises recorrentes e deterioração das condições de investimento voltaram a limitar o desenvolvimento. A principal lição do Real, portanto, está além da troca da moeda.
Moedas fortes dependem de instituições fortes. A estabilidade conquistada em 1994 retirou o Brasil da hiperinflação. Preservar as bases dessa transformação continua sendo um desafio brasileiro.