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Toda eleição é, em alguma medida, uma disputa pelo futuro. A de 2026 será ainda mais. A dívida pública brasileira amplia o peso das escolhas que serão apresentadas ao eleitor.
Nos próximos meses, ouviremos promessas de aumento de renda, novos benefícios, crédito mais barato e investimentos públicos. Também haverá propostas de desonerações e programas destinados a estimular a economia.
Como sempre ocorre em anos eleitorais, os benefícios serão apresentados com enorme clareza. Os custos, provavelmente, nem tanto. Por isso, uma pergunta deveria acompanhar cada promessa feita ao eleitor brasileiro: quem pagará essa conta?
A economia não começa novamente no dia da posse. O presidente eleito receberá um país carregando decisões acumuladas durante anos. Em junho de 2026, a Dívida Bruta do Governo Geral atingiu 81,9% do PIB, aproximadamente R$ 10,8 trilhões. Os dados constam nas Estatísticas Fiscais do Banco Central.
No mesmo período, os juros nominais pagos pelo setor público chegaram a 8,8% do PIB. Além disso, o déficit nominal acumulado em doze meses alcançou 9,99% do PIB.
A trajetória projetada continua ascendente. O Tesouro estima dívida equivalente a 83,5% do PIB ao final de 2026. Em 2029, a projeção chega a 87,9%, antes de uma eventual estabilização.
Esse é o verdadeiro ponto de partida da eleição. Porém, isso não significa que o Brasil enfrente uma crise fiscal iminente. Também não significa que o país tenha entrado definitivamente em dominância fiscal.
A evidência disponível não permite essa conclusão. O Banco Central continua capaz de afetar inflação e câmbio por meio da política monetária.
O espaço para corrigir erros está ficando progressivamente menor e mais caro.
Thomas Sargent e Neil Wallace demonstraram, há décadas, a relação entre políticas fiscal e monetária. O estudo Some Unpleasant Monetarist Arithmetic analisou os limites de trajetórias incompatíveis entre ambas.
Posteriormente, Olivier Blanchard examinou como dívida, risco soberano, juros e câmbio podem interagir em economias emergentes. O estudo Fiscal Dominance and Inflation Targeting: Lessons from Brazil foi publicado pelo National Bureau of Economic Research.
No Brasil atual, essa tensão já aparece no custo do dinheiro. O Copom reduziu a Selic para 14% ao ano em agosto de 2026.
Mesmo após o início da redução, as taxas de longo prazo permaneciam próximas ou superiores a 14%. Em agosto, contratos de DI para 2029 e 2031 superavam esse patamar. Isso importa porque o juro não é apenas o número anunciado pelo Copom a cada 45 dias.
Edward Chancellor oferece uma definição melhor em O Preço do Tempo: “Os juros […] são o preço do tempo. Não há definição melhor.” O preço do futuro brasileiro continua muito caro.
Quanto maior o retorno exigido nos títulos públicos, maior tende a ser a remuneração exigida nos investimentos privados. Essa relação entre juros soberanos e corporativos aparece em estudo do Fundo Monetário Internacional sobre mercados emergentes.
Uma fábrica, uma máquina, um empreendimento ou uma inovação precisam competir por capital. Ao mesmo tempo, existem alternativas financeiras altamente remuneradas disponíveis aos investidores.
Não existe almoço grátis, tampouco investimento grátis. Ludwig von Mises relacionou diretamente presente, poupança e formação de capital. Em Ação Humana, Mises sustenta que a acumulação adicional de capital depende de poupança. Isso exige produção superior ao consumo.
Para preservar ou ampliar o capital disponível, parte dos recursos precisa deixar o consumo presente. Dessa forma, eles podem sustentar uma oferta maior de bens no futuro.
É justamente essa escolha que a política brasileira insiste em tentar evitar. Queremos consumir mais hoje sem poupar mais. Queremos ampliar despesas sem aumentar permanentemente as receitas ou reduzir outras despesas.
Também queremos crédito barato independentemente do risco. Queremos juros menores sem enfrentar as razões que mantêm elevado o prêmio exigido pelo mercado.
Em outras palavras, queremos os benefícios do futuro sem aceitar os custos necessários para construí-lo.
Os números sobre investimento tornam essa contradição ainda mais preocupante. Nos doze meses encerrados em março de 2026, a Formação Bruta de Capital Fixo cresceu 1,4%. No mesmo período, a depreciação do estoque de capital avançou 1,6%.
Consequentemente, o investimento líquido ficou praticamente parado em termos reais. Ao mesmo tempo, a relação entre estoque de capital e PIB atingiu o menor nível desde 1996. Estamos discutindo como distribuir o crescimento quando deveríamos discutir como ampliar nossa capacidade de produzi-lo.
Esse é um ponto central da eleição de 2026. A escolha não deveria ser reduzida à velha discussão entre gastar ou cortar. Tampouco deveria se limitar a Estado ou mercado, esquerda ou direita.
O debate deveria considerar quais políticas aumentam a capacidade futura do Brasil. Isso inclui produzir, investir, inovar e crescer.
Philippe Aghion, Céline Antonin e Simon Bunel colocam a inovação no centro do crescimento de longo prazo. Em The Power of Creative Destruction, os autores analisam a relação entre inovação, instituições e prosperidade. O crescimento sustentado depende da acumulação sucessiva de conhecimento e inovação.
Por sua vez, a inovação responde aos incentivos produzidos pelas instituições e pelas políticas públicas.
Essa talvez seja uma das discussões que mais faltam ao Brasil. Passamos tempo demais debatendo como estimular a economia existente. Ao mesmo tempo, perguntamos pouco como construir a próxima.
A Argentina oferece um alerta interessante. Aghion e seus coautores analisam a trajetória econômica do país em sua obra. Em 1890, a renda per capita argentina correspondia a aproximadamente 40% da americana. Naquele período, também estava em nível semelhante ao registrado pelo Japão.
O país, entretanto, fracassou na transição para uma economia mais inovadora, segundo a interpretação apresentada pelos autores. Com isso, ficou preso no fenômeno conhecido como armadilha da renda média.
Para escapar dessa condição, países precisam migrar para atividades de maior valor agregado. A inovação ocupa papel central nesse processo. O Brasil deveria prestar atenção nessa história. Não existe garantia histórica de convergência. Países não se tornam ricos simplesmente porque o tempo passa.
Precisamos acumular capital, elevar produtividade, formar pessoas, preservar instituições e incentivar inovação. Além disso, novos empreendedores precisam conseguir substituir negócios menos eficientes.
Crescimento sustentável exige aquilo que a política frequentemente tem dificuldade de oferecer: pensar além da próxima eleição.
É por isso que 2026 importa tanto. Nenhum candidato terá capacidade de resolver sozinho problemas construídos durante décadas.
A dívida não desaparecerá em janeiro de 2027. Os juros acumulados continuarão existindo. O estoque de capital também não será reconstruído em quatro anos. A verdadeira escolha será sobre a direção das políticas adotadas. Continuaremos recorrendo a gastos, subsídios, crédito direcionado e novas intervenções?
Essas medidas continuarão sendo usadas para aliviar as consequências de intervenções anteriores? Ou começaremos a construir condições fiscais e institucionais diferentes? Essas condições podem permitir que o investimento privado volte a enxergar o futuro brasileiro como uma oportunidade, não como um risco.
Chancellor escreveu em O Preço do Tempo que “o dinheiro fácil serviu apenas para adiar o dia do ajuste de contas”. O Brasil é especialista em adiar esse dia. Porém, adiar uma conta não significa eliminá-la. Significa apenas transferi-la.
Por isso, talvez a pergunta mais importante de 2026 não seja quanto cada candidato promete entregar nos próximos quatro anos. É quanto cada um pretende deixar para aqueles que virão depois.
Uma geração pode financiar seu presente com dívida, consumir capital acumulado e transferir obrigações para a seguinte. Porém, ela não pode revogar as consequências econômicas dessas escolhas.
A eleição de 2026 decidirá quem governará o Brasil pelo mandato presidencial de quatro anos previsto na Constituição. Mas as decisões tomadas pelo próximo governo poderão ser pagas durante décadas.