
Compartilhar
Compartilhe o artigo via
Ou copie o link
O plano de saúde do Senado consumiu R$ 40,4 milhões em 2025. Senadores, ex-senadores e dependentes cobriram apenas R$ 5,1 milhões da conta. Os outros R$ 35,3 milhões saíram dos cofres públicos.
Os números vêm de levantamento do Ranking dos Políticos feito com dados obtidos pela Lei de Acesso à Informação. Ou seja, 87,2% do programa foi bancado pelo contribuinte.
O custo médio mensal por pessoa atendida no Senado chegou a R$ 5.362,59. Na Câmara, o mesmo indicador ficou em R$ 520,88, segundo o estudo. A diferença é de dez vezes entre duas Casas do mesmo Congresso.
O investimento público por habitante no SUS, por sua vez, é de R$ 116,50 mensais. O beneficiário do Senado custa 46 vezes esse valor.
Um detalhe passou batido na cobertura da imprensa. O cálculo divide o gasto pelo número de beneficiários, não pelo número de senadores. Portanto, os R$ 64 mil anuais não são o custo de um senador, e sim a média por pessoa atendida.

O levantamento contabilizou 629 beneficiários no fim de 2025. Desses, 79 eram senadores em exercício, 187 eram ex-senadores e 363 eram dependentes.
Isso significa que 87% dos atendidos não exercem mandato. Além disso, o benefício sobrevive ao fim do mandato e alcança cônjuges de ex-parlamentares. A regra está no Ato da Comissão Diretora nº 9/1995, que rege a assistência à saúde no Senado.

A Câmara opera um programa parecido e fechou 2025 no azul. O Pró-Saúde gastou R$ 8,2 milhões e arrecadou R$ 8,3 milhões, com superávit de R$ 131 mil. Duas diferenças de regra explicam boa parte do resultado.
Senadores pagam entre R$ 361,71 e R$ 673,29 por mês, conforme a faixa etária. Deputados em exercício contribuem com valores de R$ 166 a R$ 941,23. Ex-deputados que permanecem no plano pagam de R$ 792,82 a R$ 3.437,61.
Além disso, o titular do Pró-Saúde arca com coparticipação de 25% sobre cada despesa médica. A base de rateio também é maior, já que a Câmara tem 513 deputados contra 81 senadores.
O Senado ressarce atendimentos feitos fora da rede credenciada, na modalidade livre escolha. O limite chega a 20 vezes o valor da tabela do plano em consultas e visitas hospitalares. Nos demais procedimentos, o teto é de 15 vezes.
Ex-senadores e cônjuges têm ainda um limite anual de R$ 32.958,12 em reembolsos. Com isso, o desenho abre espaço para gasto elevado sem contrapartida na contribuição mensal.

“Há uma assimetria escancarada no Congresso. Enquanto a Câmara praticamente se autofinancia, o Senado depende de recursos públicos para bancar quase 9 em cada 10 reais gastos com a saúde de seus parlamentares”, afirma Luan Sperandio, diretor de operações do Ranking dos Políticos.
O quadro não é novo. Em 2024, as duas Casas somaram um rombo de R$ 36 milhões nos programas de saúde. A maior parte veio do Senado. A distância entre as duas, no entanto, aumentou desde então.

A primeira sugestão é ampliar a participação financeira dos próprios parlamentares. O subsídio de senadores e deputados está fixado em R$ 46.366,19 mensais. A contribuição máxima cobrada de um senador equivale a cerca de 1,5% desse valor.
A segunda proposta trata do limite de idade dos dependentes. Planos privados costumam aceitar filhos até 21 anos, ou até 24 anos para quem estuda. A Câmara admite filhos e enteados de até 33 anos desde 2016.
O ato que criou essa faixa determina cobrança de mensalidade específica, sem custeio por recursos públicos. Ainda assim, a regra não encontra paralelo no mercado e alcança filhos adultos de um grupo de alta renda.
A terceira recomendação restringe o reembolso a situações excepcionais. Dessa forma, o atendimento voltaria a se concentrar na rede credenciada, com custo previsível.
Nenhuma dessas alterações, no entanto, depende de nova lei. Os dois programas são regulados por atos internos, editados pela Comissão Diretora do Senado e pela Mesa da Câmara. As próprias Casas fixam contribuições, dependentes e limites de reembolso.
O benefício é legal e está previsto em norma interna. Porém, o desenho atual coloca o custo sobre quem não usa o serviço. O eleitor que depende do SUS financia um plano 46 vezes mais caro que o próprio atendimento.
Sperandio compara o caso aos penduricalhos do Judiciário, alvo de críticas nos últimos meses. Segundo ele, privilégios do sistema político tendem a ganhar peso na campanha, como já ocorreu em 2018.
“Enquanto o Senado não assumir uma fatia bem maior desse custo, vai continuar sendo o contribuinte, e não o próprio beneficiário, a pagar a conta”, diz Sperandio.