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O brasileiro está muito endividado, mas se acalme! O governo tem uma solução. E o Desenrola Brasil chegou na versão 2.0, em uma nova roupagem do mesmo programa criado em 2023. A intenção continua a mesma, diminuir o endividamento das famílias brasileiras.
Na primeira versão, o programa contemplou famílias com renda de até dois salários mínimos. Agora, atende brasileiros com salário de até R$ 8 mil. A segunda campanha de política pública em três anos, será que dessa vez solucionará o problema do alto endividamento brasileiro?
Para analisarmos a questão, é importante separar o fato de ter dívidas com o fato de estar inadimplente. A dívida é um motor econômico relevante, empresários tomam dívida para investir em seus negócios, cidadãos adquirem imóveis por meio de financiamento imobiliário, estudantes acessam o ensino superior por meio de financiamento estudantil.
O crédito é um facilitador para o consumo e é fundamental na economia moderna, seja no Brasil ou em países economicamente mais desenvolvidos. Precisamos separar a dívida entre dívidas boas (como essas que citei antes) e dívidas ruins, que são aquelas de altos juros como cheque especial ou crédito pessoal, geralmente feitas para custos de subsistência como compras de mercado, medicamentos, entre outros.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), o endividamento de pessoas físicas chegou a atingir 49,7% da renda disponível bruta das famílias em Outubro de 2025, se excluirmos o financiamento imobiliário, que costuma ter juro menor e prazos longos, o endividamento ainda chega a 31,2% da renda bruta das famílias.
O endividamento elevado já deveria ligar um sinal de alerta. Quando olhamos o número de brasileiros inadimplentes (negativados), chegamos a 49,9% da população adulta.
Será que um programa de renegociação de dívidas resolve o problema? A curtíssimo prazo talvez, a médio prazo não. O endividamento brasileiro é crônico e eu citaria duas esferas que corroboram para a continuidade do problema.
A primeira delas é cultural e vou descrever pelo termo “viés do valor de parcela”. Talvez só pelo nome o leitor já adivinhou do que se trata. Não importa muito para o consumidor o quanto custa algo no total, desde que a parcela caiba no bolso. Se todo consumo fosse a vista, por exemplo, certamente os hábitos de consumo seriam muito diferentes.
O brasileiro é capitalista, quer produtos de qualidade e diferenciados mesmo que não seja rico o suficiente para tal. Se a parcela cabe no bolso, ele vai optar por um celular melhor, uma roupa mais cara, um tênis mais caro. Mesmo parcelados, esses gastos acabam se acumulando e criando uma bola de neve.
Quem nunca teve um amigo que comprou um carro financiado quando começou a ganhar um pouco a mais? E isso mesmo comprometendo uma parte relevante da renda. Isso é uma questão cultural e vai além, é também de educação financeira. Além disso, o orçamento das famílias passou a conter mais itens em relação a décadas passadas. Hoje, são coisas como internet, serviços de streaming e, em alguns casos, infelizmente, até as conhecidas bets.
O segundo ponto é a taxa de juros do Brasil. O custo do crédito é ditado pela taxa de juros no país, a Selic. Por meio dessa taxa, o governo toma empréstimo para se financiar.
O governo está pagando uma taxa de juros em um patamar superior a 14% ao ano. Que juro uma pessoa física ou jurídica precisará pagar para acessar crédito? Pela lógica de mercado, pagaria no mínimo a Selic acrescida de uma taxa adicional. Essa taxa adicional varia conforme a avaliação de crédito do indivíduo ou empresa.
Estamos falando aqui de empréstimos rotineiros que podem chegar a 20% ao ano ou mais. Some-se a isso custos adicionais de IOF e eventuais taxas.
Quando o governo paga juros altos, drena recursos que seriam usados no crédito para fins produtivos ou consumo. Esse fenômeno é descrito na economia como Crowding Out. O governo gasta muito, o mercado exige juros mais altos para financiá-lo. Consequentemente, o crédito para o investimento privado torna-se caro.
Com grande segurança, posso afirmar que programas propostos pelo governo federal, como o “Desenrola”, não resolverão o problema, pois o endividamento crônico não é resolvido apenas renegociando as dívidas. A primeira versão do programa Desenrola (2023), que visava o público mais baixa renda e estatisticamente mais endividado, já se mostrou ineficiente. O número de inadimplentes está maior em 2026 mesmo após o programa de 2023.
A raiz do endividamento, considerando na ótica econômica os juros altos e perda do poder de compra e na ótica social o comportamento da população, não serão tratadas diretamente, tornando programas como o Desenrola medidas de curto prazo que só adiam a questão. Além de não solucionar o problema, o problema ainda traz um risco moral. O termo inglês Moral Hazard resume bem isso. Quando uma política pública prioriza o mau pagador, ela consequentemente está prejudicando o bom pagador.
Dentro do programa Desenrola existem condições para não só renegociações de dívidas, mas casos como o do FIES, em que é possível em determinadas condições o devedor inclusive ter desconto de até 12% sobre o principal da dívida, repito, o principal e não apenas os juros! Qual será a percepção do trabalhador que está pagando em dia, mesmo em dificuldades? É basicamente sugerir que ele pare de pagar e espere o próximo programa de renegociação de dívidas, quem sabe um Desenrola 3.0.
Antes que o leitor sugira que só trago críticas e não sou propositivo, vamos entrar em algumas possíveis soluções. Juntas, certamente amenizariam esse problema do endividamento e da alta inadimplência no Brasil.
Primeiro ponto, educação financeira nas escolas. É preciso ter uma noção de orçamento e fluxo de caixa além de entender conceitos básicos como inflação. Me parece que é feito um esforço para que mantenhamos os nossos estudantes limitados intelectualmente. Dessa forma, não passariam a desafiar o sistema à medida que amadurecem.
Segundo ponto, o Estado brasileiro é um exemplo de ineficiência. Mesmo com arrecadação recorde em 2026, no acumulado de 12 meses até março o rombo fiscal ultrapassou R$ 1,2 trilhão. Com isso, a dívida bruta foi para mais de 80% do PIB.
O gasto público influencia diretamente uma taxa de juros mais alta. Por isso, ocasiona o impacto de Crowding Out citado anteriormente. Já não basta a alta carga tributária no consumo, o cidadão brasileiro precisa também competir com o governo por crédito.
É difícil ser brasileiro.
Germano Laube é sócio da LDC Capital consultoria de investimentos, especialista em planejamento financeiro e diretor de Formação do Instituto de Formação de Líderes de Gramado. É fellow do Instituto Amplifica.