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Economia
13 de junho, 2026

Desenrola Brasil

Desenrola Brasil
Foto: O Desenrola Brasil é um programa do Governo Federal de renegociação de dívida | Ranking dos Políticos

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O brasileiro está muito endividado, mas se acalme! O governo tem uma solução. E o Desenrola Brasil chegou na versão 2.0, em uma nova roupagem do mesmo programa criado em 2023. A intenção continua a mesma, diminuir o endividamento das famílias brasileiras.

Na primeira versão, o programa contemplou famílias com renda de até dois salários mínimos. Agora, atende brasileiros com salário de até R$ 8 mil. A segunda campanha de política pública em três anos, será que dessa vez solucionará o problema do alto endividamento brasileiro?

Dívida no orçamento das famílias

Para analisarmos a questão, é importante separar o fato de ter dívidas com o fato de estar inadimplente. A dívida é um motor econômico relevante, empresários tomam dívida para investir em seus negócios, cidadãos adquirem imóveis por meio de financiamento imobiliário, estudantes acessam o ensino superior por meio de financiamento estudantil.

O crédito é um facilitador para o consumo e é fundamental na economia moderna, seja no Brasil ou em países economicamente mais desenvolvidos. Precisamos separar a dívida entre dívidas boas (como essas que citei antes) e dívidas ruins, que são aquelas de altos juros como cheque especial ou crédito pessoal, geralmente feitas para custos de subsistência como compras de mercado, medicamentos, entre outros.

População adulta negativada

De acordo com o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), o endividamento de pessoas físicas chegou a atingir 49,7% da renda disponível bruta das famílias em Outubro de 2025, se excluirmos o financiamento imobiliário, que costuma ter juro menor e prazos longos, o endividamento ainda chega a 31,2% da renda bruta das famílias.

O endividamento elevado já deveria ligar um sinal de alerta. Quando olhamos o número de brasileiros inadimplentes (negativados), chegamos a 49,9% da população adulta.

Por que o Desenrola Brasil não resolve o problema do endividamento

Será que um programa de renegociação de dívidas resolve o problema? A curtíssimo prazo talvez, a médio prazo não. O endividamento brasileiro é crônico e eu citaria duas esferas que corroboram para a continuidade do problema.

O viés do valor de parcela

A primeira delas é cultural e vou descrever pelo termo “viés do valor de parcela”. Talvez só pelo nome o leitor já adivinhou do que se trata. Não importa muito para o consumidor o quanto custa algo no total, desde que a parcela caiba no bolso. Se todo consumo fosse a vista, por exemplo, certamente os hábitos de consumo seriam muito diferentes.

O brasileiro é capitalista, quer produtos de qualidade e diferenciados mesmo que não seja rico o suficiente para tal. Se a parcela cabe no bolso, ele vai optar por um celular melhor, uma roupa mais cara, um tênis mais caro. Mesmo parcelados, esses gastos acabam se acumulando e criando uma bola de neve.

Quem nunca teve um amigo que comprou um carro financiado quando começou a ganhar um pouco a mais? E isso mesmo comprometendo uma parte relevante da renda. Isso é uma questão cultural e vai além, é também de educação financeira. Além disso, o orçamento das famílias passou a conter mais itens em relação a décadas passadas. Hoje, são coisas como internet, serviços de streaming e, em alguns casos, infelizmente, até as conhecidas bets.

Efeito Crowding Out

O segundo ponto é a taxa de juros do Brasil. O custo do crédito é ditado pela taxa de juros no país, a Selic. Por meio dessa taxa, o governo toma empréstimo para se financiar.

O governo está pagando uma taxa de juros em um patamar superior a 14% ao ano. Que juro uma pessoa física ou jurídica precisará pagar para acessar crédito? Pela lógica de mercado, pagaria no mínimo a Selic acrescida de uma taxa adicional. Essa taxa adicional varia conforme a avaliação de crédito do indivíduo ou empresa.

Estamos falando aqui de empréstimos rotineiros que podem chegar a 20% ao ano ou mais. Some-se a isso custos adicionais de IOF e eventuais taxas.

Quando o governo paga juros altos, drena recursos que seriam usados no crédito para fins produtivos ou consumo. Esse fenômeno é descrito na economia como Crowding Out. O governo gasta muito, o mercado exige juros mais altos para financiá-lo. Consequentemente, o crédito para o investimento privado torna-se caro.

O bom pagador e o mau pagador

Com grande segurança, posso afirmar que programas propostos pelo governo federal, como o “Desenrola”, não resolverão o problema, pois o endividamento crônico não é resolvido apenas renegociando as dívidas. A primeira versão do programa Desenrola (2023), que visava o público mais baixa renda e estatisticamente mais endividado, já se mostrou ineficiente. O número de inadimplentes está maior em 2026 mesmo após o programa de 2023. 

A raiz do endividamento, considerando na ótica econômica os juros altos e perda do poder de compra e na ótica social o comportamento da população, não serão tratadas diretamente, tornando programas como o Desenrola medidas de curto prazo que só adiam a questão. Além de não solucionar o problema, o problema ainda traz um risco moral. O termo inglês Moral Hazard resume bem isso. Quando uma política pública prioriza o mau pagador, ela consequentemente está prejudicando o bom pagador.

Dentro do programa Desenrola existem condições para não só renegociações de dívidas, mas casos como o do FIES, em que é possível em determinadas condições o devedor inclusive ter desconto de até 12% sobre o principal da dívida, repito, o principal e não apenas os juros! Qual será a percepção do trabalhador que está pagando em dia, mesmo em dificuldades? É basicamente sugerir que ele pare de pagar e espere o próximo programa de renegociação de dívidas, quem sabe um Desenrola 3.0.

Educação financeira

Antes que o leitor sugira que só trago críticas e não sou propositivo, vamos entrar em algumas possíveis soluções. Juntas, certamente amenizariam esse problema do endividamento e da alta inadimplência no Brasil.

Primeiro ponto, educação financeira nas escolas. É preciso ter uma noção de orçamento e fluxo de caixa além de entender conceitos básicos como inflação. Me parece que é feito um esforço para que mantenhamos os nossos estudantes limitados intelectualmente. Dessa forma, não passariam a desafiar o sistema à medida que amadurecem.

Segundo ponto, o Estado brasileiro é um exemplo de ineficiência. Mesmo com arrecadação recorde em 2026, no acumulado de 12 meses até março o rombo fiscal ultrapassou R$ 1,2 trilhão. Com isso, a dívida bruta foi para mais de 80% do PIB.

O gasto público influencia diretamente uma taxa de juros mais alta. Por isso, ocasiona o impacto de Crowding Out citado anteriormente. Já não basta a alta carga tributária no consumo, o cidadão brasileiro precisa também competir com o governo por crédito.

É difícil ser brasileiro.


Germano Laube é sócio da LDC Capital consultoria de investimentos, especialista em planejamento financeiro e diretor de Formação do Instituto de Formação de Líderes de Gramado. É fellow do Instituto Amplifica.