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Governo federal recolheu R$ 777,12 bilhões em impostos e contribuições no primeiro trimestre de 2026. Os dados foram divulgados pela Receita Federal em 28 de abril. O valor é o maior já registrado para o período desde o início da série histórica, em 2000. Além disso, representa alta de 4,5% sobre o mesmo intervalo de 2025, já descontada a inflação.
O resultado ocorre após a carga tributária bater recorde em 2025. Naquele ano, o peso dos impostos chegou a 32,4% do PIB, maior patamar em 16 anos. Quem paga essa conta é o contribuinte.
A carga tributária bruta do governo geral atingiu 32,40% do PIB em 2025, segundo dados preliminares do Tesouro Nacional. É o maior valor da série iniciada em 2010 e representa alta de 0,18 ponto percentual sobre 2024. O avanço foi puxado pela União, cuja participação subiu de 21,3% para 21,6% do PIB. Estados e municípios mantiveram-se relativamente estáveis.
Os impostos sobre bens e serviços continuam como principal componente, com leve recuo de 13,8% para 13,7% do PIB. Por outro lado, os tributos sobre renda, lucros e ganhos de capital subiram de 9,0% para 9,1%. O aumento reflete a sequência de medidas adotadas para ampliar a base de cobrança.
Entre os tributos que mais pressionaram o contribuinte em 2026 está o IOF. Em março, o imposto somou R$ 8,3 bilhões.
Segundo a Receita Federal, houve avanço real de 50,06% sobre o mesmo mês de 2025. O salto decorre do aumento das alíquotas sobre operações de câmbio e crédito, instituído por decreto em 2025.
A medida atinge quem precisa de financiamento, remete recursos ao exterior ou faz operações em moeda estrangeira. Portanto, o impacto não fica restrito ao mercado financeiro.
A tributação sobre dividendos também começou a pesar. A cobrança passou a valer em 2026, com alíquota de 10% sobre valores acima de R$ 50 mil mensais. Em março, gerou cerca de R$ 308 milhões.
O Imposto de Renda Retido na Fonte sobre rendimentos de capital subiu 20,4% em termos reais. O resultado foi influenciado pela maior tributação de fundos de renda fixa, juros sobre capital próprio, fintechs e bets.
O Impostômetro da Associação Comercial de São Paulo fechou 2025 marcando R$ 3,9 trilhões em tributos, taxas e contribuições pagos a União, estados e municípios. O valor representa alta de 10,5% sobre 2024 e é o maior já registrado pelo painel.
Segundo o economista da ACSP, Ulisses Ruiz de Gamboa, o avanço foi puxado pela inflação, que infla automaticamente a base de cálculo dos tributos sobre consumo, e por um conjunto de medidas que ampliaram a tributação ao longo do ano. Entre elas, a taxação de fundos exclusivos e offshores, a retomada da tributação sobre combustíveis, o imposto sobre as bets, a reoneração da folha de pagamentos e o fim de benefícios do Perse.
Mesmo com volume recorde, a arrecadação não cobre o gasto público. O painel Gasto Brasil, mantido pela própria ACSP, registrou despesas acima de R$ 5 trilhões em 2025, com R$ 2,1 trilhões da União, R$ 1,4 trilhão dos estados e R$ 1,4 trilhão dos municípios, conforme dados divulgados pela Acim. A diferença alimenta a pressão por novas altas de imposto e expõe um problema que não se resolve do lado da receita.
A projeção do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) indica que o brasileiro precisará trabalhar 153 dias em 2026 apenas para quitar tributos, o equivalente a 41,9% da renda anual. Em 2025, foram 149 dias, com a chamada libertação tributária em 29 de maio. O acréscimo de quatro dias é atribuído principalmente ao aumento do IOF.
O Brasil aparece em último lugar no Índice de Retorno de Bem-Estar à Sociedade (Irbes) entre as 30 nações com maior carga tributária, segundo cálculo do IBPT. O índice cruza arrecadação e qualidade dos serviços públicos prestados em saúde, educação, segurança e infraestrutura.
A complexidade do sistema também onera quem produz. Empresas brasileiras gastam entre 1.483 e 1.501 horas por ano para preparar, declarar e pagar impostos, segundo o relatório Doing Business Subnacional Brasil 2021, do Banco Mundial. A média da OCDE é de 159 horas. Na América Latina e Caribe, fica em 332.
A maior parte da arrecadação brasileira vem do consumo, o que faz o sistema ser considerado regressivo. Estudo da Oxfam Brasil divulgado pela Agência Brasil mostra que os 10% mais pobres comprometem 32% da renda com tributos, enquanto os 10% mais ricos gastam 21%. Considerando apenas tributos indiretos, a diferença chega a 28% para os mais pobres contra 10% para os mais ricos.
Em países da OCDE, a estrutura é diferente. Há maior peso da tributação sobre renda e patrimônio, com menor incidência sobre consumo.
Em 1º de janeiro de 2026 entrou em vigor a fase piloto da reforma tributária sobre o consumo, instituída pela Lei Complementar nº 214/2025. Pelo cronograma divulgado pelo Senado Federal, as empresas passaram a destacar IBS e CBS nas notas fiscais, com alíquotas de teste de 0,1% para o IBS e 0,9% para a CBS. O recolhimento efetivo está dispensado durante 2026.
A transição definitiva ocorrerá entre 2027 e 2032, com extinção total de PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS até 2033. A estimativa para a alíquota cheia do IVA dual está entre 26,5% e 28,6%, segundo análise do Tax Group, o que colocaria o Brasil entre os países com maior tributação sobre consumo do mundo. A média da União Europeia é de 21% e a da OCDE, 19%.
O setor de serviços, que representa 67,4% do PIB, deve ser o mais afetado, já que historicamente paga alíquotas menores. Segundo o Tax Group, o transporte rodoviário pode ter elevação de carga de 19,5% para 28%, com impacto estimado de 10% sobre o frete pela Confederação Nacional do Transporte. Como o modal rodoviário concentra a logística brasileira, o aumento tende a se transferir para o preço final dos produtos.
A meta oficial para 2026 é gerar superávit equivalente a 0,25% do PIB. Projeções de mercado, contudo, indicam que o resultado poderá ser deficitário ao fim do ano, mesmo com o salto da arrecadação. Ou seja, mais imposto e ainda assim menos caixa.
A reforma tributária deve simplificar o sistema, mas não reduz, por si só, a carga total. O governo trabalha com a premissa de neutralidade arrecadatória. O que se ganha em previsibilidade não se traduz em alívio para quem paga a conta.
Alan Martins é jornalista, designer gráfico e analista de comunicação do Ranking dos Políticos