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A crise no STF já deixou de ser um assunto restrito ao Judiciário. A 15 dias do primeiro turno, o conflito passou a disputar espaço com economia, segurança e propostas de governo. O caso ganhou força após a divulgação de mensagens do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Depois vieram embates entre ministros sobre as investigações relacionadas ao material.
Segundo o Datafolha, em reportagem da Folha de S.Paulo, 47% dos eleitores afirmam que a crise terá alguma influência na escolha para presidente. Para 36%, essa influência será grande. Outros 49% dizem que o episódio não terá efeito sobre o voto.
O dado mais importante não está apenas no tamanho do grupo afetado. A pesquisa também mostra que o desgaste não se concentra em um único campo político. Em pergunta com respostas múltiplas, 38% citaram Lula como possível prejudicado e 31% mencionaram Flávio Bolsonaro. Outros 25% disseram que a crise não prejudica as campanhas presidenciais.
O caso Master alcançou personagens ligados a diferentes grupos e produziu acusações cruzadas. Consequentemente, as campanhas tentam escolher quais partes do escândalo destacar e quais associações rejeitar.
Lula e Flávio Bolsonaro já incorporaram o Supremo ao discurso eleitoral. Flávio associou Lula a Alexandre de Moraes e falou sobre futuras indicações presidenciais à Corte. Lula, por sua vez, defendeu a atuação anterior de Moraes e direcionou acusações relacionadas ao caso Master contra adversários.
Outros candidatos seguiram caminhos próprios:
Esse deslocamento de atenção é um dos efeitos mais relevantes. A campanha de Lula reconheceu internamente que STF e Banco Master vinham dominando as conversas. Depois, avaliou positivamente a mudança de pauta provocada pelo reajuste do Bolsa Família. Caiado também reclamou publicamente que as propostas perderam espaço no debate.
Quando uma crise institucional domina a comunicação política, candidatos passam a gastar tempo respondendo a fatos que não controlam. Isso reduz o espaço disponível para comparar planos sobre impostos, gasto público, segurança, educação e crescimento. Ao mesmo tempo, vídeos curtos, declarações e recortes sobre o conflito ganham espaço na comunicação eleitoral.
Há outro ponto importante para entender a crise no STF nas eleições de 2026. Neste ano, serão renovadas 54 das 81 cadeiras do Senado, duas por estado e pelo Distrito Federal. A Constituição atribui ao Senado o julgamento de ministros do Supremo por crimes de responsabilidade. A Casa também aprova as indicações feitas pelo presidente da República à Corte.
Por isso, temas ligados ao Supremo podem ganhar peso também nas campanhas para senador. Sabatinas, critérios para nomeações e pedidos de impeachment têm conexão direta com as atribuições do cargo. O eleitor escolhe, portanto, integrantes de uma Casa que exerce controles constitucionais sobre o STF.
Outro efeito menos discutido está na ligação institucional entre STF e TSE. Nunes Marques preside o Tribunal Superior Eleitoral durante as eleições de 2026. André Mendonça ocupa a vice-presidência. Os dois também são ministros do Supremo e aparecem nos episódios recentes da crise interna da Corte.
Mendonça é relator do caso Master no STF e protagonizou divergências públicas com outros ministros. Nunes Marques declarou-se impedido de participar da sessão sobre Moraes após reportagens envolvendo seu filho. Também teve um confronto privado com Gilmar Mendes que se tornou público. Esses fatos não significam irregularidade na condução das eleições. Porém, criam um desafio adicional de confiança e separação entre a crise judicial e a administração eleitoral.
A eleição também passou a discutir com mais frequência a própria estrutura da Corte. Cury defendeu mandato de oito anos para ministros. Flávio Bolsonaro colocou as futuras indicações ao STF dentro de seu discurso eleitoral. André Mendonça, dentro do tribunal, defendeu a criação de um código de ética específico para o Supremo.
As propostas são diferentes entre si, mas mostram uma mudança de agenda. O funcionamento do Supremo deixou de permanecer apenas no debate jurídico e entrou na discussão eleitoral sobre desenho institucional. Nesse campo, previsibilidade das regras, transparência e limites entre os Poderes passam a disputar atenção com temas tradicionais da campanha.
O primeiro turno ocorre em 4 de outubro e um eventual segundo turno será realizado em 25 de outubro. Por causa da proximidade das datas, novos documentos, decisões ou sessões do STF podem alcançar rapidamente o debate eleitoral. Ao mesmo tempo, a pesquisa mais recente mostra que 49% dizem que a crise não influenciará sua escolha presidencial.
A crise no STF não determina sozinha o resultado das eleições. Ela já altera, porém, o ambiente no qual as campanhas competem. O conflito muda a pauta, obriga candidatos a responderem sobre o Supremo e aumenta a atenção sobre a eleição para o Senado. Também aproxima a crise da Justiça Eleitoral em plena reta final da votação. O efeito mais duradouro pode estar justamente nisso, onde instituições que normalmente arbitram conflitos passaram a integrar o próprio debate da campanha.