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Este texto integra O plano para o Brasil dar certo, livro de propostas de reforma institucional organizado pelo Instituto de Formação de Líderes de Belo Horizonte.
Camisa azul de um lado, camisa vermelha do outro. Entre gritos no estádio político, o cidadão esquece a racionalidade. Vivendo um coletivismo brasileiro doentio, prefere ignorar os fatos. Decide por paixões políticas e preconceitos de estimação, sem qualquer teste na vida real.
Nessa guerra de políticos de estimação e de supostos heróis, o indivíduo desaparece. As ideias próprias ficam inertes. Cada cidadão repete as narrativas de seus líderes, sem juízo de valor e com medo de pensar sozinho.
Dizer que a torcida é irracional não explica nada, afinal toda torcida é. A pergunta que importa é outra. Em que momento pertencer ao grupo deixa de proteger o indivíduo e passa a substituí-lo?
E é exatamente isso o que acontece. Na busca por conforto, o indivíduo se dilui na massa. Com isso, o grupo passa a pensar e a decidir por ele.
Quando isso acontece, os efeitos sobre a construção do país são graves. Em vez de discutir ideias e projetos de forma sensata, mistura-se tudo com torcida e pensamento tolhido pela tribo.
Pior ainda, o cidadão diminui o próprio rigor moral para não ser excluído do grupo, mesmo discordando dele. Prefere que a tribo decida, afinal assumir responsabilidades é desconfortável. Mas há um custo.
Quanto mais inserido na tribo, mais fraco o indivíduo se torna. Dessa forma, populistas, ditadores e falsos heróis dominam o pensamento coletivo e anulam o individual.
A polarização política brasileira é a maior demonstração desse excesso, afinal são torcidas organizadas, não pessoas pensantes. Ao mesmo tempo, um grupo odeia o outro de forma visceral e irracional.
Porém, observando de perto, vemos pessoas de vários níveis sociais sofrendo da mesma maneira. Elas se digladiam apenas para pertencer a um grupo falido.
Um mora na rua, outro num bairro simples, outro num condomínio de luxo. Todos torcem pelo mesmo grupo e padecem do mesmo risco, a cegueira gregária. Diante disso, esse problema grave precisa ser admitido e combatido.
Qualquer ideia que diverja do líder supremo é combatida pelo grupo. O indivíduo não tem chance de pensar e, muito menos, de criticar. No cotidiano, isso vira o famoso “quem ele pensa que é?”. Esse mecanismo social nivela por baixo quem ouse se destacar ou agir fora da norma coletiva.
E é aqui que o cotidiano encontra a política. O mesmo reflexo que pune o vizinho que pensa diferente é instrumentalizado pelas elites. Elas transformam o adversário em inimigo.
Um cidadão que pensa por conta própria atrapalha quem sonha com um grupo cada vez mais homogêneo. Isso porque, ao pensar sozinho, seus valores individuais afloram. Eles trazem a heterogeneidade necessária a uma sociedade melhor.
Esse “nós contra eles” não é acidente. É instrumento das elites políticas. E opera num terreno fértil, porque ideais nobres como liberdade e igualdade frequentemente colidem.
Se o objetivo é forçar a igualdade absoluta, sacrifica-se a liberdade individual. Como a perfeição é inalcançável e os valores muitas vezes entram em conflito, a lição mais importante torna-se a tolerância. É preciso respeitar quem pensa diferente, fazer concessões e não tentar impor uma verdade única a todos.
É justo reconhecer um lado positivo desse coletivismo, a rede de apoio. Em momentos difíceis, é o coletivo que oferece sustento: família, associações, sindicatos.
Isso se traduz em grande capacidade de mobilização social e hospitalidade. Além disso, gera empatia diante de tragédias e facilidade para o trabalho em equipe.
O vínculo social, em si, não é o problema. Na verdade, é uma das melhores coisas que temos. Contudo, o problema nasce quando esse vínculo deixa de conviver com as regras impessoais e passa a substituí-las.
Aí o mesmo traço que gera solidariedade gera, quase junto, o patrimonialismo e a confusão entre público e privado. Dele nasce também o “jeitinho”, que aciona o “conheço alguém que conhece alguém” em busca de benefício próprio. Assim se obtém o que a regra impessoal não garantiria.
No fim, o coletivismo brasileiro raramente busca o bem comum de cidadãos desconhecidos. Busca o benefício exclusivo do próprio grupo.
Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil (1936), definiu o brasileiro como o “homem cordial”. Não significa que sejamos “gentis”, mas que agimos movidos pelo coração (cor, cordis).
Nesse coletivismo, valorizamos os laços emocionais acima de regras abstratas e impessoais. Preferimos fazer negócios com amigos e conhecidos em vez de estranhos. Além disso, priorizamos o grupo imediato em detrimento do indivíduo isolado ou do rigor da lei.
No interior, onde as pessoas estão mais próximas umas das outras, isso fica ainda mais visível. É comum ver uma fila de hospital público ser furada porque o fulano conhece o médico. O mesmo vale para qualquer outro serviço.
Quanto menor a comunidade e mais densos os laços, mais forte o personalismo. Consequentemente, mais fraca fica a regra que deveria valer para todos.
Daí a frequência com que se justifica emocionalmente o que deveria ser tratado com pragmatismo. Muitas vezes, o apelo é falso e enviesado. Para entender o que está em jogo, dois conceitos ajudam.
Friedrich Hayek, em A Arrogância Fatal (1988), denuncia o “construtivismo”. É a postura de planejadores que acreditam deter, num gabinete, todo o conhecimento necessário para moldar a sociedade.
Para ele, a sociedade é complexa demais para ser gerida de cima para baixo. No entanto, as instituições que melhor funcionam não surgiram por decreto. É o caso do mercado, do sistema de preços, do dinheiro e do idioma.
Elas foram moldadas pela interação de milhares de indivíduos ao longo do tempo. São “ordens espontâneas”, resultado da ação humana, mas não de uma arquitetura humana deliberada.
O Brasil é um laboratório dessa lição às avessas. Boa parte da nossa economia real organizou-se apesar do Estado, e não graças a ele. É a economia do pequeno empreendedor, do autônomo e do comércio que nasce na esquina antes de qualquer plano.
Quando o poder público tenta desenhar de cima a vida econômica do cidadão comum, costuma errar. Porém, quando o cidadão encontra brecha para agir, a ordem emerge sozinha. Nenhum governador, por mais bem-intencionado, sabe de dentro do gabinete o que realmente funciona na ponta.
José Ortega y Gasset, em A Rebelião das Massas (1930), descreveu o “homem-massa”. É aquele que renuncia ao pensamento autônomo e prefere o conforto de seguir o rebanho.
Age por instinto ou paixão momentânea, repete o discurso dominante e abdica da própria individualidade. Não por acaso, Vargas Llosa lembra em O Chamado da Tribo o que Ortega pensava sobre o tema.
Para o filósofo, comunismo e fascismo são “dois claros exemplos de regressão substancial”. São conversões típicas do indivíduo em homem-massa.
O perigo aparece quando o comportamento de manada vira norma. Dessa forma, a sociedade fica vulnerável a ditadores e populistas. Essas figuras prosperam justamente sobre multidões que abriram mão de questionar.
Esse comportamento fica nítido nos movimentos de apoio cego a determinado político. Nesses casos, é praticamente impossível qualquer diálogo, por mais pragmático e imparcial que seja. Naquele momento, as pessoas estão defendendo a posição da sua torcida, independentemente da realidade.
Vejo a mesma coisa todos os dias no mercado financeiro, e ali não há política alguma. Por exemplo, o investidor prefere manter a posição da moda, aquela que todo mundo está comprando. Recusa uma escolha disciplinada e baseada em evidência, porque ela o deixaria sozinho.
É um movimento quase inconsciente e revela o fundo de tudo. As pessoas preferem estar erradas em grupo a estar certas sozinhas.
O chamado da tribo tem um argumento psicológico muito forte, pois é mais natural que o individualismo. Mas seres humanos têm capacidade crítica para entender o quanto isso faz mal no fim.
Por isso, vale a pena criar ferramentas, reformas e estudos que eduquem o cidadão. Existe um caminho melhor do que o de se diluir numa tribo, ainda que menos natural.
A sociedade precisa criar regras que levem o cidadão a uma posição mais livre. Ele precisa de possibilidades reais de pensamento e ação próprios. Diante disso, proponho cinco reformas.
Mesmo assim, a proposta não é demolir a casa toda e reconstruir um palácio perfeito do zero. É reformar com responsabilidade e coerência.
Ainda assim, é preciso deixar claro que pôr o indivíduo no centro não é negar a comunidade. O objetivo é limitar a pressão da tribo por meio de instituições impessoais. Elas devem valer igualmente para todos, sem depender do grupo a que você pertence. Comunidade forte e indivíduo livre só convivem quando a regra impessoal protege os dois.
Reformas que garantam a aplicação da lei e a proteção integral da propriedade, física e intelectual. O indivíduo precisa saber que, se estiver certo perante a lei, está protegido. Isso vale mesmo que 99% da tribo esteja contra.
Simplificar radicalmente o regime do trabalhador autônomo e da pequena empresa, indo além do MEI. Quem é dono do próprio sustento tem coragem de discordar da tribo. Porém, quem depende de uma estrutura coletiva, pública ou privada, para sobreviver, não tem.
Introduzir Lógica Formal, Educação Financeira Individual e Debate Competitivo no Ensino Médio. Dessa forma, o jovem aprende a analisar evidências por conta própria. Aprende também a defender uma ideia individualmente, mesmo quando ela é impopular no grupo.
Repassar, de forma mais contundente, poder de decisão e recursos para os municípios. No nível local, o impacto da decisão individual é visível.
O cidadão sente que sua voz tem mais peso na prefeitura do que em Brasília. Consequentemente, isso incentiva participação cívica consciente, em vez de militância de massa.
Quando o cidadão consegue um alvará ou uma consulta médica via algoritmo e regra clara, ele não “deve favores”. Nada fica devendo a uma liderança local ou a uma tribo política. Isso mata o coronelismo moderno.
Para o Brasil avançar, o espetáculo precisa acabar. Precisamos esvaziar os palácios da elite e o eterno Anfiteatro Flaviano da nossa política. Ali, a irracionalidade e a luta até a morte são a única regra.
Urge substituir o clamor da arquibancada pelo poder real de escolha. Só o pensamento autônomo blinda o cidadão contra populistas de meia tigela. Com isso, torcedores cegos voltam a ser donos do próprio destino.