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O que os candidatos prometem para a política externa cabe, em boa parte, em três frases repetidas. Ampliar parcerias comerciais, abrir mercados e reforçar o Mercosul aparecem em todos os planos entregues ao TSE. As divergências começam quando entram Brics, China e Estados Unidos.
Os documentos estão disponíveis no DivulgaCandContas, sistema oficial da Justiça Eleitoral. Neles, a extensão varia de 7 a 200 páginas, segundo levantamento do Poder360.
Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Augusto Cury (AVANTE), Renan Santos (MISSÃO), Romeu Zema (NOVO) e Ronaldo Caiado (PSD) dedicaram seções específicas ao tema. Os textos convergem na defesa de novos acordos e de maior presença brasileira na Ásia e na África, conforme comparação das propostas registradas.
Flávio Bolsonaro inclui a adesão do Brasil à OCDE e a internacionalização de pequenas empresas via BNDES e Apex. Caiado prioriza Ásia, África e Indo-Pacífico, além de pedir mais transferência de tecnologia nos acordos.
Renan Santos propõe parcerias com Vietnã e Filipinas e integração maior com países de língua portuguesa. Além disso, defende autonomia completa do ciclo do combustível nuclear como ativo de dissuasão.
Augusto Cury trata o tema da política externa pelo lado do valor agregado. O plano do Avante propõe reduzir a exportação de terras raras em estado bruto e projetar o Brasil como referência em hidrogênio verde. O documento inclui ainda um fundo internacional de apoio à agricultura familiar contra a fome.
Zema é o único que promete retirar o Brasil do Brics, conforme o resumo dos planos. O grupo não tem tratado constitutivo, sede fixa nem secretariado permanente. Uma saída depende de decisão do Executivo e de comunicação aos demais membros.
Lula segue no caminho oposto. Em fevereiro, chegou a sugerir que o Brics substitua o G20 como principal fórum econômico mundial. Renan Santos, por sua vez, fala em postura pragmática e menos dependência da China.
Zema também quer transformar o bloco em zona de livre comércio, o que significa desmontar a união aduaneira. A mudança altera a Tarifa Externa Comum e exige acordo entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
Desde 2000, a Decisão CMC 32/00 obriga os sócios a negociar acordos comerciais em conjunto. Por isso, qualquer abertura unilateral esbarra em regra que o país assinou e nunca denunciou. Nenhum plano explica como resolver esse ponto.
Caiado promete consolidar o entendimento entre Mercosul e União Europeia. O texto, contudo, já passou pelo Congresso. Os parlamentares promulgaram o Decreto Legislativo 14 em março de 2026.
A parte comercial entrou em vigor provisória em 1º de maio, depois da promulgação por decreto presidencial. Faltam a ratificação nos parlamentos europeus e o cumprimento dos cronogramas de redução tarifária.
O próximo presidente não vai negociar esse acordo. Vai administrar cotas, regras de origem e salvaguardas já pactuadas. A promessa de campanha, portanto, descreve uma tarefa administrativa, não uma decisão política.
Os Estados Unidos aplicaram sobretaxas a produtos brasileiros em julho, com base na Seção 301 da lei de comércio de 1974. As alíquotas somadas chegam a 37,5% em parte da pauta exportadora, e o prazo do USTR venceu sem acordo.
Brasil e Estados Unidos retomaram as conversas técnicas em 31 de agosto, após telefonema entre os dois presidentes. Nenhuma sobretaxa caiu até agora. O governo brasileiro também acionou a OMC e abriu processo de reciprocidade.
Nenhum plano de governo diz o que o Brasil ofereceria em troca. Minerais críticos e Pix aparecem entre os pontos de atrito nas negociações, mas ficam de fora dos documentos de campanha.
Acordo comercial não entra em vigor por canetada. Cada texto precisa de decreto legislativo aprovado pela Câmara e pelo Senado. Dessa forma, a agenda externa do próximo mandato depende do Congresso eleito em outubro.
A adesão à OCDE segue a mesma lógica. O roteiro de acessão foi aprovado em 2022, e o Brasil precisa convergir com centenas de instrumentos normativos da organização, conforme análise do Ipea. A decisão final cabe aos países-membros, não a Brasília.
Há ainda quem não trate do assunto. O plano de Wilson Grassi, do Partido Democrata, não apresenta diretrizes de política externa e registra que os critérios serão definidos com o Itamaraty depois da eleição.
A vizinhança também aparece pouco. O Brasil classificou a ação militar americana contra Nicolás Maduro como precedente perigoso, em nota conjunta com outros cinco países. Ainda assim, nenhum documento indica como o país agiria diante de novo episódio na região.
Quem lê os planos encontra listas de destinos e de boas intenções. Encontra pouco sobre instrumentos, prazos e custos. A distância entre as candidaturas está menos no mapa e mais no que cada uma admite ceder para conseguir o que promete.