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Checagem
October 15, 2026

Entrevista de Lula no Jornal Nacional: veja a checagem das 27 afirmações

Entrevista de Lula no Jornal Nacional: veja a checagem das 27 afirmações
Photo: Entrevista de Lula no Jornal Nacional: resultado da checagem de 27 afirmações

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A entrevista de Lula no Jornal Nacional, exibida em 15 de outubro de 2026 pela TV Globo, foi checada pelo Ranking dos Políticos afirmação por afirmação. Ao todo, 27 declarações factuais do candidato à reeleição passaram pela verificação, com base em fontes como Caged, TCU, Banco Central, MDIC e CNC.

O resultado: 8 afirmações falsas, 11 imprecisas e 8 verdadeiras. Os principais erros envolvem a taxa de aprovação de propostas do governo no Congresso, o número de empregos criados nos primeiros mandatos, a situação fiscal herdada em 2023 e a quantidade de obras paralisadas.

VereditoAfirmaçõesProporção
Verdadeiro829,6%
Impreciso1140,7%
Falso829,6%
Total27100%

Dois dos erros já haviam aparecido na checagem da sabatina de Lula no Jornal Nacional, no 1º turno: o déficit de 2,8% que o candidato diz ter herdado e os valores da dívida com o FMI. Agora, a poucos dias do 2º turno, o eleitor pode conferir quais falas resistem aos dados.

Como a checagem da entrevista de Lula no Jornal Nacional foi feita

A transcrição integral da entrevista foi lida bloco a bloco. Foram checadas apenas afirmações factuais e verificáveis feitas pelo próprio candidato. Perguntas e premissas dos entrevistadores, opiniões, avaliações subjetivas e promessas de campanha não entram na contagem. Trechos da transcrição com falhas de áudio foram interpretados pelo contexto e aparecem entre colchetes nas citações.

O que significa cada veredito

VERDADEIRO: a afirmação corresponde aos dados disponíveis.

IMPRECISO: a afirmação tem base real, mas contém números, datas ou contexto incorretos que alteram seu sentido.

FALSO: a afirmação é contrariada pelos dados disponíveis.

Economia e emprego: números inflados ou fora de contexto

O primeiro bloco reúne emprego, crescimento e comércio exterior. O maior desvio está nos empregos. Lula afirmou: “Tínhamos [criado] 22 milhões de empregos em oito anos”. Os dados do Ministério do Trabalho, porém, registram 15,04 milhões de vagas com carteira assinada entre janeiro de 2003 e dezembro de 2010. Pela Rais, que inclui servidores estatutários, o total sobe a 15,4 milhões.

Nos demais casos, o dado tem base real, mas aparece inflado ou fora do período. O Brasil de fato foi a sétima economia do mundo entre 2010 e 2014, mas o crescimento de 7,5% foi o de um único ano. Da mesma forma, a direção das trocas comerciais com EUA e China está certa, mas os percentuais citados são maiores que os registrados.

🔎 Diz que foram criados 22 milhões de empregos em oito anos; o Caged registra 15,04 milhões entre 2003 e 2010, e a Rais, 15,4 milhões. (Gazeta do Povo / Caged, LegisWeb / Rais) FALSO.

🔎 Afirma que o país bateu “outra vez” recorde de superávit comercial; o MDIC projeta US$ 84,4 bilhões em 2026, o que, se confirmado, seria o segundo maior saldo da série iniciada em 1989. (Mercado & Consumo / MDIC) FALSO.

🔎 Diz que o Brasil era a sétima economia e crescia 7,5% ao ano; a posição procede, mas 7,5% foi o crescimento de 2010, e a média do período Lula foi de cerca de 4% ao ano. (B3 Bora Investir, Vermelho) IMPRECISO.

🔎 Afirma ter pego a economia como 12ª, hoje 10ª e, no ano que vem, 8ª; em 2022 o país era a 11ª, terminou 2025 também em 11º, e a projeção do FMI é de 10º lugar em 2026 e 9º em 2027. (B3 Bora Investir, 2025, B3 Bora Investir, 2026) IMPRECISO.

🔎 Diz ter perdido 9% no comércio com os EUA e crescido 20% com a China; de janeiro a setembro de 2026, as exportações para os EUA caíram 6,5%, as importações, 7,1%, e as exportações para a China cresceram 12%. (Diário do Comércio / MDIC) IMPRECISO.

Contas públicas e dívidas: o bloco com mais erros

Este é o bloco em que a checagem encontrou a maior distância entre o que foi dito e os dados. Lula afirmou: “Eu peguei com um déficit de 2,8%”. Na verdade, o governo central encerrou 2022 com superávit primário de cerca de 0,5% do PIB, o primeiro desde 2013. O mesmo erro já tinha sido classificado como falso na checagem da sabatina do 1º turno.

Também não bateu a fala de que 72% da população estava endividada na posse. Segundo a Peic, da CNC, eram 78% das famílias em dezembro de 2022, e o indicador chegou a 82% em julho de 2026.

Nos programas de renegociação de dívidas, as falas misturam o que existe com o que ainda é proposta. O Desenrola 3 cobre dívidas de até R$ 10 mil, e não quatro mil, e os R$ 150 bilhões citados são o estoque de dívidas elegíveis, não o valor a ser gasto pela União. Já o perdão das dívidas dos MEIs, tratado como fato consumado, é um projeto de lei complementar anunciado em 13 de outubro, que depende do Congresso.

Houve também um acerto: a fala sobre o orçamento de 2027 com superávit primário de 0,1% está de acordo com a proposta enviada ao Congresso.

🔎 Diz que herdou déficit de 2,8%, mas o governo central fechou 2022 com superávit primário de cerca de 0,5% do PIB (R$ 54,1 bilhões), o último saldo positivo do governo federal. (Ipea, BP Money) FALSO.

🔎 Afirma que 72% da população estava endividada na posse; a Peic/CNC registrou 78% em dezembro de 2022 e 82% em julho de 2026. (Jornal Contábil / CNC, Mercado & Consumo / CNC) FALSO.

🔎 Diz que o governo compra dívidas de até R$ 4 mil e que “uns 150 bilhões” serão colocados no Desenrola 3; o programa cobre dívidas de até R$ 10 mil, com atraso de dois a quatro anos e meio, e os R$ 150 bilhões são o estoque elegível, não o gasto da União, que compra com deságio mínimo de 90%. (O Povo / Agência Brasil) IMPRECISO.

🔎 Afirma que houve perdão das dívidas dos MEIs, de R$ 12,7 bilhões; o valor anunciado é de R$ 12,6 bilhões, mas o perdão não ocorreu: trata-se de projeto de lei complementar, que só valeria a partir de 2027. (Gazeta SP, Congresso em Foco) IMPRECISO.

🔎 Diz que o Brasil devia US$ 30 bilhões ao FMI e emprestou US$ 15 bilhões depois da crise do subprime; o Brasil quitou US$ 15,5 bilhões em dezembro de 2005 e emprestou US$ 10 bilhões ao Fundo em 2009. (InfoEscola, Correio do Estado) IMPRECISO.

🔎 O PLOA 2027 projeta superávit primário efetivo de cerca de 0,1% do PIB; a meta fiscal formal é de 0,5%. (BP Money) VERDADEIRO.

Congresso, governo e obras: do “99%” às 100 mil obras

Um dos principais erros da entrevista está na taxa de aprovação de propostas no Congresso. Lula disse: “Nós aprovamos 99% de tudo que a gente queria aprovar”. Segundo levantamento do Aos Fatos com dados da Câmara, em 2023 e 2024, 22 dos 59 projetos de lei enviados pelo Executivo viraram norma, e o Congresso aprovou 20 das 131 medidas provisórias editadas (15,27%). O Congresso em Foco calculou taxa de sucesso geral de 42% no primeiro ano e sete meses do terceiro mandato, ante 61% e 58% nos dois primeiros.

Nas obras paralisadas, o número citado é cerca de dez vezes maior que o apontado pelo TCU. A fala sobre a Petrobras também foi classificada como falsa, porque a estatal não foi privatizada.

🔎 Diz que o governo aprovou 99% do que queria; em 2023 e 2024, 22 de 59 projetos de lei do Executivo viraram norma, e a taxa geral de sucesso foi de 42% no terceiro mandato. (Aos Fatos, Congresso em Foco) FALSO.

🔎 Afirma ter encontrado 100 mil obras paralisadas; o TCU apontou 8,6 mil em 2023 e 11.941 em levantamento de 2024. (TCU, 2023, TCU, 2024) FALSO.

🔎 Diz que se “privatizou a Petrobras a troco de banana”; a estatal segue sob controle da União, e o que foi privatizado foram a Eletrobras, em 2022, e a BR Distribuidora, antiga subsidiária da Petrobras. (Sul21, Suno) FALSO.

🔎 Afirma que todos os partidos participaram do ministério; os citados ocuparam pastas, mas a federação União Progressista (União Brasil e PP) determinou em setembro de 2025 que seus filiados deixassem o governo, o que atingiu os ministros do Esporte e do Turismo. (Jornal Opção) IMPRECISO.

Fome e saúde: um erro de atribuição e dois acertos

Na fome, Lula disse: “Eu tinha acabado com a fome em 2014, quando eu voltei tinha 33 milhões de pessoas passando fome”. A saída do Mapa da Fome da FAO ocorreu, de fato, em 2014, mas no governo Dilma Rousseff. Além disso, os 33,1 milhões são uma estimativa da Rede Penssan, que mede insegurança alimentar grave; pelo critério da FAO, eram cerca de 15 milhões.

Na saúde, os dois dados citados conferem: o número de médicos do Mais Médicos ao fim de 2022 e as cirurgias eletivas realizadas em 2025.

🔎 Diz que acabou com a fome em 2014 e que havia 33 milhões de famintos ao voltar; a saída do Mapa da Fome foi no governo Dilma, e os 33,1 milhões são estimativa da Rede Penssan (pelo critério da FAO, eram cerca de 15 milhões). (O Povo, FGV / CNN Brasil) IMPRECISO.

🔎 Afirma que o Mais Médicos tinha apenas 12 mil médicos quando voltou; em dezembro de 2022, eram 12.843 profissionais em atividade. (Agência Gov) VERDADEIRO.

🔎 Diz que foram feitas 15 milhões de cirurgias eletivas em 2025; o SUS realizou 14,7 milhões, número recorde, e o arredondamento é aceitável. (Medicina S/A / Agência Brasil) VERDADEIRO.

Caso Master e Judiciário: erros de cronologia e de atribuição

O bloco sobre o Banco Master trouxe um erro de datas. Lula disse que, depois de determinar que Daniel Vorcaro “você não vai ser perseguido, você vai ser investigado”, “um mês depois o banco fechou”. O encontro entre os dois no Planalto ocorreu em dezembro de 2024, e o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master em 18 de novembro de 2025, cerca de onze meses depois.

Sobre o envolvimento de ministros do STF, a checagem separa os dois casos citados. Um relatório da Polícia Federal citou Dias Toffoli, com mais de dez encontros com Vorcaro. Já André Mendonça é alvo de acusação do ministro Alexandre de Moraes por suposta interferência na PF e abuso de autoridade na condução do caso, e não por vínculo com Vorcaro. Portanto, as situações são distintas.

🔎 Diz que o Banco Master fechou “um mês depois” do encontro com Vorcaro; a reunião foi em dezembro de 2024, e a liquidação extrajudicial foi decretada em 18 de novembro de 2025. (InfoMoney, Itatiaia) FALSO.

🔎 Afirma que Toffoli e Mendonça estão implicados no caso Master; as situações são distintas: Toffoli foi citado em relatório da PF, enquanto Mendonça é alvo de acusação de Moraes por suposta interferência na PF, não por vínculo com Vorcaro. (CNN Brasil, CartaCapital) IMPRECISO.

🔎 Diz que fez a primeira reforma do Judiciário ao lado de Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello; a Emenda Constitucional 45 foi promulgada em dezembro de 2004, no governo Lula, mas o pacto foi assinado com o então presidente do STF, Nelson Jobim, e Gilmar Mendes participou do II Pacto Republicano, de 2009. (ConJur, 2004, ConJur, 2009) IMPRECISO.

🔎 Afirma que Flávio Dino pediu vista para que os casos fossem julgados na mesma sessão; Dino defendeu o julgamento conjunto dos casos de Moraes e de Mendonça antes de pedir vista, em setembro de 2026. (CartaCapital, Agência Brasil) VERDADEIRO.

Segurança pública e política externa: o que se confirmou

O último bloco concentra boa parte das afirmações verdadeiras. Os 138 presídios citados por Lula correspondem ao programa Brasil Contra o Crime Organizado, lançado em maio de 2026, que destina R$ 330,6 milhões para elevar 138 unidades prisionais ao padrão de segurança máxima. A Lei Antifacção (Lei 15.358/2026), sancionada em 24 de março de 2026, de fato aumenta as penas por participação em organização criminosa ou milícia.

Também se confirmou a prisão de Márcio Canella pela Polícia Federal em 15 de outubro, na 8ª fase da Operação Unha e Carne, e a informação de que Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio Bolsonaro, havia sido escolhida como 1ª suplente na pré-candidatura de Canella ao Senado, da qual ele desistiu. O telefonema a Donald Trump, em 21 de agosto, também ocorreu como descrito.

A única imprecisão do bloco está na proposta do PL sobre a maioridade penal. A emenda do partido à PEC da Segurança prevê maioridade penal aos 16 anos como regra geral e responsabilização a partir dos 14 apenas em determinados crimes graves, e não a redução geral para 14 anos.

🔎 Diz que o PL tentou reduzir a maioridade penal para 14 anos; a emenda do partido à PEC da Segurança prevê 16 anos como regra geral e responsabilização a partir dos 14 apenas em determinados crimes graves. (Transmissão Política) IMPRECISO.

🔎 Afirma que o governo vai financiar 138 presídios; o programa Brasil Contra o Crime Organizado, de maio de 2026, destina R$ 330,6 milhões para elevar 138 unidades ao padrão de segurança máxima. (Poder360) VERDADEIRO.

🔎 Diz que foi aprovada a lei antifacção, que aumenta as penas; a Lei 15.358/2026, sancionada em 24 de março de 2026, aumenta as penas por participação em organização criminosa ou milícia. (A União) VERDADEIRO.

🔎 Relata a prisão de Márcio Canella pela PF no Rio de Janeiro e a escolha da mãe de Flávio Bolsonaro como suplente dele; a prisão ocorreu em 15 de outubro, na 8ª fase da Operação Unha e Carne, e Rogéria Bolsonaro havia sido escolhida 1ª suplente da pré-candidatura de Canella ao Senado. (Poder360) VERDADEIRO.

🔎 Afirma ter ligado a Trump por quase uma hora e meia para reclamar do Conselho de Segurança da ONU; em 21 de agosto de 2026, Lula telefonou a Trump, a conversa durou 1h20, e Lula lamentou a inoperância do Conselho. (Jornal do Brasil) VERDADEIRO.

O que a checagem da entrevista de Lula no Jornal Nacional mostra

O padrão desta entrevista está mais nos números do passado do que nos fatos recentes. Entre as oito afirmações falsas, três tratam do que o governo diz ter herdado em 2023 — o déficit, o endividamento das famílias e as obras paralisadas —, e uma quarta, dos empregos criados nos primeiros mandatos. Em contrapartida, as afirmações verdadeiras se concentram em programas e acontecimentos recentes, como o Mais Médicos, as cirurgias eletivas, a Lei Antifacção e o programa de presídios.

Vale conferir também a checagem da sabatina de Flávio Bolsonaro, adversário de Lula no 2º turno, para comparar o padrão de imprecisão entre os dois candidatos. Todo o processo segue os mesmos critérios e metodologia aplicados na série.

O Ranking dos Políticos é uma organização apartidária. Este relatório aplica os mesmos critérios a todos os candidatos checados.

LEIA MAIS: Veja o que é fato e o que é fake na entrevista de Lula na sabatina do Jornal Nacional