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A perda da pluralidade na universidade pública não constitui uma formulação teórica abstrata. Trata-se de uma realidade cotidiana e dolorosa vivida na própria pele.
Na prática acadêmica diária, assisti a colegas de longa data questionarem com agressividade o convite a palestrantes que trariam a perspectiva israelense ao campus. Um suposto rigor metodológico e ético que jamais é aplicado aos infindáveis eventos de viés antissionista radical realizados sem qualquer abertura para o contraditório.
Presenciei, estarrecido, grupos estudantis exigirem a expulsão de uma organização não governamental que buscava construir pontes e debates plurais sobre o Oriente Médio. Evidenciando que a tolerância universitária passou a ter lado definido. Essa atmosfera beligerante transbordou dos murais físicos para os canais institucionais oficiais.
Nas listas de e-mail corporativo, que reúnem compulsoriamente todo o corpo docente e funcional, discussões sobre o cenário internacional degeneram rotineiramente em linchamentos virtuais covardes.
Setores radicalizados monopolizam os espaços de interlocução promovendo o assassinato de reputações de qualquer acadêmico que ouse sair do atual modus operandi ideológico e defender Israel como um Estado que tem o direito de existir como expressão legítima da autodeterminação do povo judeu, sem ferir o direito dos demais povos, sejam quais forem.
O aspecto mais alarmante dessa realidade é a completa inércia das instâncias diretivas. Ignoram-se códigos de ética, omite-se a abertura de Processos Administrativos Disciplinares (PADs) para frear ofensas e intimidações explícitas.
E o resultado prático é o silenciamento pelo desgaste emocional, forçando dezenas de acadêmicos a abandonarem canais de trabalho transformados em trincheiras ideológicas.
O tecido das relações interpessoais desfez-se por complete após o massacre terrorista de 7 de outubro de 2023. Docentes passaram a utilizar redes sociais para classificar a resposta defensiva de Israel genericamente como genocídio, esvaziando a precisão conceitual do Direito Internacional e interditando o diálogo qualificado.
A contaminação ideológica atingiu níveis estarrecedores. Em determinado processo seletivo para contratação de docentes na área de Relações Internacionais, o edital oficial incluiu a absurda e aberrante equiparação entre nazismo e sionismo. Distorção histórica que só foi retificada após firme intervenção de entidades representativas da comunidade Judaica, junto à reitoria da época.
O impacto mais perverso e desolador dessa atmosfera recai diretamente sobre a formação dos estudantes.
Fui procurado por um pós-graduando que, ao pesquisar o Oriente Médio sob orientação de outro professor, foi alvo de perseguições antissemitas e necessitou de suporte para não interromper a carreira.
Da mesma forma, acolhi um aluno de graduação que desejava desenvolver seu Trabalho de Conclusão de Curso com abordagem analítica equilibrada, mas temia represálias e notas punitivas por parte de professores com posturas abertamente militantes.
Não importa o rigor metodológico ou a excelência curricular: quem destoa do dogma dominante é sumariamente estigmatizado como “reacionário” ou cúmplice de atrocidades.
Reduziu-se Israel a um espantalho monolítico, sequestrado tanto pela extrema-esquerda quanto pela extrema-direita para alimentar guerras culturais domésticas.
Ignora-se solenemente a vibrante e complexa realidade social de Israel onde judeus, árabes, drusos, cristãos, laicos e religiosos debatem e divergem intensamente na única democracia do Oriente Médio.
Achatar essa pluralidade empobrece o debate científico e desumaniza o ambiente educacional.
Esse ecossistema de intolerância universitária não flutua no vácuo. Ele se sustenta em um duplo padrão moral inaceitável.
Convivemos no campo das Relações Internacionais com a aceitação diplomática de autocracias consolidadas e teocracias opressivas que violam sistematicamente direitos humanos básicos. Nenhuma delas tem sua existência posta em xeque nos centros acadêmicos.
Contudo, o único Estado judeu do planeta, que também é a única democracia do Oriente Médio, é tratado como uma anomalia que deveria ser varrida do mapa e que é o significado literal do slogan “Do Rio ao Mar”, amplamente divulgado nas manifestações supostamente pró-palestinas.
Enquanto diretórios acadêmicos e grêmios estudantis silenciam sobre o massacre de civis no Irã, a fome no Sudão ou a perseguição religiosa na Nigéria, proliferam faixas nos saguões universitários com manifestações que desafiam a existência de Israel e mascaram o antissemitismo com um verniz de “crítica geopolítica”.
Publicar estas reflexões trará consequências imediatas, como notas de repúdio de centros acadêmicos, hostilidade nos corredores e novos ataques digitais. Contudo, o silêncio confortável seria a cumplicidade definitiva com a destruição do pensamento crítico.
Expor a engrenagem do autoritarismo institucional é um dever cívico indeclinável. A universidade pública brasileira só voltará a cumprir seu papel emancipatório no momento exato em que o medo de falar for menor do que a vergonha de se calar.