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Este texto integra O Brasil Pode Dar Certo, livro de propostas de reforma institucional organizado pelo Ranking dos Políticos com apoio da Atlas Network.
O debate sobre o voucher educacional ganhou relevância diante dos persistentes desafios da educação brasileira. E o cenário é marcado por baixos índices de aprendizagem, desigualdade no acesso e dificuldades estruturais da rede pública de ensino.
O denominado cheque escolar (ou voucher educacional) é um mecanismo de política pública com desenho próprio. Nele, o Estado deixa de atuar exclusivamente como prestador do serviço educacional e passa a atuar como financiador. Os recursos financeiros são entregues diretamente às famílias. Elas recebem vales que podem cobrir custos de matrícula e mensalidade na escola privada de sua escolha. Para isso, a instituição precisa ser elegível e credenciada pelo programa.
A ideia foi originalmente formulada em 1955 pelo economista Milton Friedman. A premissa era que liberdade de escolha e concorrência poderiam estimular melhorias na qualidade do ensino. Da mesma forma, gerariam maior eficiência na utilização dos recursos públicos. Nesse modelo, o financiamento passa a acompanhar o estudante, e não exclusivamente a estrutura estatal de ensino. Com isso, criam-se incentivos para que as escolas busquem continuamente melhores resultados educacionais.
No Brasil, o debate sobre vouchers educacionais ganhou relevância diante dos gargalos históricos do sistema público de ensino. Os indicadores de aprendizagem permanecem alarmantes. Em nenhum estado brasileiro a proporção de estudantes que concluem a educação básica com aprendizado adequado em Língua Portuguesa e Matemática ultrapassa 10%.
Além da dificuldade de garantir qualidade, o país ainda enfrenta severos déficits de acesso. Mais de 329 mil crianças permanecem fora da pré-escola, etapa obrigatória da educação básica. Ao mesmo tempo, quase 2,3 milhões aguardam vaga em creches.
Diante dessa realidade, algumas regiões passaram a adotar parcerias emergenciais com a iniciativa privada. O objetivo é ampliar rapidamente a oferta educacional. No Distrito Federal, por exemplo, famílias de crianças sem vaga na rede pública passaram a receber auxílio financeiro para matrícula em instituições privadas de educação infantil. Em 2020, o então Ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a defender a criação de um amplo programa federal de vouchers voltado à primeira infância como instrumento de combate à desigualdade.
O modelo do Programa Universidade para Todos (Prouni) também é frequentemente citado como uma experiência parcial de voucher educacional. Contudo, especialistas observam que o programa diverge da concepção original formulada por Milton Friedman. Isso porque o Estado passou a adquirir vagas previamente definidas em instituições específicas. Na prática, essa escolha limitou a concorrência entre as escolas e a liberdade de escolha dos estudantes.
Nota do editor: o Prouni opera por meio de isenção tributária concedida às instituições privadas como contrapartida à oferta de bolsas. Em 2012, o custo estimado foi de cerca de R$ 1 bilhão, com gasto anual de R$ 1.770,35 por beneficiário. O valor é bem inferior ao custo médio de um estudante no ensino superior público federal no período, de cerca de R$ 20.690,00.
A implementação dos vouchers no mundo apresenta resultados mistos, que trazem grandes reflexões para o desenho de políticas públicas:
É o caso mais emblemático e o único aplicado em larga escala nacional desde 1981, cobrindo 90% dos estudantes chilenos. O país apresenta os melhores resultados educacionais da América Latina, com investimentos proporcionais semelhantes aos do Brasil. Mesmo assim, o sistema é criticado por agravar a segregação socioeconômica, criando “escolas para pobres e escolas para ricos”.
Implementou o cheque escolar em 1992, acompanhado de uma descentralização para os municípios. O Estado atrelou as verbas à quantidade de alunos matriculados. Consequentemente, gerou competição direta entre escolas públicas e privadas. Após um bom desempenho inicial, os índices da Suécia no exame internacional PISA despencaram entre 2000 e 2012. Diante disso, políticos classificaram a medida como um fracasso por criar um abismo de classes. Entretanto, outras análises argumentam que as notas caíram devido à forte adoção de métodos construtivistas e sistemas de avaliação falhos, e não propriamente por causa dos vouchers.
Onde o modelo foi focalizado, os resultados tendem a ser consistentes. Na Colômbia, o programa PACES, voltado à baixa renda, atendeu mais de 125 mil alunos. Estudos mostraram que os beneficiados tiveram índice de reprovação 5% menor. As taxas de conclusão foram de 15 a 20 pontos percentuais mais elevadas. Além disso, o custo por aluno se provou 25% mais barato que na rede pública. Nos EUA, especialmente na Flórida, programas destinados a minorias e estudantes de baixa renda elevaram em 11% as chances de obtenção de um diploma de ensino superior.
A principal vantagem defendida é o empoderamento e a liberdade das famílias de baixa renda. Hoje, o sistema público brasileiro é tido como segregador. O aluno rico tem a liberdade de escolher entre as melhores escolas privadas. Por sua vez, o estudante mais pobre fica fadado ao ensino estatal, independentemente da qualidade da instituição em seu bairro. O voucher subverte essa lógica, pois o financiamento passa a seguir o indivíduo, e não a estrutura da escola.
Além disso, os defensores sustentam que a pressão exercida pelos pais inibe ineficiências. Afinal, eles podem simplesmente transferir o filho se a escola for ruim. Essa dinâmica facilita o afastamento de maus professores e evita paralisações políticas do ensino. Com isso, há potencial de reduzir custos totais para os cofres públicos e elevar o desempenho acadêmico sem exigir aumentos irreais de orçamento.
A grande preocupação com o modelo de vouchers é o risco do esvaziamento do ensino público e do aumento da desigualdade. Críticos alertam que esse sistema pode desviar recursos essenciais que deveriam focar na melhoria da infraestrutura pública.
O valor do cheque escolar raramente é suficiente para cobrir as mensalidades das instituições privadas de alto desempenho. Consequentemente, as famílias de menor renda muitas vezes acabam utilizando os vales em “escolas privadas de menor qualidade” ou “creches em casas adaptadas sem pessoal qualificado”. Enquanto isso, as instituições de elite se tornam ainda mais seletivas.
Outra barreira significativa no Brasil é a ausência de infraestrutura privada. Mais de 80% das crianças estão no sistema público. Dessa forma, transferi-las exigiria uma grande e imediata expansão da rede privada, o que é logisticamente improvável em curto prazo.
A evidência mostra que o repasse de vouchers para escolas privadas não funciona sozinho. O voucher demanda um “Estado forte” para mediar a transição. Para que essa política pública não se torne apenas um paliativo, alguns pilares são obrigatórios:
1. Regulação e fiscalização rigorosa: é preciso uma autoridade central que estabeleça os currículos mínimos e exija capacitação dos professores. Também cabe a ela fiscalizar de perto a infraestrutura. Assim, creches e escolas particulares improvisadas não atuarão apenas para lucrar em cima do repasse governamental.
2. Avaliações e transparência de dados: o sistema depende essencialmente da escolha dos pais. Para que façam boas escolhas e estimulem a concorrência, o Estado precisa aplicar avaliações padronizadas robustas, sem subjetividades. Além disso, os resultados de cada escola devem ser transparentes e acessíveis à população.
3. Continuidade (Pacto de Estado): um dos maiores problemas do Brasil é a constante interrupção de projetos educacionais. Para que as escolas privadas se estruturem para absorver a demanda, o sistema de vouchers precisaria ser um “pacto de Estado” que resista às mudanças a cada eleição. Isso porque os pagamentos não podem atrasar, como ocorreu e enfraqueceu o programa na Colômbia, por exemplo.
A adoção do voucher escolar como política pública em parceria com a escola privada oferece um potencial imenso de inovação. O modelo empodera as famílias e injeta competitividade na educação. Porém, apenas pode entregar melhores resultados e reduzir a desigualdade se for planejado como uma estratégia ampla. São necessários valores bem ajustados e rígida gestão governamental sobre a qualidade das instituições ofertantes.
Se bem estruturada, essa agenda tem potencial de contribuir para o Brasil avançar significativamente. O ganho seria especial no fortalecimento da primeira infância, etapa decisiva para reduzir desigualdades educacionais e ampliar oportunidades ao longo da vida.
por Amábile Pacios
É professora, gestora, autora, empresária e palestrante. Foi idealizadora do PAS da UnB, é conselheira do Ranking dos Políticos, do CNE e preside o Grupo Educacional Dromos.