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O Brasil nunca teve virada no segundo turno de uma eleição presidencial. Desde 1989, quem terminou o primeiro turno na frente venceu as sete disputas decididas em duas votações. Antes disso, nas eleições diretas de 1945 a 1960, o mais votado também sempre levou.
Desde a era Vargas, o segundo colocado nas urnas só chegou à Presidência uma vez, e pela força. Em 2026, porém, essa escrita enfrenta o teste mais duro. Com 100% das seções totalizadas, Flávio Bolsonaro (PL) somou 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula (PT).
Em 1930, Júlio Prestes teve 1.091.709 votos, contra 742.794 de Getúlio Vargas, candidato da Aliança Liberal. O paulista venceu, mas não tomou posse. Em outubro, a revolução derrubou Washington Luís e levou Vargas ao poder.
Quatro anos depois, a Assembleia Constituinte elegeu Vargas de forma indireta, com 175 votos, contra 59 de Borges de Medeiros. Em seguida, o golpe de 1937 criou o Estado Novo e suspendeu as eleições até 1945.
Entre 1945 e 1960, o país teve quatro eleições diretas, sempre em turno único. Eurico Gaspar Dutra (PSD) venceu em 1945 com 55% dos votos e foi o único do período com maioria absoluta. Getúlio Vargas, em 1950, e Jânio Quadros, em 1960, ganharam com 48%.
O caso mais extremo foi o de 1955. Juscelino Kubitschek (PSD) venceu com 35,68% dos votos, à frente de Juarez Távora (UDN), com 30,27%. Ou seja, quase dois em cada três eleitores escolheram outro candidato.
Em 1950, a UDN tentou barrar a posse de Vargas por falta de maioria absoluta, exigência que a Constituição de 1946 não fazia. Cinco anos depois, o partido repetiu a tese contra JK. Dessa vez, a crise só terminou com o movimento militar do marechal Henrique Lott, que garantiu a posse.
A Constituição de 1988 encerrou a dúvida ao exigir maioria absoluta dos votos válidos para eleger o presidente. Com essa regra, as eleições de 1950, 1955 e 1960 teriam ido ao segundo turno. Além disso, desde 1945, só três vencedores passaram de 50% no primeiro turno.
Depois de 1960, o país passou 29 anos sem votar para presidente. O regime militar escolheu seus generais de forma indireta. A transição também, em 1985, quando o Colégio Eleitoral deu 480 votos a Tancredo Neves contra 180 de Paulo Maluf.
Na volta do voto direto, só Fernando Henrique Cardoso dispensou a segunda rodada, em 1994 e 1998. Nas outras sete eleições, o líder da primeira votação levou a faixa.
Algumas campanhas encostaram no líder. Em 1989, por exemplo, Lula ganhou 29,8 pontos percentuais entre os turnos e ainda perdeu para Collor por 6 pontos. Da mesma forma, Aécio Neves (PSDB) começou 2014 oito pontos atrás de Dilma Rousseff (PT) e perdeu por 3,2.
A disputa mais próxima foi a de 2022. Jair Bolsonaro saiu do primeiro turno 5,23 pontos atrás de Lula e terminou a apenas 1,8 ponto. Mesmo assim, perdeu e virou o primeiro presidente derrotado numa tentativa de reeleição.
Lula disputa em 2026 a sétima eleição presidencial da carreira, com três vitórias e três derrotas no retrospecto. Afinal, ele nunca venceu uma eleição saindo do primeiro turno em segundo lugar.
Em 1989, Collor teve 30,48% no primeiro turno, contra 17,19% de Lula. No segundo, o candidato do PRN venceu por 53,03% a 46,97%. Foi a única vez em que Lula chegou à rodada final atrás do adversário.
Em 1994 e 1998, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) venceu Lula sem precisar de segundo turno. Na primeira disputa, o tucano chegou embalado pelo Plano Real. Na segunda, foi reeleito com 53,06% dos votos válidos.
Em 2002, Lula teve 46,44% no primeiro turno e 61,27% no segundo contra José Serra (PSDB). Quatro anos depois, repetiu a liderança diante de Geraldo Alckmin e fechou com 60,83%. Em 2022, saiu com 48,43% e venceu Bolsonaro por 50,90% a 49,10% na disputa mais apertada da história.
Dessa forma, 2026 é a primeira eleição desde 1989 em que Lula termina o primeiro turno atrás. Além disso, o petista perdeu 3,4 milhões de votos em relação ao primeiro turno de 2022, segundo levantamento da DW.
Desde 1945, as 14 eleições diretas para presidente reuniram 126 candidaturas. Alguns nomes insistiram. Eduardo Gomes perdeu em 1945 e 1950, e Ronaldo Caiado voltou às urnas em 2026, 37 anos depois de concorrer em 1989.
Flávio terminou 2.224.965 votos à frente de Lula, ou 1,87 ponto percentual. Nenhum líder de primeiro turno chegou à rodada final com margem tão curta. Ao mesmo tempo, os eliminados somaram só 7,81% dos votos válidos, a menor fatia já deixada em disputa.
A conta ajuda a medir o desafio. Os dez eliminados receberam 9,3 milhões de votos no primeiro turno, somados. Com o mesmo comparecimento, Lula precisaria de cerca de 62% desse total. Flávio, por outro lado, garantiria a vitória com 38%.
Três dos quatro principais derrotados fecharam com Flávio. Romeu Zema (Novo) declarou voto no senador no dia seguinte à eleição. Em 6 de outubro, Ronaldo Caiado (PSD) formalizou o apoio em ato em Goiânia, mesmo com o partido neutro.
Augusto Cury (Avante) mudou de posição. Depois de prometer silêncio, o terceiro colocado anunciou apoio a Flávio em 8 de outubro, após uma videochamada com o senador. Ainda assim, o apoio veio com condições, entre elas uma emenda para acabar com a reeleição.
Somados, Cury, Caiado e Zema tiveram 6,4 milhões de votos no primeiro turno. Ou seja, quase sete em cada dez votos dos eliminados foram para candidatos que hoje apoiam Flávio. Apoio, porém, não garante transferência. Em 2022, Simone Tebet declarou voto em Lula sem transferência significativa de eleitores, segundo análise de A Gazeta.
Por outro lado, Renan Santos (Missão) manteve a neutralidade e liberou o eleitor para votar em quem quiser. Entre os partidos, União Brasil, Republicanos, PP, Novo, Podemos e 17 diretórios estaduais do MDB também aderiram ao senador. Já Lula não fechou aliança com nenhum dos derrotados até agora.
Desde que a reeleição passou a valer, em 1998, só um presidente terminou o primeiro turno em segundo lugar. Foi Jair Bolsonaro, que saiu 5,23 pontos atrás de Lula em 2022 e perdeu a rodada final. Com isso, Lula agora ocupa a posição do adversário de quatro anos atrás.
A abstenção chegou a 21,08%, a maior desde 1998, com 33,5 milhões de eleitores ausentes. Esse contingente é 15 vezes maior que a vantagem de Flávio. Por isso, Lula pediu aos aliados que busquem parte dos eleitores que faltaram no primeiro turno.
Para governador, a história é outra. De 1990 a 2022, houve 120 segundos turnos estaduais e 35 terminaram em virada, quase três em cada dez. Em São Paulo, por exemplo, Mário Covas (PSDB) saiu 9,3 pontos atrás de Paulo Maluf em 1998 e venceu por mais de 10.
Nas viradas mais lembradas, o líder do primeiro turno tinha rejeição alta. Na disputa presidencial, porém, os dois finalistas carregam rejeição parecida. No Datafolha de julho, Flávio era rejeitado por 48% dos eleitores e Lula, por 46%.
Até esta terça-feira, 13 de outubro, duas pesquisas mostram a disputa presidencial em empate técnico. O levantamento BTG/Nexus, realizado entre 10 e 12 de outubro, aponta Flávio Bolsonaro com 52% dos votos válidos e Lula com 48%, repetindo o resultado do Datafolha divulgado no dia 8. Já o PoderData/AYA registra 51% para Flávio e 49% para Lula, uma redução de seis para dois pontos percentuais na diferença entre os candidatos em relação à rodada anterior.
Em 25 de outubro, o eleitorado decidirá se permanece uma sequência histórica iniciada em 1989: desde a redemocratização, todos os candidatos que lideraram o primeiro turno venceram a eleição presidencial. Flávio chegou à segunda etapa com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Uma vitória do petista representaria a primeira virada entre os dois turnos de uma eleição presidencial brasileira desde a adoção do sistema atual.