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O Brasil Pode Dar Certo
01 de junho, 2026

Tributação do mercado de capitais: riscos para o financiamento da economia real e caminhos para um desenho mais eficiente

Tributação do mercado de capitais: riscos para o financiamento da economia real e caminhos para um desenho mais eficiente
Foto: Gustavo Sung é um dos autores do livro 'O Brasil Pode Dar Certo' | Ranking dos Políticos

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Com o apoio da Atlas Network, foi possível publicar o livro O Brasil Pode Dar Certo. Para abrir a sequência de publicações da obra no site do Ranking dos Políticos, trazemos o artigo de Gustavo Sung.

O debate sobre a tributação do mercado de capitais no Brasil ganhou centralidade. Isso ocorre em um contexto de reconfiguração da política econômica. A agenda recente do governo federal tem sido marcada por iniciativas voltadas ao aumento de arrecadação. Além disso, há expansão de bases tributárias e revisão de benefícios fiscais. Nesse cenário, o mercado de capitais passou a figurar como um dos potenciais alvos de tributação.

Desde janeiro de 2023, o governo federal adotou ao menos 37 medidas de aumento de impostos. Estimativas alternativas apontam entre 25 e 27 iniciativas, a depender da metodologia empregada.

O país é marcado por juros estruturalmente elevados e recorrentes restrições fiscais. Nesse contexto, o financiamento de longo prazo depende cada vez mais de mecanismos privados. Essa discussão, no entanto, exige cautela.

Afinal, instrumentos como LCI, LCA, CRI, CRA, fundos imobiliários, Fiagros e debêntures de infraestrutura deixaram de ser alternativas marginais. Eles passaram a ocupar papel central na alocação de recursos para setores estratégicos, como o imobiliário e o agronegócio.

Tributação que atinge a economia real

Por conseguinte, diferentemente de outros setores, a tributação sobre instrumentos financeiros não afeta apenas investidores. Na verdade, ela impacta diretamente o custo e a disponibilidade de crédito para a economia real.

Além disso, alterações nesse arranjo podem gerar efeitos relevantes sobre investimento, produção e crescimento econômico. Isso vale especialmente para um país que já enfrenta restrições estruturais de financiamento.

Essa discussão vai além da tributação em si. Ela envolve, sobretudo, a capacidade de mobilizar capital privado para fechar o chamado financing gap. Ou seja, a diferença entre os recursos disponíveis e aqueles necessários para sustentar o crescimento de longo prazo. Trata-se de como financiar a economia real de forma eficiente, sustentável e alinhada aos objetivos de desenvolvimento do país.

Diante disso, o debate não deve se limitar à arrecadação de curto prazo. Pelo contrário, deve considerar o papel estratégico do mercado de capitais no financiamento de longo prazo da economia brasileira.

O alto custo do capital no Brasil

No caso brasileiro, esse desafio é agravado pelo elevado custo do capital. Afinal, o país convive historicamente com uma taxa de juros real entre as mais altas do mundo.

No início de 2026, a Selic em patamar elevado implica um juro real ex ante acima de 9% ao ano. Como resultado, isso encarece e restringe o crédito de longo prazo. É justamente esse crédito o necessário para investimentos produtivos, infraestrutura, habitação e produção agrícola.

Plano Safra e o limite do crédito

O resultado é um estrangulamento estrutural do crédito. No setor rural, por exemplo, o Plano Safra cobre apenas parte da demanda por financiamento. Por isso, torna-se necessária a busca por fontes alternativas.

Para se ter uma ideia, o programa somou cerca de R$ 508 bilhões na safra 2024/25. Em 2025/26, foram R$ 516 bilhões. São volumes expressivos, mas ainda insuficientes frente às necessidades do setor.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) traz outro dado. O funding do agronegócio já supera R$ 1 trilhão por safra. Isso evidencia a limitação estrutural das fontes tradicionais de crédito.

Mercado de capitais e crédito imobiliário

No mercado imobiliário, a dinâmica é semelhante. O déficit habitacional permanece elevado. Enquanto isso, a principal fonte de financiamento, a poupança, vem perdendo relevância. Além disso, há episódios recorrentes de captação líquida negativa.

Em 2025, o volume total de recursos destinados ao setor alcançou aproximadamente R$ 2,6 trilhões. Porém, sua composição mudou bastante. O Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo respondeu por cerca de 29% do total. Já os instrumentos de mercado, como CRIs e LCIs, passaram a representar parcelas próximas de 23% e 19%, respectivamente.

Trata-se de uma mudança estrutural. Nela, incorporadoras e instituições financeiras vêm recorrendo cada vez mais ao mercado de capitais para sustentar suas operações.

O peso do mercado de capitais no crédito

Esse movimento também pode ser observado na evolução dos instrumentos financeiros. Dados consolidados da B3 indicam que, em 2025, o estoque de LCIs atingiu aproximadamente R$ 510 bilhões. Os CRIs, por sua vez, somaram cerca de R$ 257 bilhões. Juntos, esses papéis totalizam quase R$ 770 bilhões direcionados ao setor de construção civil.

No agronegócio, o estoque de LCAs alcançou cerca de R$ 600 bilhões. Os CRAs, por sua vez, somaram aproximadamente R$ 178 bilhões. Dessa forma, são mais de R$ 770 bilhões destinados ao financiamento do setor.

No agregado, esses instrumentos representam mais de R$ 1,5 trilhão em funding direcionado à economia real. Em outras palavras, é um volume que dificilmente seria substituído pelo setor público. Isso exigiria aumento relevante de gasto fiscal ou elevação do custo do crédito.

As bases econômicas das isenções

A literatura econômica oferece base sólida para esse diagnóstico. Levine e Zervos (1998) mostram que tanto a liquidez dos mercados acionários quanto o desenvolvimento do sistema bancário estão positivamente associados ao crescimento econômico e aos ganhos de produtividade.

Da mesma forma, Demirgüç-Kunt e Levine (2001) destacam que bancos e mercados de capitais contribuem para o desenvolvimento. Eles oferecem serviços financeiros complementares que reduzem custos de informação e transação.

Do ponto de vista teórico, o ideal seria um sistema tributário neutro. Assim, ele evitaria distorções na alocação de capital. Trabalhos clássicos, como Harberger (1962) e Miller (1977), mostram que diferenças de tributação entre ativos podem levar a decisões subótimas. Nesse sentido, investidores passam a privilegiar retornos líquidos de impostos. Ainda assim, isso implica uma alocação menos eficiente do capital.

Quando a neutralidade tributária cede

Na prática, contudo, o mundo real impõe limitações a esse ideal. Em alguns casos, desvios da neutralidade tributária são justificáveis. Isso vale sobretudo quando há falhas de mercado, externalidades positivas ou objetivos de política pública.

Esse é o caso de setores como habitação e produção de alimentos. Afinal, eles possuem relevância econômica e social evidente.

Nesse contexto, os instrumentos isentos do mercado de capitais cumprem uma função específica. Eles viabilizam o financiamento de segmentos sem crédito suficiente, em volume e custo adequados, no sistema tradicional. A isenção, portanto, é um mecanismo indireto de redução do custo de capital para a economia real.

Tributação e o efeito no crédito

No caso desses instrumentos, a tributação tende a elevar o custo de captação. Em grande medida, esse aumento é repassado ao tomador final do crédito.

Em outras palavras, a tributação pode encarecer o financiamento para habitação e produção agrícola. Além disso, pode impactar negativamente a geração de emprego.

Isso não significa que o modelo atual seja isento de problemas. Afinal, incentivos tributários podem gerar distorções, arbitragem fiscal e concentração de renda.

No entanto, a solução não está em eliminar esses instrumentos de forma abrupta. Pelo contrário, está em aprimorar seu funcionamento dentro de uma agenda mais ampla de desenvolvimento do mercado de capitais.

O custo fiscal das isenções

Além disso, é fundamental avaliar o custo fiscal das isenções. Esse exame deve considerar as alternativas disponíveis. Estimativas do Ministério da Fazenda apontam um potencial de arrecadação. Tributar instrumentos como LCI e LCA poderia gerar cerca de R$ 20 bilhões ao ano. Contudo, essa análise precisa considerar os efeitos indiretos.

Caso a tributação reduza o fluxo de crédito privado, o governo tende a sofrer pressão. A resposta seria compensar a retração por meio de crédito subsidiado. Nesse cenário, o custo fiscal pode apenas mudar de forma. Em vez de renúncia tributária, haveria aumento de gasto público com subsídios.

Assim, a renúncia associada a esses instrumentos pode ser, em muitos casos, uma alternativa mais eficiente. Afinal, ela mobiliza capital privado e reduz a necessidade de intervenção direta do Estado.

Tributação do mercado de capitais e desenvolvimento

No fundo, a discussão sobre a tributação do mercado de capitais é uma discussão sobre desenvolvimento. O Brasil ainda enfrenta restrições estruturais de financiamento. Por isso, preservar e aprimorar os canais que levam recursos à economia real é condição necessária. Só assim será possível sustentar o crescimento de longo prazo.


por Gustavo Sung

Mestre em Economia pela FEA-RP/USP, formado em Economia pela FEA/USP e Economista-Chefe na Suno Research