Em breve
Estamos trabalhando nessa funcionalidade, volte depois para conferir

Compartilhar
Compartilhe o artigo via
Ou copie o link
Brasil: Colônia, Império e República. São períodos históricos diferentes, mas com algo em comum. O clima de tensão política atravessa cada um deles. Por isso, ajuda a entender por que a Revolução Constitucionalista de 1932 ainda marca a memória do país.
Nas revoltas coloniais, a tensão apareceu logo. Quem nunca ouviu falar na Conjuração Baiana, na Guerra dos Mascates ou na Inconfidência Mineira? Nos anos imperiais, o clima esquentou de novo. Vieram a Independência, a outorga da primeira constituição nacional, a Guerra dos Farrapos e a ascensão de um adolescente ao trono.
Já na República, a tensão continuou intensa. Houve ditaduras, golpes e revoluções em série. Mas, e se, além de todos esses episódios, o Brasil tivesse sido palco de uma guerra civil? Ficção? Não. O país presenciou um conflito que dividiu o território em dois lados.
De um lado, os paulistas, defensores de uma nação federalista. Do outro, os getulistas, adeptos de um estado central. Parafraseando Tom Jobim, o Brasil não é para principiantes. Ainda assim, muitos desses conflitos nasceram da busca por secessão e mais liberdade.
Traição. Esse foi o sentimento dos mineiros em relação aos paulistas nas eleições presidenciais de 1930. O motivo? Entre outros, a falta de fidelidade na chamada Política do Café com Leite.
Em 1889, com a proclamação da República (ou melhor, o golpe republicano), o Brasil mudou seu regime político. Na prática, porém, o poder seguiu concentrado como no período monárquico. Ele continuava nas mãos dos grandes proprietários agrários, sobretudo os cafeicultores.
Essa casta agrária era a mais poderosa da época. Além disso, dividia influência entre São Paulo e Minas Gerais. O café era o principal produto de exportação. Consequentemente, gerava boa parte da riqueza nacional.
Durante a maior parte da Primeira República (1889 – 1930), a oligarquia cafeicultora controlou o Estado. A paulista, em especial, conduziu a política federal conforme seus interesses. Nesse sentido, a hegemonia política se sustentou por décadas.
Para consolidar o comando, as lideranças cafeeiras de São Paulo e Minas Gerais buscaram um acordo. O pacto se dava por meio do Partido Republicano Paulista (PRP) e do Partido Republicano Mineiro (PRM). Juntos, indicavam um nome de consenso para o governo federal.
A escolha seguia uma alternância entre os partidos. Ora o candidato era do PRP, ora do PRM. Por isso, paulistas e mineiros elegeram quase todos os presidentes da República até 1930.
A prática ficou conhecida como Política do Café com Leite. O nome fazia alusão à economia dos dois estados, grandes produtores de café e leite. Com o acordo, seis paulistas e três mineiros foram eleitos, dos 11 presidentes eleitos no Brasil até 1930.
Em determinado momento, no entanto, os partidos não se entendiam mais. Os cafeicultores mineiros queriam limitar a influência dos paulistas. Além disso, exigiam maior participação no acordo. Foi na sucessão presidencial de 1930 que o desgaste chegou ao ápice.
O presidente do Brasil no pleito de 1930 era o paulista Washington Luís. O PRM apoiou a candidatura do então governador de Minas, Antônio Carlos.
Pela lógica do Café com Leite, Carlos seria o candidato natural. Mas o PRP rompeu a prática e indicou o paulista Júlio Prestes. Inconformados, os mineiros não chegaram a um consenso com os paulistas.
Diante disso, decidiram apoiar as oligarquias de Rio Grande do Sul e da Paraíba. Com o apoio conjunto, os três estados formaram um grupo político de oposição chamado Aliança Liberal. O bloco se oporia a São Paulo nas eleições.
O nome escolhido pela Aliança, no entanto, não foi Antônio Carlos. Foi o gaúcho Getúlio Vargas, com o paraibano João Pessoa para vice. Isso porque as disputas eleitorais eram separadas. Mesmo com a manobra, os mineiros e seus aliados foram derrotados por Júlio Prestes.
O episódio, porém, estava longe de acabar. As oligarquias de Minas, Paraíba e Rio Grande do Sul não aceitaram o resultado das urnas. Diante disso, desencadearam um movimento de revolta em várias regiões do país.
O resultado foi a deposição do então presidente Washington Luís. Júlio Prestes nem chegou a tomar posse. Getúlio Vargas, líder da revolução, instalou-se no poder, fechou o Congresso e centralizou a política em suas mãos. O golpe ficou conhecido como Revolução de 1930 e esquentou a temperatura da política brasileira.
Como diria Isaac Newton, toda ação tem uma reação. E aqui não foi diferente. Ao chegar ao poder, Vargas anulou a Constituição de 1891 e fechou o Congresso Nacional. Além disso, extinguiu os partidos políticos e começou a governar por decreto-lei.
Nos estados, o novo líder nacional depôs os antigos governadores. No lugar deles, nomeou interventores da sua confiança. Em São Paulo, ainda em 1930, Getúlio nomeou o militar João Alberto Lins de Barros. Além de não ser natural do estado, ele não conseguiu fazer uma boa gestão aos olhos locais.
Aborrecidos com o rumo do país, os paulistas queriam retomar o comando político perdido em 1930. Por isso, pediam maior autonomia para o estado. Também exigiam convocação de eleições e a promulgação de uma nova Constituição.
Se hoje os paulistas pedem menos centralismo, com o slogan “mais Brasil e menos Brasília”, naquela época o discurso era outro. O grito era “mais Brasil e menos Rio de Janeiro”. Isso porque a capital brasileira ainda era o Rio, de onde Vargas controlava o país.
Vargas retirou Lins de Barros e indicou um interventor paulista, o diplomata Pedro de Toledo. Também marcou as eleições dos deputados da Constituinte para 1933. Mesmo assim, a insatisfação paulista não foi contida.
No dia 23 de maio de 1932, uma manifestação contra o governo Federal aconteceu no centro de São Paulo. As forças leais ao governo reagiram e mataram quatro estudantes: Mário Martins de Almeida, Euclides Miragaia, Dráusio Marcondes de Sousa e Antônio Camargo de Andrade.
Os sobrenomes dos mortos foram imortalizados no acrônimo MMDC. Até hoje, é símbolo histórico para os paulistas. O ocorrido marcou a vida dos paulistanos e mudou o rumo do conflito.
O que estava em protestos e contestações tomou proporções bélicas. Além disso, a violência contra os estudantes introduziu no cenário político o ingrediente que faltava, os mártires. Consequentemente, aumentou o apoio da classe média paulista à causa constitucionalista. A guerra estava armada.
No dia 9 de julho de 1932, as tropas paulistas iniciaram a luta armada contra o governo Federal. Liderados pelo general Isidoro Dias Lopes, os constitucionalistas fizeram de tudo para vencer Vargas.
Na visão da historiadora e professora da Universidade de São Paulo e da Universidade de Princeton, Lilia Schwarcz, a Revolução Constitucionalista de 32 é a guerra civil brasileira. Isso mesmo que ela não tenha tomado o país inteiro.
“Os constitucionalistas buscavam retomar seus direitos perdidos com o golpe dado por Vargas. Foi a primeira resposta à Revolução varguista. Em 1930, ao centralizar o poder em suas mãos e dissolver a Constituição de 1889, Getúlio retirou a autonomia dos presidentes dos estados, atuais governadores. Os paulistas, contra esse centralismo, reagiram e deram início ao conflito”, afirmou Lilia.
A mobilização foi total. Nos poucos meses de conflito, São Paulo viveu um verdadeiro esforço de guerra.
A Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, virou o primeiro posto de alistamento de voluntários. Ali, os jovens foram convocados para os campos de batalha. Ao mesmo tempo, os industriais suspenderam suas produções e passaram a fabricar armamentos.
Centenas de estabelecimentos foram mobilizados por um cadastro da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e da Escola Politécnica da USP. Máquinas novas foram criadas. Outras foram adaptadas para fabricar cartuchos de fuzil, bombas, granadas e combustíveis. Além disso, houve produção de alimentos, roupas, uniformes e capacetes.
Para financiar os soldados paulistas, foi criada a Campanha do Ouro para o Bem de São Paulo. A população foi convocada a doar seus objetos de valor. Joias, alianças, correntes de relógio, prataria de família, crucifixos e outros objetos religiosos foram entregues. Foi uma manifestação de fé no conflito constitucionalista.
Para movimentar a economia, prejudicada pelo boicote federal e pelo bloqueio do Porto de Santos pela Marinha, o governo paulista emitiu bônus e moedas do Tesouro Estadual. Além do engajamento interno, São Paulo buscava aliados para o conflito.
Os paulistas esperavam apoio natural de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul. Afinal, ambos os estados também eram favoráveis a uma nova Constituição. No entanto, mineiros e gaúchos decidiram se manter leais ao Governo Provisório. O que fazer, então, diante dessa surpresa?
Foram 84 dias de enfrentamento. Nesse período, o governo central mobilizou mais de 300 mil homens. Do lado paulista, havia cerca de 200 mil voluntários, dos quais no máximo 40 mil em condições de combate. O desequilíbrio entre as forças governistas e constitucionalistas era grande.
A desproporção de armamentos também impressionava. São Paulo tinha sete pequenos aviões civis adaptados para enfrentar 24 aparelhos militares do governo. Os conflitos aconteceram principalmente na região do Vale do Paraíba, nas divisas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
As tropas paulistas tentaram resistir às investidas das forças varguistas. Ainda assim, a capital paulista chegou a ser atacada por aviões governistas. A quantidade de armamento entre as partes também foi desfavorável aos paulistas.
Para reduzir a desvantagem, os paulistas desenvolveram a “matraca”. O equipamento tinha manivela e uma roda dentada. Ao ser acionada, os dentes batiam em uma placa de metal. Com isso, o som simulava uma rajada de metralhadora. A ideia era travar o avanço das tropas varguistas diante da falta de munição.
“São Paulo ficou de mãos atadas. Os paulistas esperavam lutar com a ajuda de outros estados, mas terminaram ficando sozinhos. Com isso, a desproporção entre o exército constitucionalista e o exército federal ficou gritante”, afirmou Schwarcz.
Apesar da resistência paulista, no final de agosto as tropas sentiam a falta de equipamentos. Após três meses de batalha, os paulistas se renderam. Não tinham mais soldados suficientes nem mantimentos.
A rendição dos insurgentes foi assinada em 1º de outubro de 1932. As principais lideranças do movimento foram exiladas em Portugal.
“Foi uma má avaliação de forças por parte de São Paulo. Os paulistas estavam planejando fazer um barulho muito grande, mas, no final das contas, não aconteceu. A Revolução Constitucionalista de 1932 ficou mais como um símbolo da tentativa de independência política de São Paulo. O estado, ao observarmos a história do Brasil, sempre buscou uma maior autonomia frente ao poder Federal. O atual embate entre o governador paulista, João Doria, e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, por exemplo, é a continuação dessa histórica busca”, completou a historiadora.
Ainda que derrotados militarmente, os paulistas conseguiram o que queriam. Em 1933 foi realizada a Assembleia Nacional Constituinte. Ela elaborou uma nova Constituição para o Brasil, promulgada em 1934, a primeira Carta Magna da Era Vargas.
O conflito também fez com que o Congresso Nacional fosse reaberto. Além disso, os partidos políticos voltaram a funcionar. Getúlio Vargas foi eleito presidente da República por meio de eleição indireta. Dessa forma, encerrava-se o Governo Provisório e começava o Governo Constitucional. Nesse período, Vargas passou a governar sob diretrizes constitucionais.
As mudanças não param por aí. Apesar de adversários em 1932, Vargas não se afastou dos paulistas depois do conflito. Como o estado era o mais desenvolvido economicamente, o governo Federal manteve a política de valorização do café. A ideia era amenizar o impacto nas contas do estado no pós-conflito. Consequentemente, a manobra foi decisiva para a aproximação de Vargas com seus antigos inimigos.
Historiadores estimam que a Revolução Constitucionalista de 1932 tenha contabilizado cerca de mil mortos. Não existe um balanço firme e confiável. Além do hemisfério bélico, o conflito é lembrado por outros acontecimentos.
O criador do avião, Santos Dumont, viu sua invenção ser usada para a violência. Segundo relatos, ficou chocado com aviões do governo brasileiro bombardeando a cidade de São Paulo durante o conflito. Isso agravou seu quadro de depressão. Em 23 de julho de 1932, Dumont tirou a própria vida no Guarujá, no litoral paulista.
No campo eleitoral, a ascensão de Juscelino Kubitschek também teve origem no confronto. Juscelino participou do combate como médico dos governistas. Ele atendia aos feridos nos hospitais de campanha. Durante o conflito, conheceu Benedito Valadares.
Ao assumir a Interventoria de Minas Gerais, Valadares o nomeou chefe de gabinete. Anos depois, JK foi prefeito de Belo Horizonte. Em 1956, Juscelino Kubitschek foi eleito presidente do Brasil.
Na mídia, Paulo Machado de Carvalho e Cásper Líbero também despontaram após o conflito. Ambos eram comunicadores paulistas que atuaram na propaganda da revolução. Machado de Carvalho foi o fundador da Record TV. Também pavimentou o caminho para o surgimento da Jovem Pan.
Paulo Machado é avô do Tutinha, que atualmente comanda a emissora. Além disso, seu nome batiza o estádio do Pacaembu, palco do futebol paulista inaugurado em 1940.
Cásper Líbero foi voz firme da imprensa durante a guerra por meio de sua emissora, A Gazeta. Anos depois, em 1947, fundou a primeira escola de jornalismo da América Latina, a Faculdade Cásper Líbero, que segue em funcionamento.
A memória da Revolução Constitucionalista de 1932 ainda é muito valorizada pelos paulistas. O dia 9 de julho, data de início do confronto, virou feriado estadual desde 1997. A data paralisa atividades públicas e comerciais no estado.
Na cidade de São Paulo, há várias referências à revolução. Ruas, praças e viadutos foram nomeados com os sobrenomes dos combatentes. Além disso, o obelisco erguido no Parque Ibirapuera guarda os restos mortais daqueles que morreram lutando pelo último conflito armado de grandes proporções no Brasil.
por Pedro Costa