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O recorde de recuperação judicial no Brasil em 2025 acendeu o alerta para milhões de brasileiros. Afinal, foram 2.466 CNPJs que recorreram ao Judiciário para reestruturar dívidas. Esse número representa uma alta de 13% em relação a 2024. Além disso, é o maior volume registrado desde o início da série histórica da Serasa Experian, iniciada em 2012.
Diante de números tão assustadores, é natural temer que o país esteja à beira de um colapso econômico. No entanto, a resposta para esse medo é um enfático “não é bem assim”.
Na verdade, esse recorde amargo de recuperação judicial no Brasil é uma resposta natural do mercado. Por décadas, cultivou-se um comportamento imprudente de proteção a empresas ineficientes. Mesmo assim, por mais contraditório que pareça, esse processo pode limpar um sistema que passou muito tempo premiando a ineficiência.
Por isso, é preciso olhar para a verdadeira engrenagem do crescimento econômico, a produtividade.
A Produtividade Total dos Fatores (PTF) é, em termos práticos, a capacidade de fazer mais com os mesmos recursos. Para ilustrar o que ela significa, imagine duas padarias idênticas, com os mesmos ingredientes e a mesma quantidade de funcionários.
Se a Padaria A produz mais pães, ela tem uma produtividade maior. E o segredo passa pela eficiência da gestão, pela tecnologia utilizada e pelos fluxos de trabalho.
O problema é que o crescimento brasileiro das últimas décadas ocorreu essencialmente porque o país colocou “mais farinha e mais padeiros” na cozinha. Ou seja, fomos impulsionados por fatores como a demografia favorável e o preço alto das matérias-primas no exterior.
A “receita do pão”, porém, ficou estagnada. E a culpa não é de uma suposta preguiça do trabalhador. É de um sistema que protegeu as “Padarias B” da falência, criando uma legião de empresas ineficientes e sobrecarregadas.
Segundo o relatório “Emprego e Crescimento – A Agenda da Produtividade”, publicado pelo Banco Mundial em 2018, um trabalhador médio no Brasil é apenas cerca de 17% mais produtivo do que era há duas décadas. Em países de alta renda, o avanço no mesmo período foi de 34%.
O pior é que quanto mais o tempo passou, mais se protegeram empresas ineficientes de saírem do mercado. Apesar de o fenômeno já existir há várias décadas, a distribuição de produtividade era mais saudável em 1996 do que nos dias atuais.
Os estudos de Fernando Vasconcelos e de Barbosa Filho e Correa, utilizados como base pelo Banco Mundial, escancaram esse problema de forma muito visual.

Nessa maratona, as firmas produtivas efetivamente carregam a si mesmas e às empresas improdutivas nas costas. Se uma maratona já é difícil sozinha, imagine correndo com alguém em cima de você.
Enquanto os outros países apresentam uma distribuição mais normal da produtividade, com maior concentração no centro, o nosso país exibe claramente sua ineficiência produtiva. Consequentemente, o Brasil amarga a maior concentração de firmas ineficientes entre seus pares emergentes, conforme pode-se ver no gráfico comparativo. Um triste retrato do “país do futuro” que premia o fracasso passado e pune a prosperidade futura.

É aqui que vale lembrar da fala de Ron Swanson, o icônico personagem da série Parks and Recreation, que representa uma caricatura de um libertário norte-americano. Ao falar sobre falências de empresas, ele faz uma analogia ácida, porém certeira.
Uma empresa quebrando é como um animal agonizando na selva. Em vez de gastar recursos valiosos tentando salvá-lo e postergar seu sofrimento, o correto seria abatê-lo e usar sua carne para alimentar os demais.
Nesse sentido, quando uma empresa está morrendo, não se perde apenas o dinheiro público direcionado para salvá-la. Também se deixa de utilizar os ativos dessa empresa de maneira mais produtiva socialmente.
Máquinas, galpões e capital humano ficam presos em uma operação que não gera valor, quando poderiam estar nas mãos de um empreendimento eficiente.
Da esquerda à direita do espectro político, empresas quebrando é visto como um mau sinal, e a população cobra. Mesmo assim, o Brasil passou décadas impedindo esse “abate corporativo” e privando o restante da economia sadia de ativos que poderiam gerar muito mais retorno.
Dessa forma, o país construiu um verdadeiro parque de dinossauros para blindar a ineficiência. E isso se deu por vários caminhos.
Montanhas de crédito com juros subsidiados foram distribuídas para as famosas “campeãs nacionais”, escolhidas politicamente. Esse modelo sugou o dinheiro que deveria ir para pequenos negócios inovadores.
O próprio Banco Mundial apontou, em relatório de 2018, como as estratégias de promoção de “campeões nacionais” e os subsídios a indústrias específicas contribuíram para a retração de 1% na produtividade agregada do Brasil entre 1996 e 2015.
Além disso, o Simples Nacional, criado com a intenção de evitar o manicômio tributário, acabou punindo quem cresce. Um estudo do Banco Mundial mostrou que esse regime custa ao Brasil cerca de 1,2% do PIB e pode provocar distorções ao incentivar empresas a permanecerem pequenas para não perderem o benefício.
A Universidade de São Paulo (USP) também publicou pesquisa confirmando que o sistema tributário atual pode inibir o crescimento das micro e pequenas empresas.
Na prática, para tentar crescer, o empresário é incentivado a criar vários CNPJs, aumentando a complexidade tributária e direcionando esforços para atividades que não geram valor de fato. Com isso, o sistema quebra a cadeia de créditos de impostos, e as empresas preferem não expandir suas operações.
O resultado é uma nação de empresas estagnadas.
Para completar, o protecionismo fechou a economia brasileira. Por sua vez, isso garantiu que o empresário ineficiente não precisasse competir com produtos importados melhores e mais baratos, punindo diretamente o consumidor final.
O Brasil cometeu o gravíssimo erro de confundir “proteger o trabalhador” com “proteger o CNPJ que o emprega”. Ao encarecer artificialmente as demissões, prendeu-se o trabalhador em empresas “zumbis” improdutivas, que jamais terão lucro suficiente para investir em inovação ou pagar salários acima da inflação.
A desigualdade salarial brasileira também é ditada, em boa medida, pela baixa produtividade do local onde se trabalha. A solução moderna para o trabalhador não é, portanto, impedir que a empresa ruim feche. É criar mecanismos de requalificação profissional para que ele migre para empresas ou setores mais produtivos e receba salários melhores.
O estouro no número de recuperações judiciais é consequência direta do fim da era do dinheiro fácil e do início dos efeitos das reformas recentes.
Com a taxa Selic em patamares elevados, os bancos pararam de financiar quem não gera valor. Segundo a Serasa Experian, o custo financeiro acumulado dos últimos anos segue pressionando o caixa das empresas, especialmente aquelas mais alavancadas.
Ao mesmo tempo, a agropecuária liderou os pedidos de recuperação judicial em 2025, respondendo por 30,1% dos casos, seguida pelo setor de serviços com 30%. Os dados da Serasa Experian mostram que a participação do agro saltou de apenas 1,3% em 2012 para 30,1% em 2025.
A Lei nº 14.112/2020 modernizou o processo de falência, tornando-o mais rápido e útil. Com ela, máquinas, galpões e ativos de uma empresa ineficiente podem ser vendidos mais facilmente a um concorrente produtivo.
A legislação também passou a permitir que os próprios credores apresentem planos de recuperação e ampliou as possibilidades de financiamento para empresas em reestruturação, conforme detalhado pelo Ministério Público do Paraná.
Diante disso, a recém-aprovada Reforma Tributária do consumo tende a acabar com a punição ao investimento produtivo. Ao substituir a multiplicidade de tributos sobre consumo por um sistema mais racional, a reforma traz a promessa de destravar a economia de forma profunda e reduzir as distorções que, durante décadas, mantiveram empresas ineficientes artificialmente vivas.
A transição e o fechamento dessas firmas ineficientes doem no curto prazo, é verdade. Afinal, empregos são perdidos e comunidades são afetadas. Contudo, esse processo é bem-vindo quando se olha para o horizonte de longo prazo.
Com a eliminação da má gestão subsidiada, os preços caem, a inflação estrutural diminui e os salários reais sobem. O recorde de empresas colapsando no Brasil não é o atestado de óbito do país, mas sim o barulho inevitável de uma faxina profunda que precisava ser feita.
O dever de casa a ser feito é longo e doloroso, porém necessário para diminuir a fila de “zumbis”. Dessa forma, abre-se a chance de um Brasil muito mais produtivo, capaz de gerar prosperidade e fartura para todos.
Daniel Galvêas é doutorando em finanças pela Fucape, instituição em que leciona macroeconomia. É analista de políticas públicas do Ranking dos Políticos.