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Cuba e Venezuela acumulam dívidas bilionárias com o Brasil em operações ligadas a financiamentos do BNDES para exportação de serviços de engenharia. A conta virou um problema político porque parte dos pagamentos não veio, o Fundo de Garantia à Exportação foi acionado e a cobrança passou para a União.
Segundo a CNN Brasil, A Venezuela encerrou 2025 devendo US$ 1,856 bilhão ao Brasil, cerca de R$ 10,1 bilhões. A inadimplência começou em 2018 e, até agora, não há previsão de pagamento. O governo venezuelano também ignorou tentativas de negociação, segundo informações do Ministério da Fazenda citadas pelo InfoMoney.
Levantamento da IstoÉ, com dados do Ministério da Fazenda, mostrou que Cuba devia R$ 3,6 bilhões ao Brasil em abril de 2025, sem contar juros de mora. A Venezuela, no mesmo levantamento, aparecia com R$ 7,1 bilhões. Juntas, as duas concentravam a maior parte da dívida de países estrangeiros com o governo brasileiro.
Essas dívidas nasceram em operações de apoio à exportação. O BNDES afirma que o dinheiro era liberado no Brasil, em reais, para empresas brasileiras exportadoras, após comprovação dos serviços. O devedor, porém, era o comprador estrangeiro.
A explicação técnica é importante, mas não resolve o problema político. O dinheiro não era simplesmente transferido para Cuba ou Venezuela. No entanto, o risco dependia da capacidade desses governos de pagar. Quando o pagamento não veio, a garantia pública entrou em cena.
Nos registros do BNDES, Cuba aparece ligada a obras como a ampliação e modernização do Porto de Mariel. Já a Venezuela aparece em contratos como Metrô de Caracas, Metrô de Los Teques, Estaleiro Astialba e Siderúrgica Nacional.
O Porto de Mariel, em Cuba, virou o símbolo mais conhecido dessa política. A obra foi inaugurada em 2014, durante o governo Dilma Rousseff, e recebeu financiamento associado à exportação de serviços brasileiros. O discurso era de abertura de mercado para empresas nacionais.
O problema é que Cuba não era um cliente comum. Era uma ditadura com economia fechada, baixa capacidade de pagamento e histórico de dependência externa. Ainda assim, recebeu crédito com estrutura pública brasileira. Segundo dados publicados pelo BNDES, Cuba tinha US$ 364 milhões em prestações já indenizadas pelo Fundo de Garantia à Exportação na posição de dezembro de 2025.
Na Venezuela, o cenário é ainda pior. O país mergulhou em colapso econômico, hiperinflação, sanções, repressão política e fuga de milhões de cidadãos. Mesmo assim, contratos bilionários foram assumidos antes da inadimplência. Depois do calote, sobrou ao Brasil cobrar um governo que não mostra disposição real de pagar.
O Fundo de Garantia à Exportação, conhecido como FGE, cobre riscos de operações de exportação com garantia da União. Segundo o próprio BNDES, o fundo é vinculado ao Ministério da Fazenda e cobre riscos comerciais, políticos e extraordinários.
Isso explica por que o BNDES diz que não teve prejuízo direto. Quando Cuba e Venezuela atrasaram pagamentos, o seguro foi acionado. O banco foi ressarcido, mas a dívida não desapareceu, mudou de endereço e a União passou a cobrar os países devedores.
É aí que entra o contribuinte que, mesmo que o FGE tenha recursos próprios e histórico de arrecadação, a garantia é pública. Quando um país estrangeiro dá calote, a sociedade tem o direito de saber quem aprovou a operação, quais riscos foram aceitos e quais providências estão sendo tomadas para recuperar o dinheiro.
O Tribunal de Contas da União auditou operações do BNDES para exportação de serviços de engenharia em países da América Latina e da África. O próprio TCU informou que a análise envolveu financiamentos concedidos entre 2005 e 2014, incluindo normas internas e controles usados pelo banco.
Mesmo quando não há condenação direta, o debate público continua e a legalidade formal não significa boa decisão econômica. Um contrato pode seguir o rito interno e ainda assim representar risco ruim para o país.
Em março de 2026, foi sancionada a Lei 15.359, que reorganiza o apoio oficial ao crédito à exportação. A lei cria regras para financiamento, seguro e garantias.
O ponto mais relevante foi explicado pelo Senado Federal. O BNDES fica proibido de conceder novos créditos a países ou empresas estrangeiras inadimplentes com o Brasil, exceto em caso de renegociação formal da dívida.
A regra chega tarde, mas aponta o caminho certo e o país que não paga não pode receber crédito novo. Afinidade política, discurso diplomático ou promessa de integração regional não podem ficar acima da responsabilidade com dinheiro público.
Crédito à exportação existe em vários países e pode ajudar empresas nacionais a disputar contratos no exterior. O erro está em tratar regimes autoritários e mal pagadores como clientes normais. Cuba e Venezuela tinham sinais claros de risco político, fragilidade econômica e baixa previsibilidade institucional.
O Brasil deve apoiar empresas brasileiras, mas com critério. Operação com garantia pública precisa ter transparência, cobrança dura e limite de exposição. Se o risco é alto demais para o mercado privado, o governo não pode simplesmente empurrar esse risco para o contribuinte.
Cuba e Venezuela deram calote bilionário no Brasil e deixaram uma lição cara. Dinheiro público não pode servir como aposta diplomática.
Alan Martins é jornalista, designer gráfico e analista de comunicação do Ranking dos Políticos