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Economia
01 de maio, 2026

Cuba e Venezuela dão calote bilionário no Brasil e deixam conta para o contribuinte

Cuba e Venezuela dão calote bilionário no Brasil e deixam conta para o contribuinte
Foto: Ranking dos Políticos

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Cuba e Venezuela acumulam dívidas bilionárias com o Brasil em operações ligadas a financiamentos do BNDES para exportação de serviços de engenharia. A conta virou um problema político porque parte dos pagamentos não veio, o Fundo de Garantia à Exportação foi acionado e a cobrança passou para a União.

Segundo a CNN Brasil, A Venezuela encerrou 2025 devendo US$ 1,856 bilhão ao Brasil, cerca de R$ 10,1 bilhões. A inadimplência começou em 2018 e, até agora, não há previsão de pagamento. O governo venezuelano também ignorou tentativas de negociação, segundo informações do Ministério da Fazenda citadas pelo InfoMoney.

Levantamento da IstoÉ, com dados do Ministério da Fazenda, mostrou que Cuba devia R$ 3,6 bilhões ao Brasil em abril de 2025, sem contar juros de mora. A Venezuela, no mesmo levantamento, aparecia com R$ 7,1 bilhões. Juntas, as duas concentravam a maior parte da dívida de países estrangeiros com o governo brasileiro.

Como o Brasil entrou nessa conta

Essas dívidas nasceram em operações de apoio à exportação. O BNDES afirma que o dinheiro era liberado no Brasil, em reais, para empresas brasileiras exportadoras, após comprovação dos serviços. O devedor, porém, era o comprador estrangeiro.

A explicação técnica é importante, mas não resolve o problema político. O dinheiro não era simplesmente transferido para Cuba ou Venezuela. No entanto, o risco dependia da capacidade desses governos de pagar. Quando o pagamento não veio, a garantia pública entrou em cena.

Nos registros do BNDES, Cuba aparece ligada a obras como a ampliação e modernização do Porto de Mariel. Já a Venezuela aparece em contratos como Metrô de Caracas, Metrô de Los Teques, Estaleiro Astialba e Siderúrgica Nacional.

Porto de Mariel

O Porto de Mariel, em Cuba, virou o símbolo mais conhecido dessa política. A obra foi inaugurada em 2014, durante o governo Dilma Rousseff, e recebeu financiamento associado à exportação de serviços brasileiros. O discurso era de abertura de mercado para empresas nacionais.

O problema é que Cuba não era um cliente comum. Era uma ditadura com economia fechada, baixa capacidade de pagamento e histórico de dependência externa. Ainda assim, recebeu crédito com estrutura pública brasileira. Segundo dados publicados pelo BNDES, Cuba tinha US$ 364 milhões em prestações já indenizadas pelo Fundo de Garantia à Exportação na posição de dezembro de 2025.

Na Venezuela, o cenário é ainda pior. O país mergulhou em colapso econômico, hiperinflação, sanções, repressão política e fuga de milhões de cidadãos. Mesmo assim, contratos bilionários foram assumidos antes da inadimplência. Depois do calote, sobrou ao Brasil cobrar um governo que não mostra disposição real de pagar.

Seguro protege o banco, não apaga o prejuízo público

O Fundo de Garantia à Exportação, conhecido como FGE, cobre riscos de operações de exportação com garantia da União. Segundo o próprio BNDES, o fundo é vinculado ao Ministério da Fazenda e cobre riscos comerciais, políticos e extraordinários.

Isso explica por que o BNDES diz que não teve prejuízo direto. Quando Cuba e Venezuela atrasaram pagamentos, o seguro foi acionado. O banco foi ressarcido, mas a dívida não desapareceu, mudou de endereço e a União passou a cobrar os países devedores.

É aí que entra o contribuinte que, mesmo que o FGE tenha recursos próprios e histórico de arrecadação, a garantia é pública. Quando um país estrangeiro dá calote, a sociedade tem o direito de saber quem aprovou a operação, quais riscos foram aceitos e quais providências estão sendo tomadas para recuperar o dinheiro.

TCU já olhou para essas operações

O Tribunal de Contas da União auditou operações do BNDES para exportação de serviços de engenharia em países da América Latina e da África. O próprio TCU informou que a análise envolveu financiamentos concedidos entre 2005 e 2014, incluindo normas internas e controles usados pelo banco.

Mesmo quando não há condenação direta, o debate público continua e a legalidade formal não significa boa decisão econômica. Um contrato pode seguir o rito interno e ainda assim representar risco ruim para o país.

Nova lei tenta fechar a porta

Em março de 2026, foi sancionada a Lei 15.359, que reorganiza o apoio oficial ao crédito à exportação. A lei cria regras para financiamento, seguro e garantias.

O ponto mais relevante foi explicado pelo Senado Federal. O BNDES fica proibido de conceder novos créditos a países ou empresas estrangeiras inadimplentes com o Brasil, exceto em caso de renegociação formal da dívida.

A regra chega tarde, mas aponta o caminho certo e o país que não paga não pode receber crédito novo. Afinidade política, discurso diplomático ou promessa de integração regional não podem ficar acima da responsabilidade com dinheiro público.

Brasil precisa exportar, não financiar caloteiro

Crédito à exportação existe em vários países e pode ajudar empresas nacionais a disputar contratos no exterior. O erro está em tratar regimes autoritários e mal pagadores como clientes normais. Cuba e Venezuela tinham sinais claros de risco político, fragilidade econômica e baixa previsibilidade institucional.

O Brasil deve apoiar empresas brasileiras, mas com critério. Operação com garantia pública precisa ter transparência, cobrança dura e limite de exposição. Se o risco é alto demais para o mercado privado, o governo não pode simplesmente empurrar esse risco para o contribuinte.

Cuba e Venezuela deram calote bilionário no Brasil e deixaram uma lição cara. Dinheiro público não pode servir como aposta diplomática.


Alan Martins é jornalista, designer gráfico e analista de comunicação do Ranking dos Políticos