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É um exercício doloroso, mas imperativo, confrontar a realidade do Brasil contemporâneo à luz de suas estatísticas e contradições. Ostentamos a posição de quinta maior extensão territorial do planeta. Além disso, nos consolidamos firmemente como a décima maior economia do mundo.
Sob o nosso solo, repousam terras agricultáveis de fertilidade incomparável. Elas nos transformaram em um dos três maiores produtores e exportadores globais de alimentos. No subsolo, guardamos também riquezas minerais, petróleo e gás. O potencial de descoberta ainda desafia a imaginação.
Para além das dádivas naturais, possuímos um patrimônio humano. São pessoas honestas, competentes e dotadas de profunda expertise em múltiplos campos. Nesse contingente entra um vasto grupo de servidores públicos concursados. Eles são sistematicamente ignorados e pessimamente remunerados, mas sustentam o esqueleto do Estado.
Diante de tamanha opulência, a pergunta se impõe de forma inevitável e urgente. Como podemos aceitar que, em pleno século XXI, mais de 100 milhões de brasileiros continuem na pobreza? Afinal, são pessoas que vivem com renda domiciliar per capita abaixo de um salário mínimo.
A resposta para essa desconcertante equação não reside na escassez de recursos. Na verdade, ela está na crônica insensibilidade e na incompetência de governantes que se sucederam nas últimas três décadas. Esse período começa depois da promulgação da Constituição de 1988. Porém, o quadro piorou após o maldito instituto da Reeleição, criado em 04/06/1997.
Sob o manto de discursos que se autointitulam salvadores da pátria, instalou-se uma cultura de má gestão. Junto com ela, veio a tolerância absurda com a corrupção, que multiplicou corruptos e corruptores. Consequentemente, a impunidade se institucionalizou e, tragicamente, deixou de causar indignação na sociedade.
O Brasil padece hoje de um excesso sufocante de corruptos e corruptores. Além disso, muitos deles circulam livremente, ostentando crachás de autoridades. Dessa forma, o resultado dessa degeneração ética é a perpetuação de injustiças profundas e já insuportáveis. Há mais de trinta anos, elas fragmentam o país em abismos sociais, regionais, raciais, econômicos e educacionais..
Essa miopia governamental reflete-se diretamente na manipulação das ferramentas de assistência social. O Bolsa Família é o mais importante programa social brasileiro. Hoje, ele atende cerca de 18,9 milhões de famílias, ou seja, aproximadamente 49 milhões de pessoas.
Mesmo assim, o programa jamais deveria ser instrumentalizado como muleta política. Também não deveria funcionar como subproduto da suposta bondade de quem governa. Trata-se, na verdade, de uma obrigação humanitária e estatal inegociável. Ela serve para atenuar a fome crônica provocada pela má gestão e pela ineficiência dos próprios governantes.
A prova cabal de que a sensibilidade social dessas lideranças é pura retórica está nos números. Desde março de 2023, o benefício básico não sofreu qualquer correção inflacionária. Com isso, o congelamento retirou silenciosamente cerca de 15% do poder de compra dessas famílias.
Na prática, significa que cerca de R$ 1.400,00 por ano foram confiscados do orçamento de cada lar vulnerável. É um cálculo cruel. Por isso, ele se traduz diretamente na redução do arroz, do feijão e do leite que deveriam alimentar crianças e idosos.
Ao todo, R$ 29 bilhões por ano foram tirados dos que nada têm. Assim, o dinheiro serviu para propiciar mais privilégios e penduricalhos aos que tudo têm.
Enquanto a inflação corrói o prato dos mais pobres, o topo da estrutura governamental segue em direção oposta. Ele utiliza recursos bilionários na concessão de favores, benefícios e subsídios. Esses gastos alimentam o mecanismo de perpetuação no poder.
Testemunhamos, recentemente, o repasse de bilhões de reais aos bancos. As taxas subsidiadas ficaram entre 1,25% e 1,50% ao ano, para refinanciar inadimplentes de programas sociais do governo. No entanto, as fontes desses mesmos recursos públicos são captadas a taxas de mercado. Ou seja, elas estão atreladas à Selic, de 14,25% ao ano.
Esse descompasso financeiro é apenas uma parcela do preço cobrado por uma metástase política chamada reeleição. Nela, quem ocupa a cadeira utiliza o Erário para pavimentar sua permanência. Ao mesmo tempo, ignora que as inadimplências vêm sendo causadas pelos próprios governos. São eles que incentivam o consumo acima da renda das famílias.
Esquece também os 27 milhões de aposentados e pensionistas. Da mesma forma, ficam de fora os 4 milhões de idosos e deficientes vinculados ao BPC. Todos vivem com apenas um salário mínimo por mês, hoje fixado em R$ 1.621,00.
Diante desse cenário de subjugação econômica e clientelismo, o cidadão precisa despertar. Esses vícios são típicos dos governos de cooptação. Afinal, em uma democracia, o voto é o único instrumento legítimo e eficaz de libertação. Com ele, é possível romper a escravidão social que já perdura por décadas.
A escolha feita na urna possui uma força imensa. Sua cobrança se estenderá de forma implacável pelos quatro ou oito anos seguintes. Por isso, é preciso votar com profunda consciência.
Votar com consciência significa rejeitar as armadilhas do assistencialismo eleitoreiro. Além disso, significa recusar as promessas impossíveis de serem cumpridas. No momento do sufrágio, o voto de um bilionário ou de um doutor vale o mesmo. Ele é milimetricamente igual ao de qualquer trabalhador brasileiro.
O voto não é um favor que se presta a um candidato. Ele é, na verdade, um compromisso ético com o destino da nação. Somente com a lucidez e a coragem intelectual de cada cidadão será possível arrancar o Brasil das garras dos insensíveis. Só assim vamos resgatar a dignidade que nos foi usurpada.
Sem dúvida, o Brasil vem sofrendo há algum tempo uma profunda crise ética, moral e de honestidade. Nela, já existem corruptos com crachás de autoridades.
Os brasileiros gritam, clamam, por menos tributos, menos muletas, mais renda e mais verdades.