Estudos
03 de outubro, 2026

Quociente eleitoral por estado varia 9 vezes entre São Paulo e Roraima

Quociente eleitoral por estado varia 9 vezes entre São Paulo e Roraima
Foto: Diferenças do quociente eleitoral entre os estados brasileiros | Ranking dos Políticos

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Em 2022, uma cadeira de deputado federal em São Paulo custou 9,2 vezes mais votos que em Roraima. O dado está no estudo do Ranking dos Políticos sobre o quociente eleitoral por estado, assinado por Gabriel Jubran.

O levantamento cruza os arquivos oficiais de totalização do TSE com o Censo 2022 do IBGE.

Quociente eleitoral por estado vai de 36 mil a 334 mil votos

O quociente eleitoral é o total de votos válidos do estado dividido pelo número de vagas na Câmara. A regra está no artigo 106 do Código Eleitoral e define quantos votos um partido precisa para cada cadeira. Em São Paulo, a conta chegou a 333.937 votos, enquanto em Roraima bastaram 36.464.

A média nacional ficou em 213.436 votos por cadeira. Além disso, Roraima, Amapá, Acre e Tocantins ficaram abaixo da metade dessa média, conforme os resultados oficiais do TSE. São Paulo, por outro lado, superou a referência em 56%.

Gráfico de barras com o quociente eleitoral por estado nas eleições de 2022

Piso e teto da Constituição distorcem a Câmara

A Constituição fixa o mínimo de 8 e o máximo de 70 deputados por estado. Por isso, os estados pequenos recebem mais cadeiras do que a população justificaria. Ao mesmo tempo, São Paulo fica travado no teto.

A distribuição atual segue a Lei Complementar 78/1993 e nunca foi atualizada. Pela população do Censo 2022, São Paulo teria 112 deputados em vez de 70. Roraima, ao contrário, ficaria com apenas 1,6 cadeira.

Estados que mais cresceram pagam a conta

Pará, Santa Catarina, Amazonas, Rio Grande do Norte e Mato Grosso aparecem logo abaixo de São Paulo no ranking. Isso porque ganharam população desde 1993 e hoje elegem menos deputados do que deveriam pela regra proporcional.

Com oito cadeiras cada, Amazonas e Rio Grande do Norte superaram o quociente de Minas Gerais, Bahia e Rio de Janeiro. No sentido inverso, os sete estados que perderiam vagas numa redistribuição ficaram abaixo da média nacional.

São Paulo tem 21,9% da população e 13,6% das cadeiras

O índice de representação divide a fatia de cadeiras de cada estado pela fatia da população apurada pelo IBGE. Com isso, o índice paulista fica em 0,62, enquanto o de Roraima chega a 4,97.

Cada deputado paulista representa 634.446 habitantes, e o de Roraima responde por 79.588. Pelo eleitorado apto em 2026, a diferença sobe de 8 para 9,7 vezes.

Gráfico com o índice de representação de cada estado na Câmara dos Deputados

No Senado, o voto de Roraima pesa 85 vezes mais

Cada estado elege três senadores, sem relação com o tamanho da população, conforme o artigo 46 da Constituição. A paridade é uma escolha do modelo federativo. Ainda assim, o tamanho da assimetria ajuda a entender o jogo político.

Hoje, cada senador paulista representa 11.368.444 eleitores, segundo dados do eleitorado divulgados pelo TSE. Em Roraima, o número cai para 133.858. Dessa forma, o voto roraimense para o Senado vale 85 vezes o de um paulista.

As 14 unidades da federação menos populosas elegem 42 senadores, maioria absoluta da Casa. Juntas, porém, somam apenas 16,8% da população. Neste ano, estão em disputa 54 vagas, duas por estado, na eleição de 4 de outubro.

Só 26 deputados alcançaram o quociente sozinhos

O quociente mede o custo da cadeira para o partido, não para o candidato. Em 2022, apenas 26 dos 513 deputados tiveram votos próprios acima do quociente, segundo os dados de votação do TSE. Em 17 unidades da federação, nenhum eleito chegou lá.

Os votos dados aos eleitos somaram 55,2% dos válidos do país. O restante foi para derrotados ou para a legenda. Esses votos só geraram mandatos por transferência dentro do partido, como preveem os artigos 106 a 109 do Código Eleitoral. Ou seja, a composição da chapa pesa tanto quanto o desempenho individual.

203 candidatos ficaram de fora com mais votos que eleitos

Em todo o país, 203 candidatos não eleitos superaram o último eleito do próprio estado. Minas Gerais concentrou 30 casos, conforme a apuração oficial, e o Piauí foi o único sem nenhuma inversão.

Em Mato Grosso, por exemplo, Professora Rosa Neide (PT) liderou a votação estadual com 124.671 votos e ficou sem vaga. O último eleito, Coronel Assis (União), teve 47.479.

O piso efetivo de eleição, segundo os dados do TSE, também foge da lógica. No Amazonas, o último eleito precisou de 87.876 votos, mais que os 71.754 de Tiririca em São Paulo. No Amapá, bastaram 5.435.

Gráfico com o deputado menos votado eleito e o candidato mais votado não eleito por estado em 2022

Sobras eleitorais trocaram sete mandatos

Em julho de 2025, a Câmara declarou a perda de mandato de sete deputados após decisão do STF sobre as sobras. Quatro eram do Amapá, e todos estavam entre os menos votados de seus estados.

Os sete somavam 76.029 votos nominais, enquanto os substitutos, como Rodrigo Rollemberg no Distrito Federal, reuniam 166.680. Como resultado, o menor piso do país passou a ser o de Roraima, com 8.243 votos.

Barreira de 12,5% fecha os estados pequenos

Num estado de oito cadeiras, o partido precisa de 12,5% dos votos válidos para garantir uma vaga pelo quociente partidário. Em São Paulo, 1,4% basta. Por isso, Acre, Amapá, Mato Grosso, Rio Grande do Norte e Rondônia dividiram as oito vagas entre apenas três partidos.

Bancadas de 2022 valem para 2026

O Congresso aprovou em 2025 o PLP 177/2023, que ampliava a Câmara para 531 deputados sem tirar vagas de estados. O presidente Lula vetou o texto integralmente em julho, e o veto segue sem análise do Congresso.

Em setembro de 2025, o ministro Luiz Fux manteve a composição atual em liminar na ADO 38. Em seguida, o plenário do STF referendou a decisão por unanimidade e adiou eventual redistribuição para 2030.

Assim, a eleição de 4 de outubro repete as bancadas de 2022. A projeção do estudo indica quocientes próximos aos de 2022, com 328.800 votos em São Paulo e 40.100 em Roraima.

A Constituição manda distribuir as cadeiras conforme a população, mas o Congresso adia essa conta há mais de três décadas. Enquanto isso, o eleitor dos estados que mais cresceram segue com menos voz em Brasília. Redistribuir as 513 cadeiras sem criar mandatos é o caminho mais coerente com a regra de um cidadão, um voto.