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Lincoln Gakiya, referência do Ministério Público no combate ao PCC, topa entrar no governo Lula. À Folha de S.Paulo, o promotor disse nesta terça-feira (27) que aceitaria chefiar o futuro Ministério da Segurança Pública. Porém, ele ressaltou que ainda não recebeu convite do Planalto.
A declaração veio dois dias depois da reeleição de Lula, que venceu Flávio Bolsonaro com 51,8% dos votos válidos. Ao longo da campanha, a segurança pública ganhou espaço na disputa presidencial. Dessa forma, o nome de um promotor jurado de morte pela facção entrou de vez no tabuleiro político.
A fala de Gakiya tem uma condição clara. “Se o ministério for criado e eu vier a ser convidado, aceitaria com prazer”, afirmou o promotor. Na mesma entrevista, ele disse que seria uma honra colaborar com a segurança do país.
Além disso, o promotor é um dos entusiastas da PEC da Segurança Pública e defende a votação ainda neste ano. Para ele, a proposta dá ao governo federal responsabilidade direta na área, hoje concentrada nos estados. Ao mesmo tempo, a proximidade da aposentadoria pesa a favor do nome dele, segundo a Folha.
Lula condiciona a criação da pasta à aprovação da PEC 18/2025 no Senado. O texto já passou pela Câmara e aguarda a votação dos senadores. Na campanha, o presidente voltou a prometer o ministério para um eventual quarto mandato.
Por isso, qualquer convite a Gakiya depende antes de um movimento do Congresso. Há, contudo, precedente de promotor paulista no alto escalão federal. Mário Sarrubbo, ex-procurador-geral de Justiça de SP, comandou a Secretaria Nacional de Segurança Pública na gestão Lewandowski.
Lincoln Gakiya é promotor de Justiça do Ministério Público de São Paulo e integra o Gaeco, grupo especializado no combate ao crime organizado. Ele atua em Presidente Prudente, no oeste paulista. Na verdade, a região abriga presídios que já concentraram a cúpula do PCC, como a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau.
Em depoimento ao Senado, Gakiya contou que dedicou as últimas duas décadas ao combate às organizações criminosas. Nesse período, atuou sempre no Gaeco, sem deixar as funções originais de promotor. Segundo reportagem do Diario de Pernambuco, ele intensificou a atuação contra o PCC em 2005, ao descobrir que era alvo de um plano de execução.
A trajetória rendeu reconhecimento público. Gakiya já foi homenageado pela Assembleia Legislativa de São Paulo pela atuação contra facções. Em abril de 2026, também apareceu entre os entrevistados do documentário Territórios – Sob o domínio do crime, do Globoplay.
O episódio mais marcante da carreira veio em fevereiro de 2019. A pedido de Gakiya, Marcola e outros 21 integrantes da cúpula do PCC foram levados a presídios federais. Na época, o promotor definiu a ação como a maior operação já feita contra a facção.
A medida buscava frustrar um plano de resgate dos líderes em Presidente Venceslau. Antes disso, cartas interceptadas já mostravam uma ordem de Marcola para matar o promotor em caso de transferência. Com isso, Gakiya passou a andar com escolta da PM a partir de dezembro de 2018.
O temor tinha base histórica. Afinal, transferências feitas em 2006 desencadearam uma onda de violência com 564 mortos, dos quais 505 eram civis. Anos depois, Gakiya rebateu a versão de que Sergio Moro participou da operação de 2019.
Em 2023, a Polícia Federal desarticulou um plano do PCC para atacar autoridades. Entre os alvos estavam Sergio Moro e o próprio Gakiya, segundo as investigações. Hoje, o promotor vive sob escolta 24 horas por dia, com monitoramento da própria família.
Em outubro de 2025, a Operação Recon frustrou um novo plano contra o promotor. O coordenador de presídios Roberto Medina também estava na mira. Segundo os investigadores, criminosos alugaram uma casa a cerca de 1 km da residência de Gakiya.
Além disso, o promotor relatou que drones sobrevoaram sua casa para mapear a rotina. Ele também afirmou que o plano era o mesmo que mirou Ruy Ferraz Fontes, ex-delegado-geral morto em emboscada em setembro de 2025. Em entrevista, resumiu o risco ao dizer que a facção “chegou muito próximo” dele e da família.
O caso seguiu para a Justiça. O MPSP denunciou quatro acusados de levantar a rotina das vítimas, tratadas pelo grupo como “cadáveres excelentes”. Depois, dois integrantes da facção foram condenados. Ainda assim, a Justiça soltou um dos apontados como mentor após desclassificar a acusação de tráfico.
A possível ida ao governo petista guarda um detalhe curioso. Em 2023, Lula sugeriu que a operação da PF contra o plano do PCC seria uma armação. Na ocasião, Gakiya disse que a fala ofendia a ele e ao Ministério Público.
Por sua vez, a oposição também cortejou o promotor durante a campanha. Em agosto, Ronaldo Caiado (PSD) anunciou que o convidaria para a Segurança Pública, caso fosse eleito. Na época, o então presidenciável justificou a escolha pela coragem do promotor contra o crime organizado.
Gakiya se opõe a classificar PCC e Comando Vermelho como terroristas. Para ele, as facções têm caráter mafioso e objetivo financeiro, sem motivação política ou ideológica. Em maio, quando os Estados Unidos adotaram o rótulo, ele chamou a decisão de muito grave.
Na avaliação dele, a medida pode ampliar sanções contra empresas e instituições brasileiras. O promotor também alerta para o risco de ações militares estrangeiras. Segundo ele, o PCC já atua em mais de 28 países, o que exige cooperação internacional, e não rótulos.
Para Gakiya, o maior problema do país é a falta de coordenação entre as autoridades no combate ao crime. Nesse sentido, ele propõe equipes conjuntas de investigação com outros países da América do Sul. Também criticou o PL Antifacção por não resolver a principal lacuna contra as facções.
Na CPI do Crime Organizado, em novembro de 2025, o depoimento tratou de fintechs usadas na lavagem de dinheiro. Na ocasião, o promotor apontou o dinheiro como o combustível das facções. Segundo ele, é a riqueza do crime que compra armas, logística e a colaboração de agentes públicos.
Diante disso, o perfil de Gakiya conversa com o que Lula prometeu para a nova pasta: integração, inteligência e foco no crime organizado. Ainda assim, a decisão depende do presidente e, antes dele, do Senado. Até lá, o promotor segue em Presidente Prudente, sob escolta e no rastro da facção que o jurou de morte.