Saúde
09 de agosto, 2026

Quem criou o SUS e como o sistema foi construído

Quem criou o SUS e como o sistema foi construído
Foto: O Sistema Único de Saúde (SUS) foi criado pela Constituição de 1988 | Ranking dos Políticos

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O SUS foi criado pela Constituição Federal de 1988, nos artigos 196 a 200, e regulamentado pela Lei 8.080/1990. Nenhum presidente assinou sozinho essa criação. A autoria pertence à Assembleia Nacional Constituinte, que incorporou uma proposta desenhada por sanitaristas anos antes.

A confusão sobre a autoria é comum. Muita gente credita o sistema a um governo específico. No entanto, o desenho do SUS atravessou regimes, partidos e presidentes diferentes até virar lei.

A proposta nasceu em 1986

As bases do sistema foram fechadas na 8ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em março de 1986, em Brasília. O encontro reuniu mais de quatro mil participantes em 135 grupos de trabalho. Foi a primeira conferência aberta aos usuários dos serviços de saúde.

O evento foi presidido pelo sanitarista Sergio Arouca, então presidente da Fiocruz. O relatório final trouxe uma recomendação central: separar saúde de previdência e criar um sistema único.

Em seguida veio a Comissão Nacional da Reforma Sanitária, ativa entre agosto de 1986 e maio de 1987. Ela produziu o texto técnico que chegou à Constituinte. O grupo tinha representantes de vários segmentos, inclusive do setor privado.

O que existia antes do SUS

Até 1988, a assistência médica pública dependia do Inamps, autarquia ligada à Previdência Social. Só tinha direito quem contribuía, ou seja, o trabalhador com carteira assinada e seus dependentes.

O restante da população era atendido como indigente em santas casas e hospitais universitários. Por isso, a universalização foi a mudança mais profunda trazida pelo novo sistema.

Os marcos da criação do SUS

O primeiro passo veio antes da Constituição. Em julho de 1987, o Decreto 94.657 criou o SUDS, programa que transferiu serviços e unidades do Inamps para estados e municípios.

A Constituição foi promulgada em 5 de outubro de 1988 e definiu a saúde como direito de todos e dever do Estado. Ainda assim, o sistema só ganhou regras operacionais dois anos depois.

A Lei 8.080 foi sancionada em 19 de setembro de 1990, já no governo Fernando Collor. Ela distribuiu competências entre União, estados e municípios, com a execução dos serviços concentrada nas prefeituras.

Os vetos que quase travaram o sistema

Collor vetou parte do texto aprovado pelo Congresso. Caíram dispositivos sobre financiamento e sobre a participação da comunidade na gestão.

A reação levou à Lei 8.142, publicada em 28 de dezembro do mesmo ano. Esta medida recriou as conferências e os conselhos de saúde e disciplinou os repasses automáticos aos municípios.

O SUS, portanto, nasceu com uma lacuna na regra de custeio. Esse detalhe ajuda a explicar a disputa orçamentária que persiste até hoje.

Por que o SUS não pertence a um governo

A trajetória passou por José Sarney, que assinou o decreto do SUDS, e por Fernando Collor, que sancionou as duas leis orgânicas. Antes disso, o desenho já circulava entre técnicos do Inamps e do Ministério da Saúde.

O Congresso teve papel decisivo. A emenda popular da saúde chegou à Constituinte com mais de 50 mil assinaturas, apresentada pelo movimento sanitário.

O texto final também não foi uma vitória integral desse movimento. A Constituição garantiu o sistema público e, ao mesmo tempo, manteve a liberdade da iniciativa privada no setor.

Atribuir a criação a um único presidente ignora como o processo funcionou. Do mesmo modo, ignora que a implantação seguiu por anos depois da promulgação.

A rede privada sempre esteve dentro do SUS

O artigo 199 da Constituição diz que a assistência à saúde é livre à iniciativa privada. O mesmo artigo autoriza instituições privadas a participar do SUS de forma complementar, com preferência para as filantrópicas.

A regra tem efeito concreto. O país tinha cerca de 507 mil leitos hospitalares em outubro de 2022. Desse total, 67,4% estavam conveniados ao SUS.

Hospitais filantrópicos responderam por 61,33% das internações de alta complexidade em 2023. Em 800 municípios, essas instituições são a única estrutura hospitalar disponível.

Quem paga a conta do SUS

O financiamento é tripartite, mas a divisão mudou com o tempo. Em 2024, a União respondeu por 41,6% das despesas próprias em ações e serviços públicos de saúde. Os municípios ficaram com 31,7% e os estados, com 26,7%.

Levantamento do Conass e do Conasems mostra queda da fatia federal de 52% em 2002 para 40% em 2023. Ao mesmo tempo, as prefeituras aplicaram R$ 58 bilhões acima do piso constitucional em 2024.

As emendas parlamentares mudaram a lógica do repasse

Outra mudança pouco discutida está no Congresso. As despesas federais em saúde originadas de emendas saltaram de 1,1% em 2013 para 11,4% em 2024.

Segundo o IEPS, quase metade da expansão recente do orçamento federal do SUS foi absorvida por emendas. Como o destino é definido por parlamentares, o critério de alocação deixa de ser epidemiológico.

Com isso, acompanhar o Congresso virou parte do debate sobre saúde pública. O Ranking dos Políticos monitora votações e desempenho de deputados federais e senadores.

Um sistema público com 53 milhões de brasileiros em planos privados

Em março de 2026, a ANS registrava 52,9 milhões de vínculos em planos de assistência médica. Boa parte desses beneficiários continua recorrendo à rede pública em tratamentos de alto custo.

Nesses casos, a lei obriga as operadoras a ressarcir o SUS. A cobrança, porém, é lenta e costuma parar na Justiça, o que reduz o valor efetivamente devolvido ao Fundo Nacional de Saúde.

O sistema criado em 1988 segue como única porta de acesso à saúde para a maior parte da população. Seu financiamento, entretanto, depende de decisões orçamentárias tomadas todo ano em Brasília.