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O Brasil emprega cerca de 12 milhões de pessoas no setor público, somando as esferas federal, estadual e municipal. Mas o problema do funcionalismo brasileiro não está somente na quantidade de servidores. Está também no quanto se paga, em como a folha se distribui entre as esferas e nos privilégios.
O país registrou cerca de 12 milhões de vínculos públicos ativos em 2023, segundo Atlas do Estado Brasileiro. Já a Pnad Contínua do IBGE apontou 12,6 milhões de vínculos no segundo trimestre de 2024.
Cerca de 7,4 milhões de servidores, quase 60% do total, trabalham nas prefeituras. Os estados respondem por aproximadamente 3,1 milhões. Por sua vez, o governo federal emprega cerca de 579 mil na ativa.
O Poder Executivo concentra 95% dos vínculos. Legislativo e Judiciário ficam com o restante, embora pesem muito mais na folha de pagamento do que essa proporção sugere.
A proporção de servidores municipais saltou de 38% em 1995 para 65% em 2023, segundo a República.org. Isso acontece porque é nos municípios que se concentram professores, enfermeiros e assistentes sociais.
Uma pesquisa do Ipea com dados da Rais mostra que a mediana de remuneração do servidor é de R$ 3.281. Isso significa que metade dos 12 milhões de funcionários públicos ganha até esse valor, pouco mais de dois salários mínimos.
No nível federal, a mediana sobe para R$ 12.531. Nos municípios, fica pouco acima de dois salários mínimos. Da mesma forma, o Anuário de Gestão de Pessoas 2025 confirma a concentração na base.
90% dos servidores civis ganham R$ 13,1 mil por mês, segundo Anuário de Gestão de Pessoas. Apenas 0,06% recebe acima do teto constitucional de R$ 46,4 mil.
A média da OCDE de emprego público em relação à população empregada gira em torno de 18% a 21%, dependendo da edição do relatório Government at a Glance consultada. O Brasil, com seus 12,5%, fica abaixo disso.
Os países escandinavos lideram as listas. A Noruega emprega 30% de sua força de trabalho no setor público, seguida por Dinamarca (29%), Suécia (28%) e Finlândia (24,9%). A França aparece com 21,4%, o Canadá com 18,2% e o Reino Unido com 16,4%. Nesses países, o Estado é responsável direto pela prestação de saúde, educação e assistência social em larga escala.
Os Estados Unidos mantêm 15,3% de seus trabalhadores no setor público. O Japão, por sua vez, é a exceção entre os desenvolvidos, com apenas 6% da força de trabalho no setor público.
No contexto regional, o Brasil fica na média da América Latina e Caribe, em torno de 12%. A Argentina emprega cerca de 19,3% de sua população ativa no setor público, e o Uruguai fica em aproximadamente 16,9%. Ambos têm IDH superior ao brasileiro e proporções de funcionários públicos maiores.
O número de servidores pode estar abaixo da média internacional, mas a conta que eles representam no orçamento é outra história. Segundo dados compilados a partir do FMI e do Tesouro Nacional, o Brasil gasta cerca de 13% do PIB com folha de pagamento do funcionalismo, incluindo ativos e inativos nas três esferas.
Esse percentual coloca o país entre os dez maiores gastadores com pessoal público do mundo, à frente de Suécia (12,7%), França (12,1%), Itália (9,5%) e Alemanha (7,5%), segundo a CNI com base em dados do FMI. A média da OCDE nesse indicador gira em torno de 9,9% do PIB.
Em 2025, a projeção de gasto total com funcionalismo nas três esferas chegou a R$ 1,7 trilhão, um recorde absoluto.
Boa parte da explicação para esse gasto exorbitante está no chamado “prêmio salarial”, que é a diferença de remuneração entre servidores públicos e trabalhadores do setor privado em funções equivalentes. O Banco Mundial calculou que servidores federais brasileiros recebem, em média, 67% a mais do que seus equivalentes na iniciativa privada. É o maior prêmio salarial entre 53 países analisados.
Nos estados, o prêmio cai para 36% e nos municípios, praticamente não existe. O resultado é uma distorçãom, em que o nível de governo que emprega menos gente (a União, com cerca de 10% dos vínculos) responde por 25% do gasto total com funcionalismo, porque paga as remunerações mais altas.
O gasto com o Poder Judiciário no Brasil equivale a 1,3% do PIB, uma cifra sem paralelo entre países comparáveis. No Chile, esse gasto representa 0,22% do PIB e na Argentina, 0,13%. Só com servidores do Judiciário, o Brasil gasta 0,6% do PIB, mais do que a maioria dos países gasta com todo o funcionamento desse Poder.
O relatório Cofog do Tesouro Nacional confirmou que, em 2023, a despesa brasileira com tribunais de justiça atingiu 1,43% do PIB, o segundo maior percentual entre 50 países analisados.
A PEC da reforma administrativa voltou ao debate no Congresso com propostas de avaliação de desempenho obrigatória, revisão de benefícios e padronização remuneratória. O Banco Mundial recomendou que o país reduza os salários iniciais do funcionalismo, diminua a diferença de remuneração frente ao setor privado e aplique avaliação de desempenho para progressão de carreira. Segundo o banco, essas medidas poderiam gerar uma economia acumulada de R$ 389 bilhões até 2030.
Projeções apontam que cerca de 180 mil servidores estarão aptos a se aposentar até 2035. Ou seja, a pressão fiscal da folha não vem somente do crescimento descontrolado no número de contratados, vem da estrutura remuneratória.
O Brasil emprega proporcionalmente menos gente no setor público do que os Estados Unidos, a França, a Suécia e até vizinhos como Argentina e Uruguai. Mas o problema aparece quando se olha para o custo.
O país gasta mais do que a maioria das economias comparáveis com folha de pagamento, e a distorção se concentra no topo: Judiciário, Legislativo e carreiras federais de elite absorvem uma fatia desproporcional do orçamento. Na base, 6 milhões de servidores ganham no máximo dois salários mínimos.
Alan Martins é jornalista, designer gráfico e analista de comunicação do Ranking dos Políticos