Em breve

Fechar modal

Estamos trabalhando nessa funcionalidade, volte depois para conferir

  • Inglês
Estudos
22 de junho, 2026

Estudo mostra que 87% das propostas no Congresso restringem a liberdade econômica

Estudo mostra que 87% das propostas no Congresso restringem a liberdade econômica
Foto: Estudo do Ranking dos Políticos analisou 1.650 propostas legislativas | Ranking dos Políticos

Compartilhar

Compartilhe o artigo via

Ou copie o link

Entre as proposições da Câmara dos Deputados que tocam diretamente no ambiente econômico em 2025, 86,7% restringem a liberdade. Apenas 10,7% ampliam alguma dimensão dessa liberdade. A razão entre matérias restritivas e liberalizantes ficou em oito para uma.

Os números vêm do Índice Legislativo de Liberdade Econômica de 2025. O levantamento é do Ranking dos Políticos em parceria com o Centro Mackenzie de Liberdade Econômica e o Fé & Trabalho. A pesquisa classificou 1.650 proposições apresentadas entre fevereiro e novembro de 2025.

Como o estudo mediu o intervencionismo legislativo

A metodologia segue as cinco dimensões do índice do Fraser Institute, são elas:

  • Tamanho do governo
  • Sistema legal e direitos de propriedade
  • Moeda sólida
  • Comércio internacional e regulação

Cada proposição passou por classificação automatizada com inteligência artificial. Em seguida, foram realizadas duas rodadas de validação humana ajustaram as regras a cada etapa. O processo busca rastreabilidade e replicabilidade científica.

O trabalho atualiza e moderniza a base metodológica adotada pelo Observatório do Legislativo, realizado pelo CMLE em 2018. Naquele estudo, a taxa de interferência negativa já superava 50%. A persistência do número, sete anos depois, sugere padrão estrutural da Câmara, e não característica de uma legislatura específica.

Intervenção atravessa o espectro partidário

A inclinação restritiva não se limita à esquerda. Partidos de centro e direita também apresentaram volume alto de propostas intervencionistas. Republicanos registrou 58,9% de interferência negativa, PP marcou 48,2% e PL alcançou 44,5%.

O único partido com saldo líquido favorável à liberdade econômica foi o NOVO, com índice de -15. Solidariedade liderou o ranking dos mais restritivos, com 69,6%. PDT, Cidadania, PT e PCdoB também aparecem entre as legendas com maior taxa de intervenção.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, Daniel Galvêas, analista de políticas públicas do Ranking dos Políticos e responsável técnico pelo estudo, comentou o resultado.

“Quando analisamos objetivamente a produção legislativa, fica claro que a defesa de privilégios setoriais ainda supera a promoção de um ambiente econômico mais livre e competitivo”, disse.

Medidas provisórias do governo Lula são as mais restritivas

Entre os instrumentos legislativos, as Medidas Provisórias aparecem como as mais intervencionistas. Das 37 MPVs analisadas, 86,5% restringem a liberdade econômica. Projetos de Lei Complementar vieram em seguida, com 75%. Projetos de Lei ordinários ficaram em 53,6% e PECs em 50%.

O resultado tem ligação direta com a origem do instrumento. As MPVs são editadas pelo Executivo com força imediata de lei. No período analisado, isso significa o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A taxa de 86,5% mostra que as prioridades da Esplanada puxam o saldo intervencionista da produção legislativa de 2025.

A leitura é coerente com a orientação econômica do atual governo. A pauta inclui ampliação de programas, criação de subsídios e novas regulações setoriais. Cada uma dessas escolhas aparece capturada por alguma das dimensões Fraser, principalmente Tamanho do Governo e Regulação.

Estudo anterior do Ranking dos Políticos mostra o outro lado dessa equação. O terceiro mandato de Lula enfrenta a maior barreira legislativa já registrada para Medidas Provisórias editadas por um governo. Ou seja, o Congresso freia parte das MPs mais restritivas, mesmo apresentando inclinação intervencionista própria.

Tamanho do governo e regulação puxam o saldo negativo

Duas dimensões do Fraser concentram quase toda a interferência negativa identificada no estudo. O Tamanho do Governo (D1) registrou 494 proposições restritivas contra 17 liberalizantes. A Regulação (D5) somou 510 negativas contra 81 positivas.

A única dimensão com saldo favorável foi o Sistema Legal e Direitos de Propriedade. Foram 43 ampliações contra 18 restrições. Moeda sólida e comércio internacional raramente são acionadas pela produção ordinária da Câmara.

Indústria asfixiada, agropecuária menos pressionada

A leitura por setor expõe contraste marcante entre as duas grandes frentes produtivas. Na indústria, 95,1% das proposições restringem a liberdade econômica. Na agropecuária, a taxa cai para 62,7%.

O resultado dialoga com o desempenho histórico de cada setor. Economistas há tempos apontam o excesso de protecionismo industrial como entrave à produtividade brasileira. Por outro lado, o agronegócio acumula resultados como caso de sucesso em competitividade internacional. A legislação parece reforçar esse desequilíbrio.

Gasto público anda junto com restrição

A relação entre despesa e interferência negativa é direta. Das 428 proposições identificadas como geradoras de gasto público, 93,7% restringem a liberdade econômica. Entre as que não geram despesa, a taxa cai para 42,7%.

Despesas públicas, por natureza, ampliam programas governamentais, transferências e estruturas administrativas. Por isso, a dimensão Tamanho do Governo captura praticamente todo o efeito desse grupo de proposições.

Beneficiário declarado nem sempre é o real

Talvez o achado mais original seja a divergência entre o beneficiário declarado pelo autor e o beneficiário efetivo da medida. Em 51,8% das proposições há diferença significativa entre o discurso e o impacto real.

A análise mede a similaridade textual pelo índice de Jaccard. A mediana ficou em 0,17. Ou seja, menos de 18% das palavras coincidem entre as duas descrições. O resultado sugere padrão sistemático de opacidade na apresentação de custos.

Também em entrevista à Folha de S. Paulo, Luan Sperandio, diretor de operações do Ranking dos Políticos, comentou o achado.

“O dado mais preocupante talvez seja a divergência entre os beneficiários anunciados e os beneficiários efetivos das proposições. Isso reforça a importância de análises técnicas capazes de revelar custos ocultos e impactos que muitas vezes não aparecem no discurso político”, afirmou.

O recado para o ambiente institucional brasileiro

A produção legislativa de 2025 confirma padrão antigo. A literatura econômica documenta há décadas que ambientes de baixa liberdade produzem menos crescimento, menos inovação e menos oportunidade.

Autores como Douglass North, Daron Acemoglu e James Robinson descrevem instituições inclusivas como motor do desenvolvimento. Por isso, medir como o Congresso se comporta nesse campo é tarefa permanente.

O Índice Legislativo de Liberdade Econômica oferece ferramenta concreta para acompanhar essa trajetória ano a ano. Em 2025, a resposta aparece nos números: mais perto do freio do que do motor da economia brasileira.


Elaboração Técnica

Daniel Galvêas

Daniel Galvêas

Analista de Políticas Públicas do Ranking dos Políticos


Revisão Técnica

Luan Sperandio Teixeira

Luan Sperandio Teixeira

Diretor de Operações do Ranking dos Políticos

Victor Ribeiro da Silva

Victor Ribeiro da Silva

Analista júnior de Relações Governamentais do Ranking dos Políticos


Alan Martins é designer gráfico, editor e analista de comunicação do Ranking dos Políticos