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O Brasil Pode Dar Certo
19 de junho, 2026

Diretrizes para políticas públicas digitais no Brasil para inteligência artificial e mercados digitais

Diretrizes para políticas públicas digitais no Brasil para inteligência artificial e mercados digitais
Foto: Juliana Natrielli é uma das autoras do livro O Brasil Pode Dar Certo | Ranking dos Políticos

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Este texto integra O Brasil Pode Dar Certo, livro de propostas de reforma institucional organizado pelo Ranking dos Políticos com apoio da Atlas Network.

A economia global atravessa uma transformação estrutural impulsionada por tecnologias digitais. O destaque vai para a inteligência artificial e para a consolidação de plataformas como infraestrutura essencial da atividade econômica. Por isso, o debate sobre políticas públicas digitais no Brasil deixou de ser secundário.

Esses dois vetores redefinem produtividade, inovação e competitividade em escala global. Nesse contexto, a discussão não se resume à necessidade de regular. Importa também a forma como essas políticas públicas digitais serão construídas.

A pergunta central que se impõe é direta: qual papel o Brasil pretende ocupar na economia digital global? Um país que desenvolve tecnologia, atrai investimentos e amplia sua competitividade? Ou um mercado que, diante de barreiras regulatórias excessivas, se torna dependente de soluções desenvolvidas no exterior?

O debate recente indica uma inclinação a abordagens mais intervencionistas no Brasil, com ampliação de mecanismos de controle sobre mercados digitais e sobre o desenvolvimento tecnológico. Embora esses movimentos partam de objetivos legítimos, o desenho das políticas públicas digitais pode gerar efeitos econômicos e tecnológicos relevantes.

Experiências internacionais mostram que regulações mais rígidas em mercados digitais e inteligência artificial têm enfrentado desafios relacionados à inovação, à velocidade de adoção tecnológica e à atração de investimentos. Por isso, alguns desses modelos passam atualmente por revisões.

Esse cenário reforça a necessidade de que o debate regulatório considere não apenas seus objetivos, mas também seus efeitos práticos. Afinal, o momento é decisivo para a inserção do Brasil na economia digital.

Desafios da regulamentação da inteligência artificial

A inteligência artificial já impacta setores estratégicos da economia brasileira. Há aplicações em saúde, educação, agronegócio, indústria e serviços. Trata-se de uma tecnologia de caráter evolutivo, cujo desenvolvimento ocorre de forma incremental.

Esse modelo impõe um desafio regulatório específico. É preciso equilibrar mitigação de riscos com preservação do espaço de experimentação. No entanto, exigências regulatórias complexas nas fases iniciais tendem a elevar custos. Além disso, podem reduzir a entrada de novos agentes e concentrar a inovação.

Estudos da OCDE indicam que exigências regulatórias mais restritivas podem gerar custos elevados de adaptação. Consequentemente, atrasam o lançamento de novas soluções e impactam produtividade e competitividade.

Esse contexto exige políticas públicas digitais que preservem flexibilidade, previsibilidade e proporcionalidade. Quando essas condições não são observadas, a regulação pode gerar efeitos contrários aos pretendidos.

Propostas para regulação de inteligência artificial

Diante do avanço acelerado da inteligência artificial e dos desafios relacionados à inovação, competitividade e segurança jurídica, torna-se necessário construir um modelo regulatório equilibrado. Esse modelo precisa proteger direitos sem inviabilizar o desenvolvimento tecnológico nacional.

  • Foco regulatório nas aplicações da tecnologia: concentrar obrigações regulatórias nos casos de uso e nos impactos efetivos da tecnologia.
  • Classificação de risco com critérios objetivos: estabelecer critérios claros e delimitados para classificação de risco.
  • Ambientes regulatórios de experimentação (sandboxes): criar ambientes de teste supervisionados, com regras proporcionais.
  • Previsibilidade da regulação infralegal: exigir consulta pública e análise de impacto regulatório.
  • Incentivo ao desenvolvimento tecnológico nacional: prever mecanismos proporcionais para startups, universidades e iniciativas de inovação em estágio inicial.

Políticas públicas digitais para dados e direitos autorais

O acesso a dados em larga escala é um insumo essencial para o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial. Modelos de IA dependem da identificação de padrões em grandes volumes de informação.

Nesse contexto, é necessário distinguir o uso de conteúdo para reprodução daquele realizado para treinamento de modelos. O treinamento consiste em um processo estatístico de aprendizado, distinto da reprodução direta de obras protegidas.

Experiências internacionais oferecem parâmetros relevantes:

Modelos baseados em autorização prévia generalizada enfrentam limitações operacionais, dada a escala do uso de dados. Além disso, restrições amplas podem comprometer a qualidade das soluções. Isso porque limitam o uso de dados representativos do contexto nacional.

Esse cenário pode resultar em menor capacidade de desenvolvimento local. Consequentemente, eleva a dependência de soluções estrangeiras.

Propostas para dados e direitos autorais

A consolidação de um ambiente regulatório moderno para inteligência artificial também exige equilíbrio entre proteção de direitos autorais, segurança jurídica e viabilidade tecnológica. Da mesma forma, deve evitar restrições que comprometam inovação, competitividade e desenvolvimento nacional.

  • Reconhecimento do uso de dados para treinamento de IA: diferenciar, em lei, o uso para treinamento da exploração econômica direta do conteúdo;
  • Adoção de mecanismos de opt-out: permitir restrição por meios técnicos padronizados;
  • Acesso a dados representativos nacionais: evitar restrições que inviabilizem o treinamento com dados relevantes ao contexto brasileiro;
  • Viabilidade operacional das exigências: evitar modelos regulatórios inviáveis em larga escala;
  • Alinhamento com práticas internacionais: adotar soluções compatíveis com países líderes em inovação.

Mercados digitais e dinâmica econômica

Plataformas digitais são hoje a principal infraestrutura de acesso ao mercado para empresas, especialmente pequenas e médias. Elas ampliaram o alcance de negócios e reduziram custos de operação.

Políticas públicas digitais com forte intervenção estrutural podem alterar o funcionamento dessas plataformas. Por sua vez, podem gerar efeitos econômicos relevantes para toda a cadeia produtiva.

Estudos indicam que os custos de adaptação regulatória podem alcançar entre R$ 6,8 bilhões e R$ 11,3 bilhões. O impacto incide diretamente sobre preços, inovação e competitividade. Com isso, esses efeitos tendem a se propagar ao longo da cadeia econômica.

Propostas para mercados digitais

O avanço das plataformas digitais e da economia baseada em dados exige um modelo regulatório capaz de preservar a concorrência. Da mesma forma, deve estimular inovação e evitar intervenções excessivas que possam comprometer a dinâmica tecnológica e o desenvolvimento de novos negócios.

  • Regulação baseada em conduta: preservar o modelo de regulação ex post atualmente vigente na Lei de Defesa da Concorrência;
  • Preservação da funcionalidade das plataformas: evitar interferência direta em algoritmos e sistemas internos;
  • Avaliação de impacto regulatório: exigir análise prévia dos efeitos econômicos das medidas regulatórias;
  • Consideração dos efeitos sobre pequenos negócios: avaliar impactos distributivos e efeitos sobre empresas de menor porte;
  • Coordenação institucional: delimitar competências regulatórias entre os diferentes órgãos públicos.

Peso das políticas públicas digitais sobre crescimento e cotidiano

As decisões regulatórias no ambiente digital têm efeitos diretos tanto sobre o desempenho da economia quanto sobre o cotidiano das pessoas.

Como a inteligência artificial pode acelerar a produtividade

No plano macroeconômico, a inteligência artificial é um dos principais vetores de ganho de produtividade. Estudos internacionais indicam que sua adoção pode elevar a produtividade do trabalho entre 0,4 e 0,9 ponto percentual ao ano. Em cenários de maior difusão tecnológica, esse índice pode superar 1 ponto percentual.

Em termos agregados, estimativas da OCDE e da McKinsey Global Institute apontam que a inteligência artificial pode adicionar entre US$ 2,6 trilhões e US$ 4,4 trilhões por ano à economia global. No contexto brasileiro, ganhos dessa magnitude poderiam representar acréscimos da ordem de R$ 50 bilhões a R$ 100 bilhões ao PIB por ano. Isso depende do ritmo de adoção e da capacidade de difusão da tecnologia na economia.

Por outro lado, restrições que dificultem o desenvolvimento e a adoção da inteligência artificial tendem a reduzir esses ganhos potenciais. Com isso, há impacto direto sobre crescimento econômico e competitividade.

O custo da regulação em mercados digitais

Nos mercados digitais, custos regulatórios são estimados entre R$ 6,8 bilhões e R$ 11,3 bilhões. Somados a efeitos indiretos sobre inovação e entrada de novos produtos, podem influenciar preços. Da mesma forma, podem reduzir a oferta de serviços e limitar a dinâmica competitiva.

Esses impactos também se refletem no cotidiano. Por exemplo, podem afetar a capacidade de pequenos negócios alcançarem clientes e elevar o custo de serviços digitais. Da mesma forma, reduzem o acesso a novas tecnologias e tornam a experiência digital menos eficiente.

O desenho regulatório como fator decisivo para o Brasil

Nesse contexto, o desenho das políticas públicas digitais passa a ser um fator determinante. Ele influencia não apenas a organização de mercados, mas também o nível de produtividade da economia, o custo de vida e as oportunidades disponíveis.

A forma como o Brasil equilibra regulação e inovação será decisiva para sua inserção na economia digital global e para sua capacidade de capturar os ganhos associados a essa transformação.


por Juliana Natrielli

Bacharel em Direito pela PUC-SP e Diretora de Políticas Públicas da Buser. Atuou como Secretária de Micro e Pequenas Empresas em nível federal, diretora de desburocratização do Ministério da Economia e subsecretária de Trabalho e Empreendedorismo da Subprefeitura de Pinheiros. É fundadora e presidente do IFL-SP (Instituto de Formação de Líderes) e conselheira do Ranking dos Políticos.