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Em ano eleitoral, toda pesquisa nova vira manchete antes de virar análise. O número sobe ao topo da página, e o método que produziu aquele resultado fica para trás. Para o leitor, o custo dessa pressa é alto. Entender três ou quatro conceitos básicos basta para não cair em interpretação errada toda vez que sai um levantamento.
Pesquisa eleitoral é, no fim, um cálculo de probabilidade. Como entrevistar 156 milhões de eleitores brasileiros não cabe no orçamento, os institutos selecionam um grupo menor com perfil parecido com o da população total e tratam estatisticamente o que esse grupo respondeu. O nome técnico para esse grupo é amostra.
A amostra é o ponto frágil de qualquer levantamento. Se o grupo entrevistado não representar bem o eleitorado, o resultado vai estar errado já na origem, mesmo com cálculo impecável depois. Por isso os institutos cruzam dados do IBGE e do TSE para compor amostras, como:
Quanto mais fiel ao recorte real, melhor o resultado. A coleta acontece de três formas principais:
Cada método tem vantagens e limitações. O Ipec, por exemplo, costuma entrevistar cerca de 2 mil pessoas em domicílio, enquanto o Datafolha aborda eleitores em locais de circulação.
A margem de erro indica até quanto o número apresentado pode estar acima ou abaixo do valor real. Um candidato com 40% e margem de 2 pontos tem intenção entre 38% e 42%, segundo o JOTA. Já o nível de confiança, quase sempre fixado em 95%, mede o quanto se pode confiar nesse intervalo. Repetida cem vezes, a mesma pesquisa cairia dentro da faixa prevista em 95 delas, de acordo com DataSenado. Os dois conceitos andam juntos, mas medem coisas diferentes.
Na pesquisa espontânea, o entrevistado responde sem ver lista de nomes. Na estimulada, ele escolhe entre opções apresentadas pelo pesquisador. Os dois indicadores medem coisas diferentes.
A espontânea mostra fidelização do voto e quem cita um nome de cabeça já decidiu. A estimulada mede potencial, porque inclui também quem só se lembra do candidato ao ver a opção. Comparar números entre as duas perguntas leva a conclusões erradas.
A distância entre elas sinaliza solidez do voto. Um candidato com 5% na espontânea e 25% na estimulada tem apoio frágil, dependente da exposição. Quanto mais próximas as cifras, mais consolidada a candidatura.
A expressão é mal usada o tempo todo porque o empate técnico acontece quando a diferença entre dois nomes fica dentro da soma das margens de erro. Nesse caso, não dá para afirmar com segurança a estatística de quem está na frente.
Mesmo assim, isso não significa empate de verdade. Significa que o método não consegue separar os dois com precisão. Tendências fora desse intervalo, no entanto, podem ser apontadas. Alguém com 50% e outro com 30%, com margem de 2 pontos, está claramente à frente.
Nem sempre Método garante acerto absoluto. A pesquisa fotografa um momento e tenta projetar o futuro. Esse salto custa caro.
Aquele pleito expôs falhas dos institutos e um levantamento publicado pelo Metrópoles mostrou que algumas empresas erraram de 13 a 23,5 pontos em estados específicos. No segundo turno, os erros caíram para entre 0,4 e 6,2 pontos.
Datafolha e Ipec subestimaram a votação de Jair Bolsonaro e dos candidatos apoiados por ele em vários estados, segundo a reportagem do Seu Dinheiro. MDA, Paraná Pesquisas e Quaest se aproximaram mais do resultado das urnas no segundo turno, conforme apurou o Congresso em Foco.
Vários fatores explicam os deslizes. O voto envergonhado, a baixa taxa de resposta, a dificuldade em alcançar parte do eleitorado e a mudança de opinião perto da urna pesam no cálculo. Além disso, eleitores de algumas faixas demográficas costumam ser mais difíceis de captar por telefone ou aplicativo, o que distorce o perfil da amostra.
Nesse sentido, comparar institutos diferentes ajuda. Quando vários levantamentos mostram a mesma tendência, a leitura fica mais firme. Quando divergem muito entre si, vale desconfiar e olhar a metodologia.
Toda pesquisa divulgada precisa estar registrada no Sistema PesqEle do Tribunal Superior Eleitoral. O prazo é de no mínimo cinco dias antes da publicação, conforme determina a Resolução 23.600/2019, atualizada pela Resolução 23.727/2024.
A norma exige transparência sobre contratante, valor pago, origem dos recursos, plano amostral, metodologia, período de coleta e questionário. Quem divulga sem registro pode pagar multa de R$ 53.205 a R$ 106.410, conforme comunicado do TRE-PE.
Pesquisa eleitoral exige plano amostral científico e registro oficial. Enquete é levantamento espontâneo, sem rigor estatístico, normalmente em sites e redes sociais.
O TSE proíbe enquete em período de campanha, conforme esclarece o TRE-MG. Quem trata os dois levantamentos como equivalentes toma decisão com base em material sem valor estatístico.
Entender o que o eleitor pensa importa, porém, uma leitura completa do cenário político exige cruzar a intenção de voto com outras fontes. Uma delas é a Pesquisa Parlamentar do Ranking dos Políticos, que ouve os próprios deputados federais e senadores sobre temas relevantes da agenda nacional.
Em fevereiro de 2025, por exemplo, o levantamento mostrou que 49,1% dos deputados consideravam ruim ou péssima a atuação do governo Lula, ante 28,2% que avaliavam como ótima ou boa. No Senado, 46,2% rejeitavam a gestão e 30,8% aprovavam. Metade dos parlamentares, ainda, se mostrou favorável ao aumento da isenção do Imposto de Renda.
Esse tipo de pesquisa não compete com a eleitoral. Ela mostra como o próprio Congresso enxerga o Executivo e a pauta econômica, o que ajuda a interpretar o humor político fora das urnas e a entender por que algumas tendências aparecem antes nas elites e só depois no eleitorado em geral.
Algumas perguntas ajudam na hora de avaliar um levantamento, como:
Quando candidato ou partido paga uma pesquisa, a pergunta costuma vir com viés. Não quer dizer que o número é falso, mas o instituto sabe para quem está trabalhando. Ajuda comparar com pesquisas pagas pela imprensa, que respondem a outra lógica.
O tempo também pesa, pois se a coleta foi há duas semanas e no meio rolou debate, escândalo ou estreia de uma nova propaganda, o número já envelheceu. Pesquisa antiga serve de referência, não de retrato do momento.
Pesquisa eleitoral funciona como bússola, não como oráculo. Ajuda a ler o jogo, mas só na mão de quem sabe o que está olhando. Quem trata empate técnico como empate real, ou confunde estimulada com espontânea, acaba trocando de candidato favorito a cada manchete. Já quem repara em quem encomendou a pesquisa, como ela foi aplicada e cruza com análise política séria sai entendendo o cenário em vez de só reagir a ele.
Alan Martins é jornalista, designer gráfico e analista de comunicação do Ranking dos Políticos