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Economia
12 de maio, 2026

Quais países receberam financiamento do BNDES

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O BNDES já financiou bilhões de dólares em obras de empresas brasileiras no exterior. Parte desse dinheiro voltou com juros. Outra parte virou calote, foi coberta com dinheiro público e ainda pesa sobre o contribuinte brasileiro.

Como funciona o dinheiro do BNDES enviado ao exterior

O BNDES financia a exportação de serviços de engenharia de empresas brasileiras. O banco libera o dinheiro em reais para a construtora brasileira executar a obra fora do país. O governo estrangeiro que recebe a obra fica com a dívida e precisa pagar com juros, em dólar ou euro.

O programa existe desde 1998, criado no governo Fernando Henrique Cardoso. Até 2017, quando os desembolsos foram paralisados, o BNDES liberou cerca de US$ 10,5 bilhões para projetos em 15 países, na América Latina e na África.

O BNDES sempre repete que o dinheiro vai para empresas brasileiras, não para governos estrangeiros. Porém, quando o país devedor não paga, quem cobre o rombo é o Fundo de Garantia à Exportação (FGE), alimentado com recursos do Tesouro Nacional. Ou seja, no fim das contas, é o contribuinte brasileiro que assume o risco.

Países que mais receberam dinheiro do BNDES

Dos US$ 10,5 bilhões desembolsados em exportação de serviços de engenharia, 89% foram para apenas seis países. A lista, em ordem decrescente, é a seguinte:

  • Angola lidera com US$ 3,2 bilhões, distribuídos em mais de 80 projetos de rodovias, aeroportos e saneamento;
  • A Argentina ficou em segundo lugar com US$ 2 bilhões, pagando em dia;
  • Venezuela recebeu US$ 1,5 bilhão;
  • República Dominicana US$ 1,2 bilhão;
  • Equador US$ 700 milhões;
  • Cuba US$ 650 milhões.

Os outros nove países que receberam financiamento, entre eles Moçambique, Gana e Costa Rica, ficaram com os 11% restantes.

A concentração em países da América Latina e da África se explica pela demanda de obras nesses mercados e pela baixa concorrência de construtoras locais. Mas, a escolha dos destinatários sempre gerou suspeitas.

Segundo a Gazeta do Povo, boa parte das obras financiadas aconteceu em países pouco expressivos para o Brasil em termos comerciais, o que levanta dúvidas sobre motivação política nas decisões.

Empreiteiras que ficaram com quase tudo

A concentração não era só geográfica. Do lado das empresas, 98% dos US$ 10,5 bilhões foram para cinco grandes empreiteiras: Odebrecht ficou com 76%, Andrade Gutierrez com 14%, Queiroz Galvão com 4%, Camargo Correa com 2% e OAS com 2%.

Todas foram posteriormente flagradas na Operação Lava Jato por esquemas de corrupção envolvendo contratos públicos. A coincidência entre os maiores beneficiários do crédito público e os maiores protagonistas dos escândalos nunca foi ignorada pelo debate público.

O BNDES alega que, quando os pedidos de financiamento chegavam ao banco, os contratos comerciais já estavam fechados e só eram analisados após aprovação do governo federal. Mesmo assim, mais de 4,8 mil empresas brasileiras participaram como subfornecedoras dessas operações entre 1998 e 2017.

Ao todo, US$ 3,4 bilhões em bens e US$ 449 milhões em serviços foram fornecidos por empresas menores na cadeia produtiva.

Calotes de Venezuela, Cuba e Moçambique

Nem todos os países pagaram. Três deram calote: Venezuela, Cuba e Moçambique, acumulando US$ 1,2 bilhão em inadimplência até março de 2024.

A Venezuela está inadimplente desde 2018 e, segundo dados do Ministério da Fazenda cedidos à CNN Brasil, encerrou 2025 devendo US$ 1,856 bilhão ao Brasil, com mais de R$ 10 bilhões. A dívida não para de crescer por causa dos juros de mora, e não há previsão de pagamento. O governo venezuelano sequer responde às tentativas formais de negociação.

Cuba deve cerca de US$ 1,2 bilhão ao Brasil, somando indenizações, atrasos e parcelas a vencer. A obra mais emblemática financiada na ilha foi o Porto de Mariel, construído pela Odebrecht. O BNDES exigiu como garantia as receitas da indústria cubana de charutos, o TCU classificou essa garantia como frágil. Cuba reconheceu a dívida, mas disse que “não tem condição de quitar”.

Moçambique devia US$ 122 milhões e, segundo o BNDES, resolveu as pendências.

Quando esses países param de pagar, o Seguro de Crédito à Exportação é acionado e o FGE indeniza o BNDES. O banco diz que não teve prejuízo direto. Contudo, a dívida não desaparece: ela muda de endereço. Sai do BNDES e vai para a União. A partir daí, é o governo brasileiro, com dinheiro público, que tenta cobrar.

O que o Brasil realmente ganha (e perde)

O BNDES afirma que os US$ 10,5 bilhões desembolsados geraram retornos entre pagamentos de principal e juros até setembro de 2022. Os defensores do modelo dizem que houve lucro e geração de empregos qualificados no Brasil.

Esse argumento tem um lado que confirma a veracidade. Das exportações de serviços de engenharia, 35% do valor se reverteu em compra de bens industriais brasileiros, como máquinas, equipamentos e insumos. No auge do programa, as empreiteiras brasileiras chegaram a deter 2,5% do mercado global de engenharia.

No entanto, os críticos apontam problemas sérios. O economista Marcos Mendes, em artigo publicado no Brasil, Economia e Governo, argumenta que o BNDES é um banco de um governo deficitário, com poupança negativa. Emprestar para fora quando não se tem dinheiro dentro significa aumentar o endividamento público. Os US$ 10,5 bilhões seriam suficientes para construir uma hidrelétrica de grande porte ou 40 km de metrô em São Paulo.

Outro ponto é que o Brasil exporta predominantemente commodities, cujas vendas não dependem de financiamento estatal. Diferente de potências como China e Índia, que têm poupança interna alta (49% e 29% do PIB, respectivamente), o Brasil opera com uma poupança de apenas 15% do PIB. Financiar obras no exterior nessas condições pressiona os juros internos e drena recursos que poderiam ir para infraestrutura no próprio país.

Retomada do programa

Mesmo com os calotes pendentes, o governo Lula sancionou a Lei 15.359 em março de 2026, que reorganiza o sistema de apoio ao crédito à exportação e autoriza o BNDES a voltar a financiar serviços de engenharia no exterior.

A nova lei traz algumas mudanças em relação ao modelo anterior. O BNDES fica proibido de conceder crédito a países inadimplentes com o Brasil, salvo se houver renegociação formal da dívida. Além disso, o banco terá que publicar informações financeiras sobre a carteira de empréstimos em site de fácil acesso e apresentar relatório anual à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.

As travas de transparência são positivas, mas não resolvem o passado. Venezuela e Cuba continuam devendo e a conta segue crescendo.

Outros países fazem isso?

Mais de 90 países mantêm agências de crédito à exportação. Os EUA têm o Export-Import Bank, a China tem o China EXIM, a Alemanha opera pelo KfW e a França pela BPIFrance. A diferença é que essas nações são exportadoras industriais com alta poupança e fazem avaliação de risco rigorosa antes de emprestar.

No caso brasileiro, a seleção dos tomadores foi marcada por critérios pouco claros, afinidade política com governos de esquerda e garantias frágeis. E o problema está em usar o dinheiro público para financiar regimes autoritários e mal pagadores sem exigir garantias reais.

O debate sobre o BNDES e seus empréstimos ao exterior não deveria ser tratado como disputa ideológica. Trata-se de dinheiro público, de risco soberano e de escolhas que já custaram bilhões ao Brasil.


Alan Martins é jornalista, designer gráfico e analista de comunicação do Ranking dos Políticos