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O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), vive talvez o momento mais delicado de sua curta, porém intensa, passagem pelo comando da Casa. Até aqui, sua atuação tem sido marcada por decisões de pautar temas relevantes, em uma situação um tanto curiosa, pois atende a pedidos e favores do governo e da oposição, simultaneamente e, por isso, desagrada a todos.
A sabedoria popular diz que mais vale um pássaro na mão do que dois voando. Motta, ao optar por pautar temas econômicos de interesse do governo expansionista fiscalmente, desagrada a oposição. Ao pautar a dosimetria e a proteção à Zambelli, desagrada o governo. E por aí vai, apenas para citar a pauta desta semana passada. Diferentemente de antecessores, Motta não escolheu um dos pássaros para ter à mão (normalmente o governo), mas sim, fazer gestos pontuais aos dois lados, a depender dos acordos pontuais construídos com a maioria dos líderes.
Por isso, se complica. Recentemente, em um episódio que passou a repercutir em larga escala a pecha de presidente fraco, Motta viu sua cadeira de presidente ser ocupada pela direita. Demorou dois dias para conseguir tirá-los. Nesta semana, com a esquerda, reagiu de forma mais brusca, para evitar a repetição da repercussão ruim, de ausência de decisão firme. Porém, ao decidir retirar Glauber Braga (PSOL-RJ) da cadeira à força, a consequência foi um empurra-empurra generalizado entre jornalistas, assessores e a polícia legislativa. Mais uma vez, repercutiu negativamente sua posição, como quem não consegue mais controlar o ambiente.
Porém, é preciso considerar outros pontos. Motta é o presidente na hora em que o país vê o ex-presidente Bolsonaro, que é o principal adversário do presidente Lula, preso. Lula, por sua vez, gastando como nunca e tributando mais como sempre, amplia sua ofensiva aos adversários de olho em 2026. O clima não é fácil na Casa do Povo pois entre o povo também não é. A política, criada para ser o palanque da discussão e substituir as armas, é reflexo do que vivemos em sociedade. Estamos divididos.
A eleição que se aproxima é um divisor de águas na condução da dívida pública do país e dos rumos do crescimento econômico. Mas também no imaginário coletivo bastante criativo da população, um divisor de águas nos aspectos sociais, como a pauta de costumes e sobre como nos reconhecemos como país. O clima esquenta, os dias para a eleição estão contados a conta gotas. A direita continuará pressionando pela liberdade dos envolvidos no 8 de janeiro e projetos econômicos mais liberais, a esquerda continuará pressionando por suas pautas sociais. Não há consenso possível. Questão estrutural. Boa sorte ao presidente! Seja lá quem for.
Motta, com uma postura voltada à preservação da institucionalidade em meio a este ambiente político cada vez mais tensionado, viu que seu desempenho, apesar das turbulências recentes, ainda encontra respaldo entre os próprios parlamentares: um levantamento da Quaest divulgado nesta sexta-feira (12) indica que 55% dos deputados avaliam positivamente sua gestão, enquanto uma parcela significativa a classifica como regular, e só 13% (coincidência) consideram ruim, revelando que Motta mantém maioria favorável, embora com sinais claros de desgaste em relação a períodos anteriores. Portanto, Motta é pragmático em um aspecto: ora faz gestos ao governo, articulando apoio com o centro; ora faz à oposição, articulando os mesmos votos. E, usualmente, consegue maioria. Funciona. Consegue reconhecimento e consegue formar maiorias para as votações.
Externamente e dentro da Câmara, nas últimas semanas, porém, cresceu a percepção de fragilidade de sua liderança. Parte dos deputados passou a enxergá-lo como um presidente mais reativo do que impositivo, leitura que se consolidou após episódios que desgastaram sua imagem interna e pública. Toda a baderna desta semana foi interpretada como sinal de perda de controle do plenário e culminou em um movimento incomum: o líder do PT, Lindberg Faria, solicitou publicamente que Motta se afastasse do cargo, um gesto de alto peso simbólico. Lindberg é um deputado de difícil relação fora de sua bolha. É habituado a acionar o STF contra qualquer coisa que o desagrade. Mantém postura combativa em qualquer reunião que participe. Vive arrumando brigas na reunião de líderes. Motta e ele estão rompidos. Ainda assim, é o líder do PT. O gesto importa.
Vale acrescentar que Motta demonstra um claro sentimento de injustiça em relação ao governo. Ao longo de praticamente todo o ano legislativo, barrou a tramitação do PL da Anistia. Em contrapartida, viabilizou a principal agenda econômica do Executivo: o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda. Ainda assim, passou a ser alvo de ataques nas redes sociais, que ele interpreta como estimulados por integrantes da própria base governista.
Do outro lado, Motta também rompeu com o líder do PL, Sóstenes Cavalcante. O ambiente político mais amplo contribui para intensificar a pressão. A prisão do ex-presidente Bolsonaro acirrou os ânimos de todos os membros do PL, e a direita passou a cobrar com mais veemência a votação de pautas como a anistia e a discussão sobre dosimetria de penas. Ao ser pautada nesta semana, atendendo ao pedido legítimo de um espectro político, Motta acaba, novamente, irritando o Planalto.
O presidente Lula optou por não escalar o conflito, ciente de que, em um Congresso fragmentado, continua precisando do presidente da Câmara para garantir algum grau de previsibilidade legislativa. Quando ocorre rompimento de presidente da Câmara com presidente da República, o resultado não tende a ser muito bom (Não é, Dilma e Cunha?).
Para fechar a festa com chave de ouro, a declaração do ex-presidente da Casa, Arthur Lira, de que a Câmara virou uma esculhambação, foi mais um banho de água fria no atual presidente. Lira segue como um dos articuladores mais influentes do Parlamento, e sua crítica foi lida como um recado direto sobre o enfraquecimento da autoridade de Hugo Motta, que encontra-se, assim, em uma encruzilhada: mantém reconhecimento relevante entre seus pares, atende a pedidos de todos os lados, mas enfrenta uma contestação crescente à sua capacidade de comando.
O desfecho dependerá de sua habilidade em recuperar autoridade, reorganizar alianças e reafirmar o controle do centro decisório da Câmara. Não há receita pronta, ainda mais para quem tenta ter dois pássaros na mão. O mais prudente, seria abarcar um pássaro na mão, adotando agenda clara e definida. Do ponto de vista democrático, porém, Motta segue um caminho melhor, ao ouvir líderes de todos os lados. Foi votado e apoiado por todos, afinal. Não poderia simplesmente virar as costas para um lado. O preço disso, como estamos vendo, é a diluição de sua autoridade. Em algum momento Motta precisará fazer escolhas mais duras em um ambiente que se deteriora, e sua visão crítica à polarização indica suas pretensões. Que os líderes do PT e do PL estejam cientes disso.
Sobre o autor
Gabriel Jubran miranda é Diretor de Relações Governamentais do Ranking dos Políticos