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Brasil
21 de abril, 2026

O imposto que matou Tiradentes seria troco no Brasil de hoje

O imposto que matou Tiradentes seria troco no Brasil de hoje
Foto: Ranking dos Políticos

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O imposto que matou Tiradentes foi a derrama, cobrança forçada de tributos atrasados sobre o ouro na Capitania de Minas Gerais. A revolta contra essa taxa deu origem à Inconfidência Mineira, movimento que levou Joaquim José da Silva Xavier à forca em 21 de abril de 1792.

A derrama só era acionada quando o “quinto”, que já obrigava os mineradores a entregar 20% do ouro extraído à Coroa, não atingia as 100 arrobas anuais exigidas por Lisboa. Nesses casos, o Estado confiscava bens e ferramentas dos colonos para cobrir o déficit. Foi contra esse peso que os inconfidentes se levantaram.

Hoje, o país que transformou Tiradentes em herói, paga mais impostos do que se pagava a Portugal no século 18, e isso aparece nos dados oficiais: o país fechou 2024 com a maior carga tributária de sua história.

A comparação expõe um impasse, celebramos quem morreu contra o excesso de tributos enquanto convivemos com uma carga que ele consideraria insuportável.

Quem foi Tiradentes

Joaquim José da Silva Xavier nasceu em Minas Gerais, em 1746. Trabalhou como dentista amador, minerador, tropeiro e comerciante ao longo da vida. Por isso ganhou o apelido de Tiradentes, pelo qual ficou conhecido. Também ocupava o posto de alferes da cavalaria imperial na região das Minas.

A carreira militar deu a ele estabilidade e acesso a informações estratégicas da capitania. Ao mesmo tempo, o contato com diferentes camadas sociais o tornou propagandista ativo da Conjuração Mineira. Embora não pertencesse à elite letrada do movimento, o alferes defendia ideais republicanos com firmeza. Assumiu protagonismo na divulgação do plano revolucionário.

A Inconfidência Mineira

A Inconfidência Mineira foi organizada entre 1788 e 1789, na então Capitania de Minas Gerais. O estopim foi a ameaça da derrama, cobrança forçada de impostos atrasados sobre o ouro. Ou seja, o movimento surgiu como reação direta à pressão fiscal da Coroa Portuguesa. Os conspiradores planejavam proclamar uma república independente, com capital em Vila Rica, atual Ouro Preto.

Os inconfidentes eram inspirados pelos ideais do Iluminismo e pela Independência dos Estados Unidos. No entanto, o plano foi delatado antes de sair do papel. Joaquim Silvério dos Reis entregou o grupo em troca do perdão de suas dívidas com a Coroa. A traição interna selou o fim do movimento.

Por que só Tiradentes foi enforcado

Em 1792, dez envolvidos foram sentenciados à morte. Contudo, Dona Maria I concedeu perdão a nove deles, que tiveram a pena comutada para o exílio. Apenas Tiradentes foi enforcado, no Rio de Janeiro, em 21 de abril de 1792. Ele não pertencia à elite mineradora e assumiu toda a responsabilidade nos interrogatórios.

O corpo foi esquartejado e exposto em praças públicas como forma de intimidação. Além disso, a cabeça foi levada para Vila Rica e fixada em um poste.

A execução pretendia servir de exemplo contra novas rebeliões na colônia. Ainda assim, o efeito simbólico no longo prazo foi o oposto.

Construção de um herói nacional

Durante o Império, a memória de Tiradentes permaneceu apagada. Dom Pedro I e Dom Pedro II descendiam diretamente da rainha que ordenou a execução.

Somente com a Proclamação da República, em 1889, o alferes foi resgatado. O novo regime precisava de mártires que legitimassem a ruptura com a monarquia.

O feriado nacional foi oficializado por decreto em 1890, no governo provisório de Deodoro da Fonseca. A data foi depois consolidada pela Lei nº 10.607, de 2002. A iconografia o aproximou de Jesus Cristo, com barba longa e túnica branca. Assim, o alferes enforcado virou símbolo nacional.

Uma figura em disputa política

Tanto a esquerda quanto a direita reivindicam o legado do mineiro. Os golpistas de 1964 se autodenominaram “novos inconfidentes” para justificar o regime militar. As ligas camponesas também criaram o Movimento Radical Tiradentes na luta armada. Cada projeto político no Brasil procurou apropriar-se da figura.

Tiradentes representa um ideal de liberdade para públicos diferentes. Ainda assim, a essência republicana do sacrifício permanece intocada. Por isso a data segue relevante 235 anos depois.

A derrama atual: carga tributária e crise fiscal

Se o imposto que matou Tiradentes motivou a Inconfidência, a carga tributária brasileira atual incomoda igualmente. Em 2024, a carga tributária bateu recorde histórico de 35,1% do PIB, segundo o Ipea. Trata-se do maior patamar em décadas, resultado de seguidos ajustes arrecadatórios.

O retorno oferecido ao cidadão anda em direção contrária. Segundo o Índice de Retorno de Bem-Estar à Sociedade (IRBES), o Brasil ocupa há 14 anos consecutivos a última colocação entre os países analisados.

O brasileiro paga mais impostos que um suíço e recebe muito menos em troca. A insatisfação popular cresce e aparece em pesquisas de opinião recentes.

O que o brasileiro paga

O brasileiro médio destina 40,7% da renda apenas para sustentar a máquina pública. Isso equivale a cerca de cinco meses de trabalho por ano só para pagar tributos. Além disso, impostos incidem em cascata e multiplicam o efeito final sobre o preço dos produtos. Por exemplo, o ICMS nominal de 18% chega a 21,9%.

O setor automotivo ilustra bem a distorção tributária. A compra de um veículo no Brasil pode ter entre 35% e 55% do valor composto apenas por impostos. Produzir e consumir no país ficou caro.

Colapso fiscal e dívida pública

A pressão por mais arrecadação esbarra em limites estruturais graves. A dívida pública deve atingir 117,7% do PIB até 2035, segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado.

As despesas obrigatórias crescem acima do limite legal e engessam o orçamento federal. Contudo, nenhuma reforma eficiente dos gastos avançou em ritmo compatível com a necessidade.

O resultado é um círculo vicioso. O Banco Central eleva juros para conter a inflação alimentada pelo descontrole fiscal. Ao mesmo tempo, o Congresso Nacional resiste a cortes e a sociedade resiste a novos aumentos de impostos. Economistas apontam risco de correção abrupta caso o cenário não se equilibre.

Corrupção no Brasil

Um estudo doIBPT aponta que R$ 160 bilhões são consumidos pela corrupção anualmente. O valor representa cerca de 24% dos impostos arrecadados pelo Estado brasileiro. Trata-se de uma das feridas mais abertas da democracia brasileira.

No entanto, o problema vai além de desvios pontuais. Nos últimos 35 anos, dois presidentes, Fernando Collor e Dilma Rousseff, sofreram impeachment. Além disso, Collor e Luiz Inácio Lula da Silva foram investigados e presos em momentos distintos. Três ex-presidentes da Câmara dos Deputados também foram detidos em escândalos.

O que os brasileiros mais temem atualmente

A soma desses episódios corrói a confiança nas instituições. Na pesquisa Ipsos de janeiro de 2026, “corrupção financeira e política” aparece com 36% entre as maiores preocupações dos brasileiros. As preocupações de hoje conversam com as pautas de 1789.

A ineficiência administrativa ocupa o mesmo patamar de gravidade. Atualmente, há mais de 50 mil cargos políticos por indicação nas três esferas governamentais do Brasil. Em contraste, no Reino Unido esse número é de apenas 104 cargos. Dessa forma, o inchaço do Estado encarece a máquina sem melhorar a prestação de serviços.

Tiradentes e o Brasil de hoje

O alferes mineiro não foi o principal articulador da Inconfidência, mas assumiu toda a responsabilidade. Por isso, sua memória resistiu aos filtros de cada regime político. O mártir representa a coragem de questionar o Estado. Essa inquietação se traduz hoje em exigir melhorias pelos tributos pagos.

Não existe hoje uma Coroa Portuguesa a ser derrubada, mas sim um Estado a ser reformado. Ainda assim, o desequilíbrio entre arrecadação e serviço permanece como ponto sensível. O Dia de Tiradentes constitui uma oportunidade para repensar o pacto social brasileiro.


Alan Martins é jornalista, designer gráfico e analista de comunicação do Ranking dos Políticos

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