Em breve
Estamos trabalhando nessa funcionalidade, volte depois para conferir

Compartilhar
Compartilhe o artigo via
Ou copie o link
O imposto que matou Tiradentes foi a derrama, cobrança forçada de tributos atrasados sobre o ouro na Capitania de Minas Gerais. A revolta contra essa taxa deu origem à Inconfidência Mineira, movimento que levou Joaquim José da Silva Xavier à forca em 21 de abril de 1792.
Em 2026, o mesmo Brasil que transformou Tiradentes em herói nacional paga mais impostos do que se pagava a Portugal no século 18. A comparação não é discurso vazio, aparece nos dados oficiais.
O país fechou 2024 com a maior carga tributária de sua história. Além disso, a confiança nas instituições segue abalada por escândalos de corrupção que atingiram presidentes e parlamentares. Revisitar a história do imposto que matou Tiradentes ajuda a entender os impasses do presente.
Joaquim José da Silva Xavier nasceu em Minas Gerais, em 1746. Trabalhou como dentista amador, minerador, tropeiro e comerciante ao longo da vida. Por isso ganhou o apelido de Tiradentes, pelo qual ficou conhecido. Também ocupava o posto de alferes da cavalaria imperial na região das Minas.
A carreira militar deu a ele estabilidade e acesso a informações estratégicas da capitania. Ao mesmo tempo, o contato com diferentes camadas sociais o tornou propagandista ativo da Conjuração Mineira. Embora não pertencesse à elite letrada do movimento, o alferes defendia ideais republicanos com firmeza. Assumiu protagonismo na divulgação do plano revolucionário.
A Inconfidência Mineira foi organizada entre 1788 e 1789, na então Capitania de Minas Gerais. O estopim foi a ameaça da derrama, cobrança forçada de impostos atrasados sobre o ouro. Ou seja, o movimento surgiu como reação direta à pressão fiscal da Coroa Portuguesa. Os conspiradores planejavam proclamar uma república independente, com capital em Vila Rica, atual Ouro Preto.
Os inconfidentes eram inspirados pelos ideais do Iluminismo e pela Independência dos Estados Unidos. No entanto, o plano foi delatado antes de sair do papel. Joaquim Silvério dos Reis entregou o grupo em troca do perdão de suas dívidas com a Coroa. A traição interna selou o fim do movimento.
Em 1792, dez envolvidos foram sentenciados à morte. Contudo, Dona Maria I concedeu perdão a nove deles, que tiveram a pena comutada para o degredo. Apenas Tiradentes foi enforcado, no Rio de Janeiro, em 21 de abril de 1792. Ele não pertencia à elite mineradora e assumiu toda a responsabilidade nos interrogatórios.
O corpo foi esquartejado e exposto em praças públicas como forma de intimidação. Além disso, a cabeça foi levada para Vila Rica e fixada em um poste.
A execução pretendia servir de exemplo contra novas rebeliões na colônia. Ainda assim, o efeito simbólico no longo prazo foi o oposto.
Durante o Império, a memória de Tiradentes permaneceu apagada. Dom Pedro I e Dom Pedro II descendiam diretamente da rainha que ordenou a execução.
Somente com a Proclamação da República, em 1889, o alferes foi resgatado. O novo regime precisava de mártires que legitimassem a ruptura com a monarquia.
O feriado nacional foi oficializado por decreto em 1890, no governo provisório de Deodoro da Fonseca. A data foi depois consolidada pela Lei nº 10.607, de 2002. A iconografia o aproximou de Jesus Cristo, com barba longa e túnica branca. Assim, o alferes enforcado virou símbolo maior da resistência brasileira.
Tanto a esquerda quanto a direita reivindicam o legado do mineiro. Os golpistas de 1964 se autodenominaram “novos inconfidentes” para justificar o regime militar. As ligas camponesas também criaram o Movimento Radical Tiradentes na luta armada. Cada projeto político no Brasil procurou apropriar-se da figura.
Tiradentes representa um ideial de liberdade para públicos diferentes. Ainda assim, a essência republicana do sacrifício permanece intocada. Por isso a data segue relevante 235 anos depois.
Se o imposto que matou Tiradentes motivou a Inconfidência, a carga tributária brasileira atual incomoda igualmente. Em 2024, a carga tributária bateu recorde histórico de 35,1% do PIB, segundo o Ipea. Trata-se do maior patamar em décadas, resultado de seguidos ajustes arrecadatórios.
O retorno oferecido ao cidadão anda em direção contrária. Segundo o Índice de Retorno de Bem-Estar à Sociedade (IRBES), o Brasil ocupa há 14 anos consecutivos a última colocação entre os países analisados.
O brasileiro paga mais impostos que um suíço e recebe muito menos em troca. A insatisfação popular cresce e aparece em pesquisas de opinião recentes.
O brasileiro médio destina 40,7% da renda apenas para sustentar a máquina pública. Isso equivale a cerca de cinco meses de trabalho por ano só para pagar tributos. Além disso, impostos incidem em cascata e multiplicam o efeito final sobre o preço dos produtos. Por exemplo, o ICMS nominal de 18% chega a 21,9%.
O setor automotivo ilustra bem a distorção tributária. A compra de um veículo no Brasil pode ter entre 35% e 55% do valor composto apenas por impostos. Produzir e consumir no país ficou caro.
A pressão por mais arrecadação esbarra em limites estruturais graves. A dívida pública deve atingir 117,7% do PIB até 2035, segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado.
As despesas obrigatórias crescem acima do limite legal e engessam o orçamento federal. Contudo, nenhuma reforma eficiente dos gastos avançou em ritmo compatível com a necessidade.
O resultado é um círculo vicioso. O Banco Central eleva juros para conter a inflação alimentada pelo descontrole fiscal. Ao mesmo tempo, o Congresso Nacional resiste a cortes e a sociedade resiste a novos aumentos de impostos. Economistas apontam risco de correção abrupta caso o cenário não se equilibre.
Um estudo do IBPT aponta que R$ 160 bilhões são consumidos pela corrupção anualmente. O valor representa cerca de 24% dos impostos arrecadados pelo Estado brasileiro. Trata-se de uma das feridas mais abertas da democracia.
No entanto, o problema vai além de desvios pontuais. Nos últimos 35 anos, dois presidentes, Fernando Collor e Dilma Rousseff, sofreram impeachment. Além disso, Collor e Luiz Inácio Lula da Silva foram investigados e presos em momentos distintos. Três ex-presidentes da Câmara dos Deputados também foram detidos em escândalos.
A soma desses episódios corrói a confiança nas instituições. Na pesquisa Ipsos de janeiro de 2026, “corrupção financeira e política” aparece com 36% entre as maiores preocupações dos brasileiros. As preocupações de 2026 conversam com as pautas de 1789.
A ineficiência administrativa ocupa o mesmo patamar de gravidade. Atualmente, há mais de 50 mil cargos políticos por indicação nas três esferas governamentais do Brasil. Em contraste, no Reino Unido esse número é de apenas 104 cargos. Dessa forma, o inchaço do Estado encarece a máquina sem melhorar a prestação de serviços.
O alferes mineiro não foi o principal articulador da Inconfidência, mas assumiu toda a responsabilidade. Por isso, sua memória resistiu aos filtros de cada regime político. O mártir representa a coragem de questionar o Estado. Essa inquietação se traduz hoje em exigir melhorias pelos tributos pagos.
A distância entre 1789 e 2026 tem limites óbvios. Não existe hoje uma Coroa Portuguesa a ser derrubada, mas sim um Estado a ser reformado. Ainda assim, o desequilíbrio entre arrecadação e serviço permanece como ponto sensível.
A data constitui uma oportunidade para repensar o pacto social brasileiro.
Alan Martins é bacharel em Comunicação Social/Jornalismo pelo Instituto Esperança de Ensino Superior (IESPES). É também Designer Gráfico pela EBAC (Escola Britânica de Artes Criativas e Tecnologia). Atua como Analista de Comunicação do Ranking dos Políticos.