
Compartilhar
Compartilhe o artigo via
Ou copie o link
O Fórum da Liberdade de 2026 teve como tema uma pergunta tão simples quanto pertinente: “O Brasil tem jeito?”. Em pleno período eleitoral, a provocação ganha ainda mais força. Após o primeiro turno, realizado em 4 de outubro, o país volta suas atenções para as disputas do segundo turno.
Nessa etapa, os eleitores definirão o próximo presidente da República e, onde houver necessidade, os governadores dos estados. Sem juízo de valor sobre este ou aquele candidato, talvez seja hora de recordar algo básico da nossa estrutura constitucional.
A condução do país não depende exclusivamente do presidente da República. Na verdade, depende também do funcionamento dos demais Poderes e das instituições constitucionais.
Ao lado do Poder Executivo está o Congresso Nacional, formado por 513 deputados federais e 81 senadores. São representantes escolhidos pela própria população. E é justamente aí que reside uma parte importante da questão.
É bem verdade que parcela considerável da população fica obnubilada por seu candidato à Presidência. Muitos agem como se estivessem diante de uma espécie de super-herói destinado a salvar o país do caos absoluto.
De um lado estaria aquele que supostamente representa todo o bem. Do outro, aquele que concentraria todo o mal. É a materialização do velho maniqueísmo político.
Norberto Bobbio já chamava atenção para o perigo de reduzir a complexidade da política a antagonismos absolutos. Nesse sentido, o debate público não pode ser resumido a uma disputa entre bons e maus.
A democracia pressupõe pluralismo, liberdade de expressão, respeito às regras constitucionais e convivência entre posições divergentes. Ainda assim, não é raro encontrar quem trate seu candidato como figura quase messiânica.
O adversário, por sua vez, vira a própria personificação de tudo aquilo que há de errado no país. Curiosamente, essa mesma pessoa, muitas vezes, sequer se lembra em quem votou para deputado ou senador na eleição anterior.
Cobra-se do presidente a solução para todos os problemas nacionais. Ao mesmo tempo, ignora-se quem elabora leis, fiscaliza o Executivo e participa diretamente das grandes decisões do país.
E talvez seja justamente esse um dos nossos maiores problemas políticos. Afinal, depositamos expectativas excessivas em líderes políticos e atenção insuficiente nas instituições que limitam e fiscalizam o poder.
Respondendo, então, à pergunta lançada nos painéis do Fórum da Liberdade: sim, o Brasil tem jeito. Tem jeito quando o cidadão é respeitado.
O país também tem jeito quando aquele que trabalha, produz e empreende consegue prosperar sem ser sufocado por burocracias intermináveis. Isso vale ainda para uma carga tributária que frequentemente transforma o Estado em sócio compulsório de cada conquista.
Da mesma forma, há jeito quando o pequeno empreendedor pode crescer, contratar e investir. Para isso, ele não pode enxergar o poder público como um obstáculo permanente em seu caminho.
Mas o Brasil terá jeito, sobretudo, quando uma parcela maior da população compreender algo essencial. Político não é ídolo, salvador ou objeto de devoção.
Na verdade, político é funcionário temporário da sociedade, eleito por um período determinado. Sua função é representar os interesses daqueles que lhe confiaram um mandato. A palavra, portanto, deve ser cobrança, e não idolatria. Análise de propostas, e não paixão política. Fiscalização, e não torcida organizada.
O Brasil reúne recursos naturais, um agronegócio competitivo, capacidade industrial e conhecimento técnico que podem sustentar seu desenvolvimento. Temos abundância de recursos naturais e um agronegócio de enorme relevância.
Além disso, contamos com capacidade industrial e um patrimônio tecnológico e de infraestrutura. Esse patrimônio, muitas vezes, sequer é lembrado quando discutimos o futuro do país.
Temos grandes usinas hidrelétricas, a exemplo da Itaipu Binacional, uma das maiores obras de engenharia energética do continente. Também possuímos o complexo nuclear de Angra dos Reis.
Da mesma forma, desenvolvemos tecnologia naval de alta complexidade por meio de programas como o PROSUB. Dele nasceram os submarinos da Classe Riachuelo: Riachuelo, Humaitá, Tonelero e Angostura. São exemplos de que o Brasil possui capacidade técnica, científica, industrial e humana para executar projetos de grande dimensão.
Essa capacidade, contudo, precisa estar integrada a um projeto mais amplo de desenvolvimento econômico. Infraestrutura não é gasto pelo simples ato de construir. Quando bem planejada, ela conecta regiões, reduz custos, facilita o escoamento da produção, gera oportunidades e aumenta a competitividade.
É nesse ponto que também precisamos voltar os olhos para nossas ferrovias. Durante décadas, o Brasil privilegiou demasiadamente o transporte rodoviário. Com isso, deixou de aproveitar plenamente uma malha ferroviária que poderia cumprir papel estratégico.
Ela serviria ao transporte de cargas, à mobilidade regional e até ao turismo. E não se trata de olhar nostalgicamente para um meio de transporte do passado. Basta observar o que fazem países desenvolvidos.
A União Europeia continua investindo pesadamente na expansão e modernização de sua rede ferroviária. Isso inclui linhas de alta velocidade. Já os Estados Unidos seguem destinando bilhões de dólares à modernização de ferrovias, segurança ferroviária e transporte de passageiros. Os países avançados não abandonaram as ferrovias; continuam investindo nelas.
O Brasil, portanto, não precisa escolher entre rodovias, ferrovias, portos, energia ou tecnologia. Um país continental precisa justamente integrar esses diferentes modais e capacidades.
Dessa forma, cabe aproveitar aquilo que já possui e recuperar o que foi abandonado, quando economicamente viável. Também é preciso criar condições para novos investimentos, inclusive por meio da iniciativa privada.
O que tantas vezes nos falta não é potencial. Falta transformar potencial em resultado. Faltam gestão pública eficiente, segurança jurídica, responsabilidade fiscal, concorrência e liberdade para produzir e empreender. Além disso, é necessário compreender que uma federação forte não se constrói concentrando todas as respostas em Brasília.
É preciso respeitar os entes federativos, sua autonomia e sua capacidade de agir de acordo com as realidades locais. Estados e municípios não podem ser tratados como meros executores de decisões tomadas no centro do poder.
Precisamos, justamente, de mais Brasil e menos Brasília. Isso significa mais autonomia, responsabilidade e soluções próximas do cidadão. No entanto, a necessária cooperação entre os diferentes níveis da Federação não pode ser abandonada.
Talvez seja essa a principal resposta que 2026 possa nos oferecer. O futuro do Brasil não dependerá apenas de quem ocupar a Presidência, nem de qualquer personalidade política isoladamente.
Dependerá também das instituições, das escolhas eleitorais e das decisões tomadas pelos cidadãos e seus representantes. Com isso, será decidido pela qualidade das nossas instituições e pelas escolhas feitas nas urnas. Pesará, ainda, a capacidade do cidadão de fiscalizar aqueles que escolheu.
Presidentes passam. Deputados passam. Senadores passam. Governantes passam. O país permanece. Por isso, diante da pergunta que marcou o Fórum da Liberdade de 2026, minha resposta continua otimista, mas sem ingenuidade. Sim, o Brasil tem jeito.
E talvez o primeiro passo seja compreender que o jeito do Brasil não virá de um salvador. Virá de cidadãos conscientes de que o país também é responsabilidade deles.