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Para que a educação dê certo, é preciso aprender a lição. Fizemos dois planos nacionais de educação que não funcionaram. Agora, como maus alunos, vamos para o terceiro, aprovado por aclamação pelo Congresso.
A notícia traz à memória a frase famosa de Nelson Rodrigues, de que toda unanimidade é burra.
Unanimidades são pouco inteligentes porque evitam dilemas e choques de interesse que precisam ser enfrentados. A saída mais fácil de contorná-los é jogar neles cada vez mais dinheiro, mas já estamos passando do limite.
A educação brasileira se expandiu enormemente nas últimas décadas. Hoje, envolve mais de 60 milhões de pessoas entre estudantes, professores e funcionários. Isso equivale a quase um terço da população. No entanto, com as boas exceções de praxe, a qualidade é baixa. E o impacto na produtividade da economia, quase imperceptível.
Gastam cerca de 5% a 6% do PIB via setor público e outros 1,6% pelo setor privado em educação. Em termos proporcionais, é muito mais do que a grande maioria dos países.
Mesmo assim, o Plano prevê que o investimento público chegue a 10% do PIB até o fim do decênio. Contudo, com a economia crescendo pouco e a dívida pública saindo do controle, essa meta compete com outras demandas urgentes. Por isso, é tão ilusória quanto a do plano passado, que encerrou com pouco mais da metade disso.
Vivemos com um sistema educativo concebido há mais de cinquenta anos. Ele nunca funcionou bem. E não há de ser o recente “sistema nacional de educação”, que vai dar conta da mudança.
Temos pela frente, por um lado, a impossibilidade de seguir gastando cada vez mais. Por outro, duas grandes revoluções que podem abrir novos horizontes.
As novas tecnologias já afetam profundamente o mercado de trabalho. Profissões inteiras estão desaparecendo. Outras estão surgindo. Ninguém sabe ao certo quais. Além disso, a inteligência artificial, os programas de ensino individualizado, as microcredenciais e a educação a distância estão mudando.
Estamos também diante de uma grande transição demográfica. Segundo as projeções do IBGE, os nascimentos caíram de 3,6 milhões em 2000 para 2,6 milhões em 2022, e a coorte que entrará no ensino fundamental em 2030 deve girar em torno de 2,3 a 2,4 milhões. Escolas precisarão ser fechadas, bons professores poderão ganhar mais e outros precisarão ser realocados ou dispensados.
Com menos estudantes e novas tecnologias, deve ser possível e será necessário fazer muito mais com os mesmos e até menos recursos de que já dispomos, e dedicar mais para cuidar da população que está envelhecendo.
Precisamos consolidar as boas experiências, incorporar o que nos ensinam as pesquisas educacionais, aprender com outros países, abandonar o que não funciona e abrir espaço para inovação.
O Plano faz da inclusão e da equidade dois de seus três pilares (o terceiro é a qualidade) e se compromete a que os resultados educacionais sejam 90% equivalentes entre grupos definidos por raça, renda e território. Mas equidade, aqui, ainda significa sobretudo acesso. E o problema que o Brasil enfrenta hoje mudou de natureza.
A grande exclusão do século XX era externa, com crianças e jovens que não entravam na escola. Ela continua existindo, mas, cada vez mais, no século XXI, é interna.
Nunca tantos brasileiros estiveram dentro do sistema. E nunca as diferenças entre abandonar e persistir, aprender mais ou menos, e ter melhor ou pior acesso ao mercado de trabalho, associadas a diferenças econômicas e sociais de origem, foram tão grandes.
Além disso, o Plano deixa de lado questões específicas urgentes.
O “patinho feio” da educação brasileira continua sendo o ensino fundamental II, em que milhões de jovens chegam aos 15 anos sem as competências mínimas esperadas.
No PISA 2022, menos da metade dos estudantes brasileiros atingiu o nível mínimo de proficiência em matemática e ciências.
Quando aprenderemos com outros países a definir com clareza o que todos devem saber a esta idade e criar avaliações que responsabilizem as escolas pelos resultados e orientem os próximos passos de cada estudante?
O ensino técnico continua sendo um mero penduricalho do currículo médio tradicional, sem oferecer alternativas efetivas para quem não irá à universidade.
O ENEM acabou se tornando o currículo oculto de todo o ensino médio, uma camisa de força que inviabiliza qualquer diversificação real. E o ensino superior continua sendo, para mais da metade dos que nele entram, uma miragem de futuro profissional que nunca alcançarão
O novo plano tem 19 objetivos e 73 metas, mas passa ao largo destas questões. Como dizia o cientista político Aaron Wildavsky, planos como estes não são a solução, mas parte do problema.
Planos abrangentes e grandiosos, que evitam temas controversos e combinam metas múltiplas distantes e dissociadas da responsabilidade de quem executa e da realidade orçamentária, geram no máximo burocracias para anotar o que foi ou não alcançado, por razões que nada têm a ver com o plano. Com isto, tiram o foco de problemas centrais que precisam de energia e de reformas pedagógicas e institucionais concretas.
Podem ser politicamente espertos, mas são pouco inteligentes.
Análise de Simon Schwartzman, sociólogo e cientista político, membro da Academia Brasileira de Ciências e ex-presidente do IBGE (1994-1998). Pesquisador associado do Instituto de Estudos de Política Econômica (Casa das Garças), com doutorado pela Universidade da Califórnia, Berkeley.