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por Nádia Martins
O agronegócio se consolidou como um dos principais vetores de construção da imagem e da reputação do Brasil. Isso vale tanto internamente quanto no cenário internacional. Essa é a principal conclusão da pesquisa Marca Brasil, conduzida pela consultoria OnStrategy e divulgada com exclusividade pela CNN Brasil. O estudo coloca o agro ao lado do turismo como um dos pilares da percepção do país no mundo.
Ao avaliar indicadores como imagem, notoriedade e exposição internacional, o estudo mostra que o agronegócio registrou nota 7,1 em imagem e reputação no Brasil e 6,6 no exterior. As notas seguem uma escala de 0 a 10. Esse desempenho fica atrás apenas do turismo e à frente de setores como indústria, energia e tecnologia. Além disso, a notoriedade aparece como ponto forte. O agro alcança 8,5 no mercado interno e 7,1 fora do país. Isso indica alto grau de reconhecimento, ainda que exista espaço para ampliar a familiaridade internacional com o setor.
A leitura atual da pesquisa Marca Brasil dialoga com um movimento que não começou agora. Há cerca de cinco anos, um levantamento feito na Europa pela própria OnStrategy, em parceria com a Serasa Experian, já trazia sinais dessa tendência. A presença do Brasil na produção de alimentos já era percebida como um ativo relevante. Consequentemente, a contribuição do agro à segurança alimentar global começava a ser associada à melhora da imagem da marca Brasil.
Esse avanço é reforçado, na visão de José Luiz Tejon, especialista em agronegócio, pelos dados mais recentes. Segundo ele, “Há cinco anos, as pesquisas já mostravam que a atuação do Brasil na produção de alimentos gerava valor para a marca do país. Agora, os novos resultados confirmam que a atividade de alimentos, energia e fibras passou a ser percebida como fator de segurança para o mundo inteiro. Isso é valorizado interna e externamente, e representa uma constatação internacional relativamente nova sobre o agro brasileiro.”
A pesquisa Marca Brasil é apresentada como o maior levantamento já produzido sobre a reputação do Brasil. Ao todo, foram consultados 192.400 brasileiros e 278.200 estrangeiros, de forma online, entre outubro de 2025 e março de 2026. Participaram cidadãos, executivos, jornalistas, influenciadores e autoridades. A amostra ampla, portanto, reforça a consistência dos resultados.
O desempenho do agronegócio na pesquisa está diretamente associado à relevância econômica do setor nas últimas décadas. Afinal, considerando toda a cadeia produtiva — da produção no campo aos insumos, passando pela agroindústria, transporte e comércio — o agro responde por cerca de 25% do PIB brasileiro, segundo o Cepea/Esalq-USP e a CNA. Esse peso ajuda a explicar por que o segmento aparece com imagem mais forte do que outros setores.
Em pouco mais de 40 anos, o Brasil deixou de ser importador de alimentos para se consolidar como um dos principais fornecedores globais. A produção de grãos (arroz, feijão, milho, soja e trigo) saltou de 38 milhões de toneladas em 1975 para mais de 357 milhões de toneladas projetadas para a safra 2025/26, segundo a Conab. Ou seja, um avanço superior a 800%. Na pecuária, o rebanho bovino chega a cerca de 238 milhões de cabeças. É o maior rebanho comercial do mundo.
Esse movimento se reflete nas exportações. As vendas externas do agronegócio somaram US$ 169,2 bilhões em 2025. Foi um recorde histórico, que representou 48,5% de tudo o que o Brasil vendeu ao exterior no ano. Com isso, o país reforçou sua posição como grande fornecedor de alimentos, fibras e energia.
Nesse sentido, os números de longo prazo impressionam. Entre 2001 e 2025, as exportações agropecuárias brasileiras cresceram 810%. O ritmo é superior ao da União Europeia (340%) e dos Estados Unidos (180%), segundo a pesquisa.
A pesquisa também se debruça sobre a percepção de confiabilidade do agronegócio brasileiro em diferentes regiões do mundo. Nesse ponto, os dados indicam que o Brasil é visto como um fornecedor estável e um parceiro confiável. Isso se deve, principalmente, à capacidade de entrega em escala, à regularidade dos fluxos de exportação e ao histórico de cumprimento de contratos.
Questionado sobre os fatores que mais pesam nessa avaliação, Pedro Tavares, CEO da OnStrategy, destaca a combinação entre qualidade, escala e previsibilidade. Segundo ele, a confiança não se explica apenas pelo volume produzido. Ela vem, sobretudo, da forma como o Brasil se consolidou como fonte contínua de suprimento:
“A confiabilidade do agronegócio brasileiro é, em grande medida, um resultado da convergência entre qualidade de produto e escala de produção. Essa combinação se traduz em redução de riscos para os compradores. Eles enxergam o Brasil como um fornecedor capaz de atender grandes demandas sem rupturas. Além disso, o histórico de cumprimento de contratos e a capacidade logística construída ao longo das últimas décadas reforçam essa percepção de estabilidade, mesmo em cenários de volatilidade global.”
As diferenças regionais também aparecem com clareza. De acordo com Tavares, Ásia e Europa despontam como mercados em que o Brasil recebe as melhores avaliações de confiança e relevância. No entanto, os motivos são diferentes em cada região.
Na Ásia, a demanda crescente por alimentos e proteína animal coloca o país como parceiro de longo prazo. Já na Europa, apesar de um debate mais intenso sobre sustentabilidade, o agro brasileiro é reconhecido como peça importante na segurança alimentar e energética.
Tavares resume: “Na Ásia, a escala e a regularidade da oferta são vistas como diferenciais competitivos. Na Europa, mesmo com exigências mais rigorosas em temas ambientais, o Brasil é percebido como um fornecedor necessário. Ele é também tecnicamente capaz de se adaptar a padrões mais elevados. Em ambos os casos, a confiança está ancorada na capacidade de entregar volume, qualidade e continuidade.”
Essas diferenças regionais ajudam a entender onde a imagem do agro brasileiro é mais sólida. Também mostram onde ela ainda é sensível a crises de reputação. O atributo de Estilo de Vida e Segurança, por exemplo, obteve o pior score externo, com nota 4,4. Ele funciona como limitador para o crescimento da imagem do país.
Diante disso, os dados indicam que a construção de confiança passa tanto por desempenho econômico quanto por respostas consistentes a temas como sustentabilidade, governança ambiental e transparência nas cadeias produtivas.
Nádia Martins é jornalista, especialista em comunicação digital e produtora de conteúdo do Ranking dos Políticos