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Política
17 de julho, 2026

Lula acumula ao menos 23 derrotas no Congresso

Lula acumula ao menos 23 derrotas no Congresso
Foto: Governo Lula acumula 23 derrotas em votações no Congresso Nacional | Ranking dos Políticos

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O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) soma pelo menos 23 derrotas relevantes no Congresso Nacional. O levantamento é do Poder360 e cobre o período entre 2023 e 2026. Nesse intervalo, o petista enfrentou vetos derrubados, pautas travadas, comissões perdidas e uma rejeição histórica no Senado.

O ponto mais duro veio em abril de 2026. O Senado barrou a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, algo que não acontecia havia mais de um século.

As 23 derrotas do 3º mandato

A lista abaixo reúne os episódios mapeados pelo levantamento. Está organizada por ano e por tipo de derrota.

Primeira metade do mandato (2023-2024)

  • 2023 – PL das Fake News (pauta travada): retirado de pauta por falta de votos.
  • 2023 – PL do Marco Temporal (veto derrubado): Congresso manteve regra que protegia terras indígenas contra a versão do Executivo.
  • 2023 – Reforma Tributária (derrota em plenário): Congresso manteve exceções e benefícios fiscais.
  • 2023 – CPI do MST (falta de controle): instalada pela oposição contra o Planalto.
  • 2023 – Eleição das comissões da Câmara (derrota política): governo perdeu o comando de comissões estratégicas.
  • 2023 – CPMI do 8 de Janeiro (derrota política): Planalto não conseguiu evitar a instalação.
  • 2024 – Anistia dos Partidos (derrota política): aprovada mesmo com resistência do governo.
  • 2024 – Proibição das saidinhas de presos (veto derrubado): Congresso restabeleceu o fim da saída temporária.
  • 2024 – Orçamento e costumes (veto derrubado): Congresso barrou verbas federais em pautas identitárias.
  • 2024 – Desoneração da folha (mista): veto foi derrubado e o governo aceitou transição após judicialização.
  • 2024 – Trabalho por aplicativo (pauta travada): regulação de motoristas de apps ficou sem consenso.

Segunda metade do mandato (2025-2026)

  • 2025 – PEC da Segurança Pública (pauta travada): engavetada por falta de apoio.
  • 2025 – Lei das Eólicas Offshore (veto derrubado): Congresso derrubou vetos e manteve “jabutis”.
  • 2025 – Execução de emendas (derrota política): governo ampliou concessões para garantir votações.
  • 2025 – CPI do INSS (derrota política): aliado do Planalto perdeu a presidência da comissão.
  • 2025 – Decreto do IOF (decreto sustado): Congresso anulou aumento do imposto.
  • 2025 – PL do Esporte (veto derrubado): mantidas regras trabalhistas para atletas.
  • 2025 – Pisos salariais (modo defensivo): gastos obrigatórios avançaram sobre o Orçamento.
  • 2025 – Reforma Administrativa (pauta travada): Câmara recusou tentativa de enterro do texto.
  • 2026 – Indicação de Messias ao STF (rejeição): Senado barrou o nome indicado pelo presidente.
  • 2026 – PL da Dosimetria (veto derrubado): mantidas as novas regras sobre penas de crimes contra o Estado.
  • 2026 – Taxação de Investimentos (caducidade): oposição travou a pauta que aumentava impostos.
  • 2026 – Doações em campanhas eleitorais (veto derrubado): Congresso liberou doações de bens, valores e benefícios.

Vetos derrubados marcam o desgaste com o Legislativo

Boa parte dos reveses veio da derrubada de vetos presidenciais. Ou seja, o Congresso passou por cima da caneta do presidente em decisões que o Planalto queria bloquear.

Ainda em 2023, o Congresso derrubou o veto ao marco temporal das terras indígenas. O placar foi de 321 deputados e 53 senadores pela rejeição. A tese restringe a demarcação às áreas ocupadas em 5 de outubro de 1988.

Em 2024, outra derrota veio com a derrubada do veto à proibição das saidinhas de presos. O Congresso ainda barrou trechos vetados em pautas de costumes e mexeu em regras orçamentárias.

Em 2025 e 2026, os vetos derrubados se somaram nas áreas de eólicas offshore, PL do Esporte, dosimetria de penas e doações em campanhas. Cada nova derrubada reforçou o sinal de que o Planalto perdeu tração no Legislativo.

Rejeição de Messias entra para a história

A maior derrota do mandato aconteceu em 29 de abril de 2026. Por 42 votos contrários a 34 favoráveis, o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias ao STF. O advogado-geral da União precisava de 41 votos e ficou sete abaixo.

Foi a primeira vez em 132 anos que o Senado barrou um nome do presidente para a Corte. As rejeições anteriores ocorreram em 1894, no governo do marechal Floriano Peixoto.

No dia seguinte, o Congresso ainda derrubou o veto ao PL da Dosimetria. O projeto reduz penas de condenados por crimes contra o Estado Democrático de Direito. A dupla derrota em menos de 24 horas foi lida como ponto de virada do mandato.

Fragilidade fiscal apareceu no caso do IOF

A área econômica também colecionou reveses. Em junho de 2025, o Congresso derrubou o decreto que aumentava o IOF. O placar foi de 383 votos a 98 na Câmara. No Senado, a votação foi simbólica.

O governo esperava arrecadar R$ 20,5 bilhões com a medida. Diante disso, o Planalto recorreu ao STF para tentar salvar parte da arrecadação. Ainda assim, precisou negociar taxação de bets e outras operações via medida provisória.

A execução das emendas parlamentares, por sua vez, também virou moeda de troca. Em 2025, o Executivo ampliou concessões ao Congresso para garantir votações. Mesmo assim, os resultados foram frustrantes.

Pautas travadas mostram os limites do Planalto

Nem toda derrota veio em votação. Algumas pautas simplesmente não avançaram. O PL das Fake News foi retirado de pauta em 2023 por falta de votos. A regulação do trabalho por aplicativo em 2024 seguiu o mesmo caminho.

Em 2025, a PEC da Segurança Pública foi engavetada. Já a Reforma Administrativa enfrenta resistência do próprio governo em ano eleitoral. O relator Pedro Paulo (PSD-RJ) chegou a criticar o Planalto por “se acovardar” diante de mudanças no serviço público.

Uma pesquisa Datafolha de maio de 2026 mostrou que 70% dos brasileiros veem mais confronto do que colaboração entre Lula e o Congresso. Entre esse grupo, 89% avaliam a relação como negativa para o Brasil.

Cenário aponta para 2026 com base frágil

A sequência de derrotas mostra uma articulação política que não montou base sólida em quase quatro anos. Ainda assim, Lula liberou recursos recordes em emendas, sem obter resultados proporcionais nas votações.

O contexto se torna mais delicado porque o país entra no ciclo eleitoral. Propostas polêmicas tendem a ficar de lado. Por outro lado, temas com forte apelo popular podem ganhar espaço nos próximos meses.

Para o Executivo, o desafio é chegar ao fim do mandato sem novos episódios como o de Messias. Para o Congresso, resta administrar uma imagem já desgastada. A mesma Datafolha mostrou que 37% dos entrevistados avaliam o desempenho do Legislativo como ruim ou péssimo.


Alan Martins é jornalista, designer gráfico e analista de comunicação do Ranking dos Políticos