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Gustavo Henrique de Barroso Franco é um dos nomes mais influentes da história econômica do Brasil. Ex-presidente do Banco Central, ele ajudou a criar o Plano Real e defende abertamente o liberalismo econômico. Além disso, Franco acumula uma trajetória relevante, de experiência no governo a atuação no setor privado.
O papel de Franco na estabilização da moeda brasileira mudou a vida de milhões de pessoas. Afinal, o país convivia com uma hiperinflação que derretia salários a cada hora. Ao mesmo tempo, sua gestão do câmbio deixou marcas que alimentam debates até hoje.
Gustavo Franco nasceu no Rio de Janeiro em 10 de abril de 1956. Formou-se em Economia pela PUC-Rio e fez mestrado na mesma instituição. Sua dissertação tratou de reforma monetária e instabilidade durante a transição republicana. O trabalho rendeu o Prêmio BNDES e virou referência entre historiadores econômicos.
O passo seguinte foi o doutorado na Universidade de Harvard. Lá, Franco mergulhou na história das hiperinflações europeias dos anos 1920. Estudou os casos da Alemanha, da Áustria, da Hungria e da Polônia. A tese recebeu o Prêmio Haralambos Simeonidis, da ANPEC, como melhor tese em Economia no Brasil.
Em entrevista à DW Brasil, Franco afirmou que o Plano Real foi uma variação do modelo do Rentenmark alemão. Nesse sentido, o estudo daquela experiência o preparou para enfrentar o caos inflacionário brasileiro anos depois. De volta ao Brasil em 1986, assumiu como professor no Departamento de Economia da PUC-Rio. Mantém o cargo desde então.
Em maio de 1993, Fernando Henrique Cardoso assumiu o Ministério da Fazenda no governo Itamar Franco. Com isso, montou a equipe que desenharia o Plano Real. Gustavo Franco entrou como Secretário Adjunto de Política Econômica e, meses depois, foi nomeado Diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central.
Trabalhava ao lado de Edmar Bacha, Pedro Malan, Pérsio Arida e André Lara Resende. Juntos, conceberam e executaram o plano de estabilização. O diferencial do Real em relação a tentativas anteriores foi não ser uma medida repentina, pois o Plano Cruzado, Bresser, Verão e Collor falharam, entre outros motivos, por falta de preparação.
Conforme reportagem do InfoMoney, a estratégia seguiu três etapas. Primeiro, um ajuste fiscal para equilibrar as contas públicas. Depois, a criação da URV (Unidade Real de Valor). Essa unidade funcionava como segunda moeda e dava referência de preços. Por fim, quando a população se familiarizou com a URV, a nova moeda entrou em circulação. Isso aconteceu em 1º de julho de 1994.
Franco se descreveu, em entrevista à revista IstoÉ, como relator e idealizador do padrão bimonetário que gerou a URV. Consequentemente, a inflação, que passava de 2.000% ao ano, caiu de forma abrupta nos meses seguintes.
Em agosto de 1997, Gustavo Franco assumiu a presidência do Banco Central. A gestão rendeu reconhecimento. Recebeu o prêmio de “Economista do Ano” da Ordem dos Economistas de São Paulo. Ganhou também o título de Central Banker of the Year pela revista Euromoney. A inflação caiu para cerca de 10% ao ano em 1997.
Porém, o contexto global conspiraria contra a estabilidade. As crises da Ásia (1997) e da Rússia (1998) provocaram fuga de capitais de países emergentes. Diante disso, o Banco Central operou simultaneamente nos mercados de câmbio, juros, derivativos e títulos de dívida.
Um dos maiores desafios da gestão de Franco no Banco Central foi a defesa do regime de câmbio administrado. Segundo análise da Mais Retorno, ele apostava na possibilidade de controlar a cotação do dólar mesmo diante da liberalização financeira global. No entanto, sustentar essa política exigia juros elevados. Além disso, consumia reservas internacionais do país em ritmo acelerado.
Em janeiro de 1999, o governador de Minas Gerais, Itamar Franco, anunciou que o estado deixaria de pagar títulos de dívida externa. O episódio gerou turbulência nos mercados e acelerou a pressão sobre o real. Conforme registros do Senado Federal, o governo federal já avaliava uma mudança na condução do câmbio diante do cenário internacional adverso.
O Brasil sofreu um ataque especulativo e, diante disso, a manutenção do regime cambial se tornou insustentável. Franco deixou a presidência do BC, e o dólar subiu com força nos dias seguintes. Seu substituto, Francisco Lopes, tentou uma transição gradual com a “banda diagonal endógena”. Mesmo assim, o mecanismo não segurou a pressão do mercado.
Armínio Fraga assumiu o cargo pouco depois. Dessa forma, adotou o câmbio flutuante, metas de inflação e superávits fiscais. Esse “tripé macroeconômico” pautou a política econômica brasileira na década seguinte. A mudança de regime foi um marco na história monetária do país. Ainda assim, o legado do Plano Real permanece como o grande feito da carreira dele.
Depois de deixar o governo, Franco fundou a Rio Bravo Investimentos no ano 2000. A gestora se tornou referência em fundos imobiliários e investimentos alternativos no Brasil. Em 2016, o controle foi adquirido pelo grupo chinês Fosun. Por sua vez, Franco passou a atuar como conselheiro da empresa.
Franco foi filiado ao PSDB durante 28 anos, entre 1989 e 2017. A migração para o Partido Novo veio com uma missão específica. Assumiu a presidência da Fundação Novo, braço do partido voltado à elaboração de propostas de governo e estudos de políticas públicas.
Na época da filiação, Franco afirmou que os horizontes se ampliaram para ideias pró-mercado. Disse também que o Novo oferecia espaço para abordagens com foco no indivíduo e na liberdade para empreender.
Franco também foi presidente do Conselho de Governança do Instituto Millenium. O Millenium é um think tank criado para difundir o liberalismo econômico no Brasil. Defende livre mercado, propriedade privada e limites à ação do Estado. A entidade já figurou entre os melhores think tanks brasileiros no ranking da Universidade da Pensilvânia.
Gustavo Franco também integra o Conselho de Leis do Ranking dos Políticos, iniciativa independente, criada em 2011, que tem como missão estimular a boa gestão pública, fortalecer a democracia e aproximar os cidadãos da atuação parlamentar.
Mesmo fora do governo há mais de duas décadas, Franco mantém presença ativa no debate público. É colunista do Estadão e do O Globo. Publica regularmente na Exame Insight também.
Em artigo de janeiro de 2026, Franco classificou os anos recentes como marcados por uma crise de credibilidade fiscal. Apontou que economistas ligados ao PT nunca demonstraram compromisso com equilíbrio de contas. Disse ainda que a PEC da Transição encaixotou o governo em um patamar de gasto inviável. Por isso, a fragmentação do ministério econômico em seis pastas teria enfraquecido a condução da política.
A crítica ao gasto público é uma constante na produção de Franco. Em entrevista ao Stock Pickers, ele comparou as finanças públicas a um adolescente rebelde que insiste em gastar mais do que pode. Para ele, a agenda de reformas dos anos 1990 ainda não foi plenamente executada.
Franco tem mais de 16 livros publicados, entre os mais conhecidos estão A Moeda e a Lei (2017), Cartas a um Jovem Economista (2022) e Lições Amargas (2021). Organizou também volumes sobre economia e literatura. Reuniu escritos econômicos de Machado de Assis, Fernando Pessoa, Goethe e Shakespeare. Além dos livros, acumula mais de cem artigos acadêmicos.
Gustavo Franco é protagonista e testemunha de uma das transformações mais profundas da economia brasileira. O Plano Real acabou com uma hiperinflação que corroía salários diariamente. A crise cambial de 1999 mostrou que a estabilização tinha custado caro e precisava de ajustes. Ambos os episódios passam pela figura dele.
Alan Martins é jornalista, designer gráfico e analista de comunicação do Ranking dos Políticos