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Política
19 de maio, 2026

Quanto o Brasil gasta com ex-presidentes

Quanto o Brasil gasta com ex-presidentes
Foto: Ex-presidentes da República | Ranking dos Políticos

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Todo ex-presidente da República carrega consigo, ao deixar o Planalto, uma estrutura permanente de servidores, veículos e assessores pagos pela União. Essa estrutura não tem data de validade. Além disso, continua funcionando mesmo quando o beneficiário é condenado pela Justiça, está cumprindo pena ou vive em outro país com salário em dólar. Entre 2021 e março de 2026, o custo acumulado ultrapassou R$ 42 milhões.

A lei que criou o benefício

A origem é a Lei nº 7.474/1986, aprovada ainda na transição entre o regime militar e a Nova República. O texto original garantia quatro servidores de segurança e dois veículos oficiais com motoristas. Em 1994, a Lei nº 8.889 ampliou o pacote com dois assessores comissionados. Já em 2008, o Decreto nº 6.381, assinado por Lula no primeiro mandato, reorganizou tudo nos moldes que funcionam até hoje. No total, são oito servidores, além de veículos, combustível, passagens e diárias.

A Constituição de 1988 acabou com a aposentadoria vitalícia para ex-presidentes. Mesmo assim, a estrutura de servidores e logística segue existindo por lei ordinária. O efeito é parecido, o ex-presidente não recebe salário, mas tem uma equipe inteira e despesas de deslocamento bancadas pelo contribuinte. Afinal, não existe limite de tempo para o benefício.

José Sarney, por exemplo, usa essa estrutura desde 1990, mais de 35 anos depois de deixar o cargo. Também não existe teto de gastos por ex-mandatário. A única referência é o limite geral da Lei de Responsabilidade Fiscal, genérico demais para funcionar como freio.

Quanto custa cada ex-presidente

De acordo com dados do Portal de Dados Abertos da Casa Civil, compilados pela Gazeta do Povo e pela Exame, o custo com ex-presidentes em 2025 foi de R$ 9,53 milhões. No acumulado desde 2021, o valor já passa de R$ 42 milhões.

Dilma Rousseff

Dilma lidera o ranking com R$ 7,9 milhões entre 2022 e março de 2026, segundo levantamento do R7 Planalto. Só em 2025, foram R$ 2,37 milhões. Ela mora na China desde 2023 e preside o Banco dos BRICS com salário estimado em US$ 50 mil por mês.

Contudo, continua com toda a estrutura brasileira ativa. Isso porque o benefício inclui passagens internacionais, ajuda de custo e auxílio-moradia para servidores lotados no exterior. Um caso que ilustra bem essa dinâmica, com dois seguranças que passaram 133 dias em Xangai entre março e agosto de 2023. Nesse período, acumularam 264 diárias que somaram R$ 350 mil.

Fernando Collor

Collor aparece logo atrás, com R$ 8,9 milhões acumulados desde 2021. Condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, ele cumpre prisão domiciliar desde maio de 2025 num apartamento com cobertura em Alagoas. Ainda assim, registrou mais de R$ 1,9 milhão em passagens e deslocamentos naquele ano, conforme apuração da Revista Sociedade Militar.

A maior fatia do gasto total dele, R$ 3,9 milhões, foi com passagens aéreas. A maioria era no trecho Maceió–São Paulo.

Temer, Sarney, FHC e Bolsonaro

Michel Temer acumula R$ 6,6 milhões desde 2021. Desse total, R$ 600 mil foram gastos em diárias internacionais. Sarney, por sua vez, soma R$ 5 milhões, a maior parte com equipe de apoio e passagens dentro do país.

Fernando Henrique Cardoso registrou o menor custo do grupo, com R$ 4,2 milhões quase integralmente destinados a servidores. Ele não utilizou verba de passagens aéreas.

Bolsonaro acumula R$ 5,1 milhões desde que deixou o cargo em janeiro de 2023. Os custos continuaram mesmo durante a prisão. Nos três primeiros meses de 2025, por exemplo, foram empenhados R$ 187,6 mil.

Benefícios na prisão

A condenação de Bolsonaro a 27 anos e 3 meses pelo STF levantou uma pergunta que a lei nunca respondeu com clareza. Afinal, faz sentido manter assessores e veículos para alguém sob custódia do Estado?

Em dezembro de 2025, a 8ª Vara Federal de Belo Horizonte entendeu que não. O juiz suspendeu os benefícios enquanto durasse o regime fechado. Nesse sentido, argumentou que a segurança de um preso já é responsabilidade do sistema prisional, não da Presidência da República. A ação foi movida pelo vereador Pedro Rousseff (PT-MG).

A decisão, porém, não resistiu ao recurso. Em março de 2026, a 4ª Turma do TRF-6 restabeleceu todos os benefícios por unanimidade.

A desembargadora Mônica Sifuentes entendeu que a lei não prevê suspensão das garantias por condenação ou prisão. Consequentemente, desmontar a equipe causaria um dano difícil de reverter. O mesmo raciocínio já tinha sido aplicado a Lula em 2018. Na ocasião, o TRF-3 manteve seus benefícios durante a prisão sob o argumento de que eram direitos, não privilégios.

Comparação com os Estados Unidos

Nos Estados Unidos, ex-presidentes recebem uma pensão vitalícia de cerca de US$ 413 mil por ano. Em reais, o valor equivale a algo em torno de R$ 2,3 milhões. Além disso, contam com proteção permanente do Serviço Secreto e verba para escritório e equipe. Barack Obama é o ex-presidente americano de maior custo, com US$ 536 mil anuais.

A diferença em relação ao Brasil não está tanto no valor. Na verdade, está na transparência. Os números americanos são padronizados, auditados e divulgados de forma acessível. No Brasil, os dados só vêm a público porque jornalistas fazem levantamentos periódicos no Portal de Dados Abertos. Não existe nenhum mecanismo automático de prestação de contas individualizada.

Projetos que nunca saem da gaveta

Propostas para reformar os benefícios de ex-presidentes existem no Congresso há anos. O PLS 248/2018, do senador Lasier Martins, propunha reduzir a equipe para dois servidores, limitar o benefício a um veículo e fixar prazo máximo de 20 anos. No entanto, nunca chegou a ser votado.

Na Câmara, o deputado Ubiratan Sanderson apresentou projeto para revogar todos os cargos ligados a ex-presidentes, com economia estimada de R$ 4,3 milhões por ano. Da mesma forma, a proposta não avançou.

A explicação é quase óbvia porque enhum presidente em exercício tem incentivo para eliminar um benefício que ele mesmo vai usar ao deixar o cargo. No Congresso, projetos que afetam ex-ocupantes do Planalto não encontram tração suficiente porque incomodam gente dos dois lados. Diante disso, até a PEC 38/2025 da reforma administrativa, que se propõe a combater privilégios no funcionalismo, não abordou os gastos com ex-presidentes.

Um gasto que sobrevive a todos os cortes

R$ 9,5 milhões por ano não altera o equilíbrio fiscal do país. Mesmo assim, é um gasto que sobrevive a todas as rodadas de ajuste justamente porque ninguém no poder tem interesse em enfrentá-lo.

O Brasil discute teto de gastos, reforma administrativa e contenção de despesas obrigatórias. Com isso, os benefícios de ex-presidentes seguem fora de qualquer proposta concreta no Legislativo.

Não há prazo definido, não há teto individual e não há mecanismo de transparência ativa. Se a ideia é levar eficiência a sério, esse é um bom lugar para começar.


Alan Martins é jornalista, designer gráfico e analista de comunicação do Ranking dos Políticos