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Este texto integra O Brasil Pode Dar Certo, livro de propostas de reforma institucional organizado pelo Ranking dos Políticos com apoio da Atlas Network.
O Brasil chega à terceira década do século XXI diante de uma encruzilhada histórica. O mundo emergiu após o fim da Guerra Fria com globalização linear. Afinal, também vimos a expansão das cadeias de valor pelo planeta. Havia ainda certo consenso quanto ao livre comércio global.
Contudo, esse cenário antigo foi substituído por um ambiente diferente. Vivemos uma fragmentação e forte competição estratégica no mundo. Ocorre a redefinição constante das prioridades nacionais. Nesse novo contexto, a inserção internacional do Brasil mudou. Ela não foca apenas no acesso aos mercados.
Além disso, não foca em atrair investimentos como nos anos 1990. Por isso, trata-se agora de um posicionamento estratégico profundo. É preciso agir em um sistema global em mutação.
A globalização não acabou no mundo atual. Na verdade, ela está sendo fortemente reescrita pelas nações. Esse processo tem menos a ver com a desintegração. Ele foca muito mais na reconfiguração global da economia.
Países e empresas organizam suas decisões de forma diferente. Usam critérios que transcendem a clássica eficiência econômica. Por exemplo, segurança nacional e resiliência de cadeias produtivas. A soberania tecnológica e os alinhamentos geopolíticos tornaram-se elementos centrais.
Diante disso, proponho a ideia inovadora do “ESG 2.0”. Trata-se de uma releitura moderna e necessária hoje. Nela, Economia, Segurança e Geopolítica estruturam as decisões estratégicas.
Para o país, essa mudança abre riscos e oportunidades. Entre os riscos, destaca-se a possibilidade de marginalização externa. Isso ocorre em um mundo que privilegia alianças estratégicas mais seletivas. Por sua vez, há a chance de reposicionar nosso país. Podemos ser um ator indispensável em setores-chave globais. Destacam-se energia, alimentos, minerais críticos e a sustentabilidade ambiental.
Nesse sentido, a nossa projeção externa deve ser pensada em dois níveis. Eles são a microgeopolítica e também a macrogeopolítica.
No plano microgeopolítico, focamos intensamente nos próximos cinco anos. O país precisa responder com agilidade a diversos choques externos. Mudanças regulatórias e rearranjos comerciais exigem atenção rápida. Ao mesmo tempo, o plano macrogeopolítico abrange duas ou três décadas. Nele, é fundamental identificar grandes tendências estruturais globais. Elas moldarão de forma irreversível o sistema internacional futuro.
Uma dessas tendências é a transformação demográfica no globo. O crescimento populacional asiático e africano trará enormes impactos. Isso implicará um aumento substancial da demanda por alimentos. Energia e infraestrutura também serão muito requisitadas pelo mundo.
O Brasil está bem posicionado para atender essa demanda. Isso porque possui uma base agrícola altamente produtiva. Tem potencial energético diversificado reconhecido no cenário mundial. No entanto, para transformar potencial em protagonismo, será necessário investimento. Precisamos investir em logística, tecnologia e essencial inserção comercial.
Outro vetor estrutural importante é a diversificação energética mundial. Dessa forma, a transição não será linear nem homogênea. O mundo caminha para uma matriz energética muito diversificada. Nela, fontes renováveis coexistirão com os antigos combustíveis fósseis.
Isso ocorrerá por um período bastante prolongado no planeta. O Brasil possui vantagens comparativas notáveis nesse grande cenário. Com isso, temos uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo. Temos capacidade para produzir biocombustíveis e energia solar. A energia eólica também apresenta grande potencial nacionalmente. A chave será transformar essas vantagens em ativos geopolíticos.
A inteligência artificial e a digitalização redefinem a competitividade global. A contínua disputa por padrões tecnológicos muda as bases atuais.
O Brasil corre imenso risco nesse novo cenário tecnológico. Pode se tornar apenas consumidor de tecnologias desenvolvidas no exterior. Consequentemente, deve implementar uma estratégia muito consistente de inovação. Isso implica amplo investimento em pesquisa e em desenvolvimento. Requer integração total com os dinâmicos ecossistemas globais de tecnologia.
No comércio internacional, devemos superar nossa introversão histórica. A economia brasileira ainda apresenta baixos níveis de abertura. Isso é visível quando a comparamos a padrões internacionais. Da mesma forma, acordos comerciais não reduzem apenas tarifas.
Eles são verdadeiras plataformas de inserção em cadeias de valor. Promovem forte harmonização regulatória e essencial cooperação estratégica. Nesse sentido, destaco a rápida implementação de acordos globais. O acordo entre Mercosul e União Europeia tem grande significado.
Ele representa um movimento para a complexa interdependência gerida. Essa interdependência reflete claramente uma nova lógica mundial. Países buscam diversificar seus parceiros na economia global. Porém, fazem tudo isso sem abrir mão da autonomia estratégica.
Para o nosso país, significa aprofundar relações com múltiplos polos. Exemplos fortes são Estados Unidos, Europa, China e emergentes. Atuamos ativamente sem nos alinhar de forma muito exclusiva. Trata-se de uma diplomacia de pragmatismo bastante sofisticado. Ela exige total clareza de interesses e grande consistência.
A estratégia de atuação externa deve abandonar dicotomias simplistas. Devemos adotar sempre uma abordagem baseada em interesses concretos. O debate sobre Ocidente versus Sul Global confunde muito. Ele costuma obscurecer mais do que esclarecer o cenário.
O Brasil não precisa escolher entre identidades geopolíticas fixas. Ainda assim, precisa construir uma estratégia de forma inteligente. Ela deve maximizar nossas inúmeras vantagens em um mundo multipolar.
Outro elemento essencial é a qualidade do ambiente doméstico. A competitividade externa começa sempre dentro de nossa casa. Reformas estruturais, segurança jurídica e estabilidade macroeconômica são vitais. A eficiência regulatória também atrai muitos investimentos externos. Sem esses importantes fundamentos, qualquer estratégia internacional estará comprometida.
O país deve investir na construção de uma imagem internacional. Ela deve ser muito coerente com seus ativos estratégicos. Num mundo de influência, não basta ter vantagens comparativas. Mesmo assim, é necessário projetá-las de forma clara e confiável.
O país precisa ser um grande fornecedor seguro de alimentos. Deve ser parceiro relevante na transição energética global. Deve ser um grande ator comprometido com as soluções globais. Essa projeção internacional deve ser sustentada por políticas concretas. Previsibilidade institucional e altíssima capacidade de execução são igualmente exigidas.
A dimensão empresarial também se mostra verdadeiramente crucial hoje. Empresas nacionais precisam se internacionalizar de maneira mais agressiva. Isso vai muito além de atuar apenas como sólidas exportadoras. Elas devem atuar como investidoras e inovadoras bem ativas.
A presença de multinacionais brasileiras em mercados estratégicos contribui. Elas ajudam a ampliar a nossa projeção nacional fortemente. Isso porque fortalecem nossa posição geral nas complexas negociações internacionais.
O país deve agir de forma essencialmente proativa. Não podemos nos limitar a reagir às grandes potências. Precisamos desenvolver uma forte visão própria de longo prazo.
Isso implica fortalecer nossas instituições estatais com bastante rigor. Devemos investir em inteligência estratégica e cultivar uma cultura de planejamento. O Brasil possui atributos que pouquíssimos países reúnem simultaneamente.
Temos uma vasta escala territorial e abundância de recursos naturais. Possuímos base industrial relevante e grande capacidade agrícola mundial. Contudo, esses poderosos atributos por si só não garantem protagonismo. A capacidade de articular esses ativos determinará o nosso papel. Precisamos de uma estratégia adaptada às novas realidades globais.
O futuro do Brasil lá fora não está predeterminado. Ele será resultado exclusivo de escolhas muito bem pensadas. Num mundo de incerteza, a clareza será um diferencial. A grande consistência de ação também será vital nesse processo. Cabe a nós decidir se seremos apenas espectadores passivos. Podemos, em vez disso, ser protagonistas das transformações atuais.
Nesse amplo contexto, entre 2027 e 2031, devemos perseguir cinco prioridades. A primeira é consolidar uma diplomacia de interdependência gerida. Devemos aprofundar nossa presença nos grandes polos econômicos e tecnológicos.
Preservaremos autonomia estratégica e evitaremos todos os perigosos alinhamentos automáticos. Isso implica avançar firmemente em diversos acordos comerciais vantajosos. Eles ampliarão grandes mercados e reduzirão vulnerabilidades por meio de parcerias.
A segunda é transformar vantagens comparativas em sólidos ativos geopolíticos. Energia limpa, segurança alimentar e modernos minerais críticos são essenciais. A sustentabilidade precisa ser muito mais que um tema econômico. Eles são ótimos instrumentos de influência internacional e atração de investimentos.
A terceira prioridade foca as dinâmicas cadeias globais de valor. O país precisará ampliar presença ativa em importantes setores de inovação. A inteligência artificial e a rica economia digital são cruciais. A manufatura avançada também requer muita atenção estatal urgente.
Sem essas medidas, corremos o risco de ocupar posições periféricas. O moderno sistema internacional é cada vez mais orientado por tecnologia. A quarta é reforçar nossa competitividade doméstica ativamente. Ela será o fundamento principal da nossa projeção internacional.