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Este texto integra O Brasil Pode Dar Certo, livro de propostas de reforma institucional organizado pelo Ranking dos Políticos com apoio da Atlas Network.
O agronegócio brasileiro consolidou-se como um dos principais pilares da economia nacional. Além disso, o país figura entre os maiores fornecedores de alimentos do mundo. No entanto, o cenário internacional segue marcado por guerras, disputas comerciais e crescente fragmentação geopolítica. Nesse ambiente, fertilizantes e segurança alimentar ocupam posição estratégica para exportadores de commodities como o Brasil.
Diante disso, é preciso repensar o debate sobre abertura de mercados. A diversificação comercial e a redução da dependência externa de insumos agrícolas também entram nessa discussão. Isso não é apenas uma pauta setorial. Por isso, deve ser vista como parte de uma estratégia nacional de competitividade, segurança econômica e resiliência produtiva.
Sobre a abertura de mercado, o Brasil precisa focar em acordos comerciais que agreguem valor ao setor. A União Europeia, por exemplo, é o segundo maior destino das exportações do agro brasileiro, atrás apenas da China. A assinatura do Acordo Mercosul–União Europeia abre a possibilidade de diversificação. O mercado combinado chega a 722 milhões de consumidores, com PIB somado de aproximadamente US$ 22 trilhões.
O tratado pode gerar ganhos reais em competitividade. Para isso, o Brasil precisa eliminar barreiras próprias no acesso aos mercados. Alguns exemplos ilustram o potencial:
Um dos grandes obstáculos é o endurecimento das cláusulas de sustentabilidade. O Parlamento Europeu aprovou recentemente regras que permitem suspender o acordo. Isso ocorre caso sejam detectadas falhas no cumprimento do Acordo de Paris ou desmatamento.
Para o produtor brasileiro, isso significa maior custo de conformidade. Além disso, aumenta o risco de barreiras “disfarçadas” de proteção ambiental. Esse cenário pode ser mitigado com documentação clara e objetiva para comprovação. É o caso do Cadastro Ambiental Rural (CAR).
Em caso de não desenvolvimento do mercado europeu, o foco do Brasil deve se voltar imediatamente para o Sudeste Asiático. Além disso, cabe ampliar laços com o BRICS+. Esses mercados crescem a taxas superiores às da zona do euro. Ainda assim, possuem barreiras regulatórias menos ideológicas, mas existem riscos estratégicos:
O setor exportador também precisa de instrumentos internos de proteção. Nesse sentido, algumas propostas ganham urgência.
A primeira frente é a criação de incentivos regulatórios à diversificação de destinos de exportação para commodities estratégicas. Não se pretende impor mercados nem intervir nos fluxos privados. A ideia é sinalizar, via crédito diferenciado ou benefícios de equalização de juros, que tradings e cooperativas com carteiras diversificadas de compradores recebem condições melhores.
O risco de concentração, quando é sistêmico, justifica indução regulatória. Isso ocorre em outros setores com risco de contraparte excessivo. Por isso, o mesmo raciocínio pode ser aplicado ao agronegócio exportador.
A segunda frente é a incorporação de linhas de contingência geopolítica dentro da arquitetura do Plano Safra. Seriam linhas ativadas quando um destino que responde por parcela relevante das exportações de uma commodity se fecha por razões externas. Com isso, permitiria renegociação de prazos e carências sem penalidades contratuais.
A proposta de indexação do crédito ao dólar, que o setor já debate para o próximo ciclo, caminha nessa direção. Afinal, reconhece que o exportador brasileiro opera em uma realidade cambial que o crédito em real não reflete adequadamente.
A terceira frente é o fortalecimento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) como instrumento de gestão de risco de mercado, e não apenas climático. O seguro rural ainda é tímido para um país do porte e da exposição comercial do Brasil.
Ampliar sua cobertura para incluir quebra de receita por interrupção de fluxo comercial decorrente de eventos geopolíticos é tecnicamente viável. Além disso, encontra precedentes em economias agroexportadoras como Austrália e Canadá.
O Brasil exportou, em 2025, US$ 2,9 bilhões apenas para o Irã em produtos agrícolas. O dado é do levantamento do MDIC. Esse volume transitou sem nenhuma rede de proteção estruturada do lado da diversificação de mercados.
Em um cenário global que segue se fragmentando, novos episódios como este virão. Ainda assim, tratar essa exposição como normal é uma aposta que o produtor brasileiro carrega, mas não fez. Por isso, a gestão de riscos de destino de exportação faz parte da política agrícola. Ela deve ser vista como estratégia comercial.
No contexto brasileiro, aproximadamente 85% dos fertilizantes são importados. Nesse sentido, qualquer instabilidade na oferta global representa um risco significativo para a segurança alimentar e a competitividade do setor.
O Irã, 3º maior exportador mundial de ureia com 4,8 milhões de toneladas anuais, é responsável por 17% a 20% da demanda brasileira desse fertilizante. Com as tensões geopolíticas se intensificando, e a entrada oficial dos Estados Unidos no conflito nos últimos dias, o mercado global de fertilizantes experimenta volatilidade. Consequentemente, os custos de produção agrícola no Brasil sentem o impacto direto.
O país ocupa a posição de 4º maior consumidor mundial de fertilizantes, atrás apenas de China, Índia e Estados Unidos. Ainda assim, detém o título de maior importador global desses insumos. Essa aparente contradição revela uma vulnerabilidade estrutural. Enquanto outros grandes consumidores conseguem atender parte significativa de sua demanda com produção interna, o Brasil depende massivamente do mercado externo.
Em 2024, as importações de fertilizantes intermediários atingiram um recorde de 41,35 milhões de toneladas. Isso representou um aumento de 4,8% em relação ao ano anterior. A dependência varia de acordo com o tipo: 96% para potássicos, 80% para nitrogenados e 60% para fosfatados.
No caso específico da ureia, que representa 35% do volume total de fertilizantes nitrogenados importados, a dependência externa é ainda mais preocupante. Isso porque a ureia sustenta culturas centrais como o milho. Por isso, qualquer choque na oferta global tem efeito imediato no campo brasileiro.
Os principais fornecedores de fertilizantes para o Brasil incluem Estados Unidos (29%), China (21%) e Rússia (8%). Diante disso, a concentração geográfica agrava o risco em momentos de tensão internacional.
O Estreito de Ormuz, passagem marítima estratégica entre Omã e Irã, emerge como ponto crítico neste cenário. Por essa via trafegam aproximadamente 20% de todo o petróleo mundial. Além disso, passa uma parcela significativa dos fertilizantes nitrogenados utilizados globalmente, o que representa um risco sistêmico para as cadeias de suprimento.
A escassez de oferta é agravada pela ausência de fornecimento da China, maior produtor global. Ao mesmo tempo, a demanda crescente de países como Índia torna o cenário ainda mais incerto. Com isso, aumenta a fragilidade do setor produtivo brasileiro.
O aumento dos custos de fertilizantes impacta diretamente o poder de compra dos produtores rurais. Segundo análise da Mosaic Fertilizantes, o índice que mede a capacidade dos agricultores de adquirirem insumos atingiu o nível mais baixo dos últimos 30 meses.
Em março de 2025, produtores precisavam vender 28 sacas de soja para comprar uma tonelada de fertilizante MAP. Em junho, essa relação subiu para 31 sacas. Ou seja, o produtor perde poder de compra a cada rodada de negociação.
Para a cultura do milho, principal beneficiária da ureia, os impactos são particularmente severos. A produção brasileira de milho, que depende desse fertilizante para garantir qualidade e rendimento, deve enfrentar custos mais elevados. Consequentemente, as margens dos produtores, já sob pressão desde a safra 2022/2023, ficam ainda mais comprimidas.
O aumento dos custos de fertilizantes coincide com um cenário desafiador para o agronegócio brasileiro. Projeções da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) para a safra 2025/26 indicam que a margem bruta do produtor de soja pode cair mais de 35% em algumas regiões. O Custo Operacional Efetivo (COE) pode superar R$ 5.670 por hectare em Rio Verde (GO) e R$ 5.550 em Sorriso (MT).
Para o milho safrinha 2025/26, embora a margem bruta possa permanecer positiva, será inferior à obtida em 2024/25. Nesse período, o COE registra alta de 7% devido à valorização dos insumos. Essa pressão sobre os custos ocorre no momento em que os preços das commodities agrícolas enfrentam tendência de baixa no mercado internacional.
A proximidade da safra 2025/26, que inicia em julho, intensifica as preocupações do setor. Isso porque os fertilizantes para esse período ainda não foram adquiridos. Consequentemente, sofrerão todo o impacto da alta de preços e da restrição de fornecedores importantes.
O Plano Safra 2025/2026, com lançamento previsto para o dia 30 de junho, pode atingir R$ 599 bilhões. Isso representa um aumento de 25,7% em relação à safra atual. No entanto, o governo federal confirmou um bloqueio temporário de R$ 445 milhões no Seguro Rural para cumprir metas fiscais. Isso sinaliza as pressões orçamentárias que podem limitar o suporte aos produtores.
A situação evidencia a necessidade urgente de ampliar a produção nacional de fertilizantes. Nesse sentido, o Brasil possui reservas significativas de fosfato e potássio. Ainda assim, fatores como a oposição de ONGs ambientalistas e questões regulatórias têm impedido a exploração adequada dessas reservas.
O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), aprovado em 2023, estabelece metas ambiciosas para reduzir a dependência externa. O objetivo é aumentar a produção nacional em 50% até 2050. Com isso, o país passaria a atender entre 45% e 50% da demanda interna. O plano prevê investimentos capazes de gerar 50 mil postos de trabalho diretos e 500 mil indiretos.
As principais ações incluem reativação de fábricas estratégicas, especialmente de nitrogenados e fosfatados. Além disso, há incentivos a novas plantas industriais e investimentos em nutrição sustentável. A Petrobras anunciou a retomada das fábricas de nitrogenados de Araucária (PR) e Três Lagoas (MS). Também confirmou o aumento de encomendas para unidades da Unigel.
O Brasil conta com seis projetos para reduzir a dependência externa de fertilizantes. Destaca-se o projeto da Potássio do Brasil em Autazes (AM), com capacidade para suprir 20% a 25% do consumo nacional de fertilizantes potássicos. Para os fosfóricos, o projeto da Galvani em Santa Quitéria (CE) representa iniciativa significativa, envolvendo consórcio entre empresa privada e Indústrias Nucleares do Brasil.
A crise de abastecimento de ureia transcende questões econômicas e configura ameaça à segurança alimentar nacional. Isso porque o Brasil responde por 8% do consumo global de fertilizantes. Além disso, é o segundo maior exportador mundial de grãos. Consequentemente, qualquer redução na produtividade agrícola pode afetar o mercado doméstico e o abastecimento global de alimentos.
A dependência de fertilizantes importados torna o país vulnerável a choques externos, como demonstrado pela atual crise geopolítica. Essa vulnerabilidade é particularmente preocupante quando se observa o consumo interno. Culturas como soja, milho e cana-de-açúcar respondem por mais de 73% do consumo de fertilizantes no país.
A elevação dos custos de produção também pode comprometer a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional. Com margens já pressionadas e custos crescentes, produtores podem ser forçados a reduzir áreas plantadas ou investimentos em tecnologia. Dessa forma, a produtividade e a qualidade dos produtos sofrem impacto direto.
A situação é agravada pela expectativa de crescimento de 20% na demanda por fertilizantes até 2030. Isso indica que a pressão sobre o setor tende a intensificar-se nos próximos anos. Ainda assim, esse quadro só se reverte caso sejam adotadas medidas efetivas para aumentar a produção nacional.
A crise atual evidencia a urgência de implementar políticas coordenadas para reduzir a vulnerabilidade do agronegócio brasileiro. Por isso, é preciso acelerar a execução do Plano Nacional de Fertilizantes. Isso passa por remover obstáculos regulatórios e burocráticos que impedem o desenvolvimento da produção nacional.
Entre as ações recomendadas, destacam-se:
Paradoxalmente, a crise pode representar oportunidade de transformação estrutural do setor. Nesse sentido, o desenvolvimento da indústria nacional de fertilizantes pode gerar empregos. Além disso, reduz a dependência externa e fortalece a segurança alimentar do país.
Investimentos em pesquisa e desenvolvimento podem posicionar o Brasil como referência global em tecnologias de nutrição vegetal sustentável. Da mesma forma, a cooperação público-privada surge como elemento central para superar os desafios. O envolvimento de estatais como Petrobras, combinado com investimentos privados e apoio governamental, pode acelerar a transição para maior autossuficiência.
Embora os impactos imediatos da crise sejam preocupantes, a implementação efetiva das estratégias propostas pode transformar o Brasil em líder global. Isso vale especialmente para a produção sustentável de fertilizantes. Afinal, o país possui recursos naturais, tecnologia e expertise necessários para essa transformação.
O sucesso dessa empreitada dependerá da coordenação entre setor público e privado. Da mesma forma, exige apoio da sociedade civil e manutenção de políticas consistentes ao longo do tempo. A crise atual, embora desafiadora, pode catalisar mudanças estruturais para garantir a sustentabilidade e a competitividade do agronegócio brasileiro nas próximas décadas.
O agronegócio brasileiro encontra-se em uma encruzilhada. De um lado, o caminho de se impactar com as pressões externas. De outro, a chance de se transformar em um setor mais resiliente e autossuficiente. A escolha feita hoje determinará o futuro da segurança alimentar nacional e a posição do país no cenário agrícola global.