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por William A. Clavijo Vitto
O Irã decidiu impedir o trânsito de navios pelo Estreito de Ormuz. Essa ação foi uma retaliação direta ao conflito com Estados Unidos e Israel. Assim, uma preocupação histórica de analistas geopolíticos se tornou realidade.
Afinal, o que durante décadas era tratado como cenário hipotético agora se concretizou. As vulnerabilidades dos sistemas energéticos nacionais ficaram expostas de forma inédita.
O conflito revelou duas dimensões centrais dessa fragilidade. Em primeiro lugar, a produção petrolífera da região está exposta a hostilidades bélicas. Em segundo lugar, os países consumidores dependem demais de fluxos concentrados em uma zona instável.
Além disso, ficou evidente a vulnerabilidade dos corredores logísticos críticos. Portanto, o Estreito de Ormuz se consolidou como protagonista de uma crise global. Os efeitos já são sentidos em todos os continentes.
Em 28 de fevereiro de 2026, os fluxos de transporte pelo Estreito de Ormuz foram paralisados. Isso aconteceu com o início das hostilidades entre EUA e Israel contra o Irã.
Segundo dados da U.S. Energy Information Administration (EIA), a rota movimentava cerca de 20,9 milhões de barris por dia. Ou seja, quase um quinto de toda a oferta global de petróleo e gás.
Na prática, essa interrupção impediu o transporte de 19% a 20% da oferta global. Isso inclui petróleo e gás natural liquefeito (GNL). O GNL é o gás resfriado e convertido em líquido para transporte em larga escala.
Como consequência direta, surgiu um déficit de cerca de 11 milhões de barris por dia. Além disso, aproximadamente 286 bilhões de metros cúbicos de GNL tiveram o fluxo interrompido.
Para dimensionar esse impacto, o volume é comparável ao gás que a Rússia deixou de fornecer à Europa. Isso ocorreu no início da invasão russa da Ucrânia. Portanto, trata-se de uma interrupção de proporções históricas.
Contudo, os impactos não se limitaram ao setor energético. O bloqueio também afetou insumos estratégicos. Entre eles estão fertilizantes nitrogenados, hélio e enxofre.
Segundo dados da Kpler, citados pela CNN Brasil, cerca de 33% dos fertilizantes do mundo passam pelo Estreito. Consequentemente, cadeias como agricultura e indústria química foram atingidas.
Com o agravamento do conflito, a tendência de queda nos preços do petróleo observada ao longo de 2025 foi abruptamente revertida. O cenário passou a ser de alta acentuada e volatilidade nos mercados de energia.
O preço do Brent, que girava em torno de 69 dólares por barril em janeiro, ultrapassou a marca dos 100 dólares. Conforme dados compilados pela Bloomberg e reportados pelo Correio Braziliense, o barril do Brent chegou a registrar alta diária de 4,37%. Em outro momento, segundo o Diário do Grande ABC, o barril abriu acima dos US$ 104.
Os impactos rapidamente se disseminaram em escala global, mas os países asiáticos foram os mais atingidos. Afinal, a região concentra cerca de 80% das exportações de petróleo e 90% das exportações de gás natural do Oriente Médio.
De acordo com a EIA, conforme reportado pela Gazeta do Povo, 82% dos carregamentos de petróleo que passam por Ormuz têm como destino final China, Índia, Japão e Coreia do Sul. Esses países enfrentaram pressões sobre o abastecimento, aumento de custos e a necessidade de adotar medidas emergenciais, como controle de preços, subsídios ao consumo e racionamento.
No entanto, os efeitos também já se fazem sentir na Europa e em partes da África. A tendência é de agravamento no curto prazo, à medida que instrumentos temporários de mitigação comecem a se esgotar.
Diante desse cenário, diferentes medidas foram adotadas para conter a volatilidade e reduzir o gap de oferta. Mesmo assim, os desafios permanecem significativos.
O governo dos Estados Unidos enfatizou o caráter temporário de suas ações militares. Ao mesmo tempo, flexibilizou de forma pontual sanções ao petróleo russo e iraniano para atender grandes mercados consumidores. Conforme reportou a Invezz, a Índia voltou a receber remessas de petróleo iraniano pela primeira vez em sete anos.
Países do Golfo, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, redirecionaram parte de suas exportações por rotas alternativas. A Arábia Saudita opera o oleoduto Leste-Oeste, que liga instalações do Golfo Pérsico ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho, com capacidade de até 5 milhões de barris por dia. Os Emirados Árabes Unidos contam com o oleoduto Habshan-Fujairah, com capacidade para 1,8 milhão de barris por dia.
Paralelamente, países da OCDE acordaram a liberação coordenada de reservas estratégicas de petróleo. Em conjunto, as estimativas mais otimistas indicam que essas iniciativas reduziram parcialmente o déficit de oferta para cerca de 8 milhões de barris por dia. Esse valor, porém, ainda é superior ao consumo de toda a América Latina e o Caribe durante 2024.
Apesar dessas ações, existe uma percepção de que o mercado ainda não internalizou plenamente a gravidade da situação. Mesmo com a continuidade do cessar-fogo anunciado em 07 de abril, a retomada das operações de produção pode demorar muito mais do que o esperado.
Segundo a EIA, conforme reportado pela CNN Brasil, o tráfego pelo Estreito de Ormuz só será retomado gradualmente e não retornará a níveis próximos aos pré-conflito até o final de 2026.
Consequentemente, caso haja prolongação e escalamento do conflito com efeitos maiores sobre a infraestrutura crítica de energia da região, o cenário pode evoluir para uma crise energética com impacto econômico muito mais grave do que experiências anteriores. Nem o embargo petroleiro de 1973 nem o início da invasão russa à Ucrânia provocaram uma interrupção dessa magnitude.
Nesse caso, os preços de referência do petróleo, GNL e derivados podem atingir patamares capazes de provocar destruição de demanda e pressionar a economia global em direção a um quadro recessivo generalizado.
Os acontecimentos no Oriente Médio obrigam os países importadores de petróleo, gás e derivados a se prepararem para navegar em um cenário de incerteza prolongada. Por isso, torna-se essencial adotar medidas tanto de curto quanto de longo prazo.
No curto prazo, é fundamental criar mecanismos que reduzam a exposição ao choque de oferta. Isso vale especialmente para a proteção das populações de menor renda, que tendem a ser desproporcionalmente afetadas por aumentos nos preços da energia.
No caso do Brasil, por exemplo, especialistas apontam que a dependência de diesel e fertilizantes importados representa um ponto de vulnerabilidade significativo. Conforme destacou David Zylbersztajn, ex-diretor geral da ANP e professor do Instituto de Energia da PUC-Rio, além do setor de energia, segmentos como transporte e agricultura também são impactados pelo fechamento de Ormuz.
No médio e longo prazo, torna-se essencial avançar na diversificação das fontes de abastecimento de petróleo e gás natural. Priorizar parcerias com regiões mais estáveis pode reduzir a exposição a choques, ainda que isso implique custos mais elevados no curto prazo.
Da mesma forma, os países mais expostos devem intensificar esforços para diversificar suas matrizes energéticas, ampliar a eficiência e promover fontes de menor intensidade de carbono.
Porém, essas estratégias precisam ser conduzidas de forma gradual. Isso porque a centralidade persistente do petróleo e do gás natural no abastecimento global torna sua substituição um desafio complexo. Setores como transporte pesado, aviação, navegação marítima e indústria petroquímica permanecem altamente dependentes desses recursos. Na verdade, a disponibilidade de alternativas tecnológicas competitivas em escala ainda é limitada.
Embora a eletrificação avance como uma das principais estratégias de descarbonização, sua aplicação ainda é restrita justamente nas áreas de mais difícil transição. Com isso, reforça-se a necessidade de abordagens que combinem segurança energética e sustentabilidade, sem ignorar que a transição não será rápida.
Mais do que uma disrupção conjuntural, o bloqueio do Estreito de Ormuz expõe limites estruturais de um sistema energético ancorado na concentração geográfica de recursos e na dependência de uma única rota marítima. A crise atual confirma que a posição geográfica continua sendo uma ferramenta de poder, capaz de desestabilizar mercados e economias inteiras.
Diante disso, a segurança energética volta a ocupar o centro das decisões de governos e empresas em todo o mundo. O cenário exige uma abordagem mais equilibrada entre custo, resiliência e gestão de riscos, sobretudo em um contexto global cada vez mais imprevisível.
Na prática, a experiência atual pode servir como catalisador para que a transição energética ganhe velocidade. O desafio, porém, está em equilibrar urgência com realismo. Garantir que o abastecimento global não dependa de um corredor marítimo de 33 quilômetros de largura é, mais do que uma meta, uma necessidade estratégica.
Análise de William A. Clavijo Vitto, cientista político venezuelano, mestre e doutor em Políticas Públicas pela UFRJ e presidente da Associação Venezuela Global.