Política
23 de setembro, 2026

Qual o efeito eleitoral da proibição das bets?

Qual o efeito eleitoral da proibição das bets?
Foto: Possíveis efeitos eleitorais da proibição das apostas esportivas | Ranking dos Políticos

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A nova pesquisa Atlas/Bloomberg parece encerrar a discussão sobre as apostas online antes mesmo que ela comece. Nada menos que 75% dos brasileiros concordam que as bets deveriam ser proibidas. Apenas 17% discordam. Entre mulheres, o apoio ao banimento chega a 82%; entre evangélicos, a 70%; entre independentes, a 77%.

É fácil olhar para esses números e concluir que, para o governo, enfrentar as bets é uma aposta política sem risco. Mas a própria pesquisa oferece razões para desconfiar dessa conclusão.

O primeiro dado importante não é o apoio à proibição

É que a rejeição às bets é ainda maior. Quando perguntados se as apostas online trazem benefícios ou prejuízos à sociedade, 59,9% respondem “somente prejuízos”. E outros 28,6%, “mais prejuízos”.

São 88,5% enxergando saldo negativo. Há, contudo, 13,5 pontos percentuais entre considerar as bets prejudiciais e defender sua proibição. Quem discorda que o álcool não é prejudicial? Mas quem está disposto a proibí-lo?

No fim, não se pode afirmar, sem um cruzamento individual das respostas, que esses 13,5 pontos sejam exatamente pessoas que rejeitam as apostas e, ao mesmo tempo, rejeitam o banimento. Mas os números mostram que as duas opiniões não são sinônimas.

A mesma nuance aparece quando a Atlas testa outras formas de intervenção. Oitenta e quatro por cento concordam que as empresas de apostas deveriam pagar mais impostos. Setenta e nove por cento defendem limitar sua publicidade. E 75% apoiam a proibição.

Isso não permite concluir que os brasileiros prefiram regulação à proibição, porque as alternativas não foram apresentadas umas contra as outras. Permite, porém, uma conclusão mais modesta e importante. A opinião pública não enxerga o tema apenas como uma escolha binária entre deixar tudo como está e fechar as bets.

Existe enorme demanda por controle, tributação e restrições..

Há, porém, uma pergunta ainda mais importante que a pesquisa não fez

Quem, entre os entrevistados, efetivamente aposta? Até o primeiro semestre deste ano, mais de 31,8 milhões de pessoas tinham conta em empresas do mercado regulado. É um contingente adulto de dimensão equivalente a aproximadamente um quinto do eleitorado brasileiro. Hoje na casa de 158,7 milhões de pessoas.

A Atlas entrevistou 5.015 adultos e produziu cruzamentos por sexo, idade, renda, escolaridade, religião, região, identificação política e voto anterior. Mas não separou apostadores de não apostadores. Esse detalhe cria um enorme ponto cego.

Um brasileiro que nunca abriu um aplicativo de apostas responde à pergunta “as bets deveriam ser proibidas?”. De uma posição completamente diferente de alguém que aposta R$ 20 no jogo do próprio time uma vez por semana.

Da mesma forma, um apostador recreativo não necessariamente pensa como alguém que perdeu o controle sobre o jogo, acumulou dívidas ou comprometeu a renda familiar. A pesquisa não nos diz se esses grupos pensam igual.

E deixa sem resposta uma questão politicamente ainda mais importante. Como reagiriam os 31 milhões de brasileiros que já apostam se o governo decidisse impedi-los de continuar fazendo algo que hoje fazem legalmente?

Há diferença entre perguntar genericamente se alguém é favorável à proibição das bets

E perguntar diretamente a um apostador ocasional se ele aceita perder essa possibilidade. No primeiro caso, o entrevistado pode estar pensando em vício, endividamento e famílias destruídas.

No segundo, a questão passa a ser pessoal. Uma escolha que fazia parte de sua rotina deixaria de existir por decisão do Estado.

Não sabemos qual seria a resposta desses 31 milhões. Não sabemos quantos apoiariam a medida, quantos seriam indiferentes e quantos passariam a rejeitá-la.

E, principalmente, não sabemos se o governo está levando essa reação em consideração ao avaliar o custo político de uma eventual proibição. Esse talvez seja o ponto cego mais relevante de toda a discussão.

Há outra curiosidade nos números

Os grupos de renda mais baixa não são os que demonstram maior apoio ao banimento. Entre famílias com renda de até R$ 2 mil, o apoio fica em aproximadamente 68%. Em faixas superiores, chega perto ou supera 80%.

O mesmo padrão aparece na avaliação dos prejuízos. Os estratos de maior renda chegam a demonstrar rejeição mais intensa às bets que o grupo de menor renda.

Isso não prova nenhuma relação causal. Mas recomenda cautela diante da narrativa de que a rejeição às apostas seria simplesmente consequência direta do aperto financeiro das famílias mais pobres.

Na verdade, quando a própria Atlas pergunta o que mais prejudicou recentemente as finanças familiares, aparecem em primeiro lugar o preço dos alimentos, com 44,2%. As contas básicas, com 32,1%. Dívidas e juros, com 25%. E impostos, com 23,9%.

Bets sequer figuram entre as alternativas apresentadas. Isso significa que a pesquisa não permite concluir nem que elas sejam uma causa central da percepção econômica negativa. Nem que sejam irrelevantes para o problema.

Simplesmente não perguntou. É uma ausência metodológica importante num momento em que o tema passou a ser usado também para explicar o desconforto econômico das famílias.

Politicamente, há outro dado revelador

Quando se pergunta quem foi o principal responsável pela disseminação das bets no Brasil, 36% apontam o governo Lula. 25,4% o governo Bolsonaro e 16,5% o Congresso.

Mas os cruzamentos mostram forte polarização: eleitores de Lula culpam majoritariamente Bolsonaro; eleitores de Bolsonaro culpam Lula. Ou seja, mesmo um assunto aparentemente consensual rapidamente passa pelo filtro da identidade política.

A pergunta sobre “quem criou o problema” funciona menos como uma investigação da trajetória regulatória. E mais como uma extensão da disputa entre campos políticos.

É possível que uma política dura contra as bets encontre apoio

É possível também que diferentes desenhos produzam reações muito distintas. Proibir determinados produtos, restringir publicidade, elevar tributação, endurecer mecanismos de proteção ou extinguir o mercado regulado não são medidas equivalentes.

A pesquisa disponível não permite saber como os brasileiros ordenariam essas alternativas se fossem obrigados a escolher entre elas. Tampouco permite saber como reagiriam os milhões de brasileiros que efetivamente apostam.

O que a Atlas demonstra com enorme clareza é que o brasileiro vê as apostas com desconfiança. E quer intervenção do Estado.

O que ela não demonstra é que toda intervenção tenha o mesmo apoio. Que proibição seja necessariamente preferida a uma regulação severa. Ou que os milhões de brasileiros que efetivamente apostam reajam da mesma forma que o restante da população.

Antes de transformar 75% em uma conclusão política definitiva, falta fazer a pergunta mais óbvia de todas. O que pensa quem aposta?


por Rodrigo Marinho – Advogado e diretor executivo do Instituto Livre Mercado