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A frase “Palestina livre do rio ao mar” faz parte do merchandising da extrema-esquerda. Está em cartazes, bandeiras, camisetas, e é cantada em protestos. Muitos cantam sem saber quais são o rio e o mar (o Jordão e o Mediterrâneo). E nem o que a frase significa. Vamos explicar.
A frase nasceu como grito de guerra do movimento nacional palestino nos tempos da OLP de Arafat. Sua forma original em árabe dizia: “De água a água, a Palestina será árabe” (min il-mayye la-l-mayye, Falastīn ʿarabiyye). Procure as duas águas no mapa — rio e mar. E entenda: só expulsando ou massacrando milhões de judeus. As lideranças árabes da época falavam, com todas as letras, em “limpar a terra de judeus”. Além disso, já antes da criação de Israel, o mufti Hajj Amin al-Husayni viajou a Berlín para apoiar Hitler. E pediu que levasse a “solução final” para a região da Palestina, então colônia britânica.
Décadas depois, os terroristas e fundamentalistas religiosos do Hamas e da Jihad Islâmica adaptaram a frase. A nova versão: “De água a água, a Palestina será islâmica”. Em árabe, mayye (água) rima com ʿarabiyye (árabe) e com islāmiyye (islâmica). Mas o slogan, além de não rimar, não era politicamente correto em inglês. Então, as campanhas de ódio contra Israel usaram “From the river to the sea, Palestine will be free”. Free rima com sea e disfarça o antissemitismo e a incitação a cometer crimes de lesa-humanidade. Daí a versão brasileira: “do rio ao mar”.
Também há extremistas judeus que querem Israel do rio ao mar — e está errado. Pregar o massacre ou a limpeza étnica dos árabes é racista e desumano. É tão grave quanto pregar o massacre ou a limpeza étnica dos judeus. No passado, a frase “Entre o mar e o Jordão só haverá soberania israelense” também foi usada. Apareceu no programa eleitoral de partidos israelenses de direita. Mas tanto a direita quanto a esquerda promoveram, anos depois, negociações de paz com os palestinos. A OLP, que passou a governar parte do território depois de Oslo, também mudou.
Nós somos a favor da paz e do direito de ambos os povos à autodeterminação nacional. Por isso, acreditamos que, do rio ao mar, há terra suficiente para todos.
A frase do início deste texto ganhou impulso nas redes sociais nos últimos dias. Isso porque deputados do PSOL e outros extremistas espalharam uma fake news. O alvo: o excelente projeto de lei da deputada Tabata Amaral contra o antissemitismo. A mentira: que falar “Palestina livre do rio ao mar” vai ser crime. Além disso, dizem que “criticar Israel” vai dar cadeia. É mentira!
O PL 1424/2026 não cria nenhum tipo penal novo. Também não altera a redação dos já existentes, nem limita a liberdade de expressão. Ou seja, não é sobre criminalizar, mas sobre educar e conscientizar.
A definição de antissemitismo do projeto foi elaborada pela Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. Essa definição já foi adotada por 40 países, organismos internacionais e diversos estados e cidades brasileiras. E o mundo não acabou. Afinal, seu objetivo é instruir políticas públicas contra o antissemitismo. Assim como já há contra o racismo, a homofobia ou o machismo. Política pública não é cadeia. Mesmo assim, machistas, racistas e homofóbicos já usaram o mesmo espantalho contra as políticas que protegem mulheres, negros e negras. E também contra as que protegem pessoas LGBT do preconceito.
Boas políticas públicas ajudariam essas pessoas, inclusive os deputados do PSOL. Ajudariam a entender que é antissemitismo defender o massacre ou a limpeza étnica dos judeus no seu lar nacional!
O projeto foi assinado por 45 deputados de 19 partidos. Desde que o protocolou, a deputada Tabata tem sido alvo de xingamentos, difamação e ódio nas redes. Como consequência das fake news, recebeu inclusive ofensas machistas e misóginas de baixo calão. Pessoas que dizem ser progressistas, mas atacam dessa forma uma mulher, deveriam sentir vergonha.
Bruno Bimbi, jornalista, doutor em Estudos da Linguagem (PUC-Rio) e autor dos
livros “Casamento igualitário” e “O fim do armário”. É gerente sênior de Estratégia
Política da StandWithUs Brasil.
Igor Sabino, doutor em ciência política (UFPE) e autor dos livros “Por amor aos
patriarcas” e “Jesus, um judeu”. É gerente de conteúdo da StandWithUs Brasil.