Artigo de opinião
27 de outubro, 2026

O inferno de Dante agora cabe na palma da sua mão

O inferno de Dante agora cabe na palma da sua mão
Foto: A modernidade consagrou a razão como deusa absoluta | Imagem: Ranking dos Políticos

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Dante entra na floresta escura não apenas como um homem extraviado, mas como símbolo de uma civilização em crise. À sua frente, estendem-se as visões do Inferno, do Purgatório e do Paraíso, três faces do mesmo dilema. Afinal, o que é o ser humano quando confrontado com sua liberdade, seu juízo e sua finitude? A Divina Comédia foi escrita no exílio, em tempos de instabilidade política e corrupção eclesiástica.

Por isso, é mais do que uma viagem pessoal. É uma denúncia moral e, ao mesmo tempo, uma tentativa de reencontrar um sentido superior em meio ao colapso das referências do mundo medieval. E hoje, séculos depois, essa jornada continua atual, talvez mais do que nunca.

Virgílio e os limites da razão na Divina Comédia

Ao escolher Virgílio como guia pelo Inferno, Dante não apenas homenageia o grande poeta latino. Na verdade, ele encarna nele a razão clássica, a sabedoria estoica, o logos pagão, que orienta, explica, organiza.

Mas Virgílio não entra no Paraíso. Ele para às portas. Sua razão é nobre, mas limitada. Falta-lhe a fé, falta-lhe o fogo do transcendente, a esperança da graça. Essa imagem é um alerta: a razão, por si só, não redime. Pode conduzir-nos até a beira da verdade, mas não nos transforma.

Quando a razão é técnica

A modernidade consagrou a razão como deusa absoluta. Construiu impérios, decifrou genes, domou rios, atravessou planetas. Mas também criou gulags, algoritmos de controle, bombas atômicas e redes de manipulação em massa.

A razão, quando desancorada da ética, transforma-se em técnica. Por sua vez, a técnica, quando dissociada da consciência, serve a qualquer fim. Virgílio, hoje, é o engenheiro da lógica fria, o programador que escreve códigos sem perguntar por quê. É também o gestor que maximiza lucro enquanto a alma das coisas evapora.

O inferno de Dante agora tem Wi-Fi

Ao mesmo tempo, os pecados que Dante inscreveu nos círculos infernais permanecem. Não morreram, apenas se digitalizaram. A gula não é mais apenas alimentar: é consumista, ansiosa, insaciável.

Luxúria e soberba em perfis editados

A luxúria não é mais carnal apenas: é performática, exibida, quantificada em curtidas. Já a soberba se manifesta em perfis meticulosamente editados, em discursos de superioridade travestidos de “autenticidade”.

Ira, inveja e acídia no tempo das notificações

A ira virou engajamento político, tribalismo histérico, cancelamento. Enquanto isso, a inveja é o motor das redes. E a acídia é o tédio entorpecido de quem vive anestesiado por notificações. O inferno de Dante hoje tem Wi-Fi e continua cheio.

Uma sociedade órfã de guias

Contudo, o mais grave é que, sem Virgílio e sem fé, a sociedade resta órfã de guias. Isso porque a razão foi corrompida pelo utilitarismo, e a fé, dissolvida em espiritualismos vazios.

Assim, a Comédia mostra que só se atravessa o inferno com lucidez e coragem. Mostra também que é preciso algo além da razão para subir ao céu.

O problema da sociedade contemporânea é que quer o céu, mas recusa a subida. Da mesma forma, quer sentido, mas rejeita disciplina; quer salvação, mas sem culpa, sem virtude, sem sacrifício.

Círculos de dopamina e distração

O resultado é uma geração que vaga entre círculos infernais de dopamina e distração. Essa geração não reconhece mais a gravidade de seus vícios, porque foram estetizados, normalizados e rentabilizados.

E o mais cruel é que, assim como no Inferno dantesco, as punições são autoimpostas. Cada pecador constrói sua própria prisão, moldada pela repetição do mesmo erro que se recusa a abandonar.

A luz que a razão sozinha não alcança

Dante termina sua jornada ao vislumbrar Deus como um ponto de luz que une amor e intelecto. Diante disso, é preciso reaprender com Virgílio a ver a lógica dos vícios. Também é preciso aceitar que, para superá-los, a razão sozinha não basta.

Sem um novo horizonte de sentido ético, espiritual, comunitário, o mundo continuará girando em torno de si mesmo. Restará um inferno circular onde todos os pecados são permitidos… contanto que estejam dentro dos termos de uso.

Maria Eduarda Vargas

Presidente do instituto Atlantos.