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Dante entra na floresta escura não apenas como um homem extraviado, mas como símbolo de uma civilização em crise. À sua frente, estendem-se as visões do Inferno, do Purgatório e do Paraíso, três faces do mesmo dilema. Afinal, o que é o ser humano quando confrontado com sua liberdade, seu juízo e sua finitude? A Divina Comédia foi escrita no exílio, em tempos de instabilidade política e corrupção eclesiástica.
Por isso, é mais do que uma viagem pessoal. É uma denúncia moral e, ao mesmo tempo, uma tentativa de reencontrar um sentido superior em meio ao colapso das referências do mundo medieval. E hoje, séculos depois, essa jornada continua atual, talvez mais do que nunca.
Ao escolher Virgílio como guia pelo Inferno, Dante não apenas homenageia o grande poeta latino. Na verdade, ele encarna nele a razão clássica, a sabedoria estoica, o logos pagão, que orienta, explica, organiza.
Mas Virgílio não entra no Paraíso. Ele para às portas. Sua razão é nobre, mas limitada. Falta-lhe a fé, falta-lhe o fogo do transcendente, a esperança da graça. Essa imagem é um alerta: a razão, por si só, não redime. Pode conduzir-nos até a beira da verdade, mas não nos transforma.
A modernidade consagrou a razão como deusa absoluta. Construiu impérios, decifrou genes, domou rios, atravessou planetas. Mas também criou gulags, algoritmos de controle, bombas atômicas e redes de manipulação em massa.
A razão, quando desancorada da ética, transforma-se em técnica. Por sua vez, a técnica, quando dissociada da consciência, serve a qualquer fim. Virgílio, hoje, é o engenheiro da lógica fria, o programador que escreve códigos sem perguntar por quê. É também o gestor que maximiza lucro enquanto a alma das coisas evapora.
Ao mesmo tempo, os pecados que Dante inscreveu nos círculos infernais permanecem. Não morreram, apenas se digitalizaram. A gula não é mais apenas alimentar: é consumista, ansiosa, insaciável.
A luxúria não é mais carnal apenas: é performática, exibida, quantificada em curtidas. Já a soberba se manifesta em perfis meticulosamente editados, em discursos de superioridade travestidos de “autenticidade”.
A ira virou engajamento político, tribalismo histérico, cancelamento. Enquanto isso, a inveja é o motor das redes. E a acídia é o tédio entorpecido de quem vive anestesiado por notificações. O inferno de Dante hoje tem Wi-Fi e continua cheio.
Contudo, o mais grave é que, sem Virgílio e sem fé, a sociedade resta órfã de guias. Isso porque a razão foi corrompida pelo utilitarismo, e a fé, dissolvida em espiritualismos vazios.
Assim, a Comédia mostra que só se atravessa o inferno com lucidez e coragem. Mostra também que é preciso algo além da razão para subir ao céu.
O problema da sociedade contemporânea é que quer o céu, mas recusa a subida. Da mesma forma, quer sentido, mas rejeita disciplina; quer salvação, mas sem culpa, sem virtude, sem sacrifício.
O resultado é uma geração que vaga entre círculos infernais de dopamina e distração. Essa geração não reconhece mais a gravidade de seus vícios, porque foram estetizados, normalizados e rentabilizados.
E o mais cruel é que, assim como no Inferno dantesco, as punições são autoimpostas. Cada pecador constrói sua própria prisão, moldada pela repetição do mesmo erro que se recusa a abandonar.
Dante termina sua jornada ao vislumbrar Deus como um ponto de luz que une amor e intelecto. Diante disso, é preciso reaprender com Virgílio a ver a lógica dos vícios. Também é preciso aceitar que, para superá-los, a razão sozinha não basta.
Sem um novo horizonte de sentido ético, espiritual, comunitário, o mundo continuará girando em torno de si mesmo. Restará um inferno circular onde todos os pecados são permitidos… contanto que estejam dentro dos termos de uso.