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Brasil
01 de maio, 2026

Dia do Trabalhador: o governo cobra como sócio e entrega como patrão ruim

Dia do Trabalhador: o governo cobra como sócio e entrega como patrão ruim
Foto: Ranking dos Políticos

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Todo 1º de Maio segue um roteiro conhecido. Sindicato monta palanque, governo fala em dignidade e autoridades tentam transformar o trabalhador em peça de propaganda. Mas existe uma pergunta que quase nunca aparece nos discursos oficiais.

Se o Estado brasileiro protege tanto o trabalhador, por que trabalhar no Brasil continua sendo tão caro, tão inseguro e tão pouco recompensador?

O trabalhador não é apenas explorado quando recebe pouco. Ele também é explorado quando paga imposto demais, perde horas no transporte, depende de serviço público ruim, enfrenta burocracia para empreender e ainda escuta que deve gratidão ao governo por receber de volta uma parte pequena do dinheiro que a máquina pública tomou antes.

Em 2025, a carga tributária bruta chegou a 32,40% do PIB, segundo o Tesouro Nacional. Foi o maior nível da série iniciada em 2010, como também mostrou a cobertura da IstoÉ Dinheiro sobre os dados do Tesouro. Ou seja, quase um terço da riqueza produzida no país passou pelas mãos do governo.

E o mesmo governo que diz defender quem trabalha também pesa no bolso, complica a vida produtiva e entrega serviços abaixo do que cobra.

O Estado entra no salário antes da família

O trabalhador brasileiro paga imposto antes mesmo de perceber. Paga ao comprar comida, combustível, luz, remédio e no cartão de crédito.

A política brasileira gosta de falar em direitos, mas evita falar no preço da máquina pública que promete entregar esses direitos. E o custo aparece no supermercado, no aluguel, no combustível, no comércio, no serviço, no produto final e na renda corroída antes do fim do mês.

Mas o problema não está na existência do Estado, e sim na forma como o Estado brasileiro age: eficiente para cobrar e ruim para entregar.

O trabalhador vive no improviso

O Brasil fechou 2025 com queda na desocupação e aumento da população ocupada, segundo dados da PNAD Contínua divulgados pelo IBGE. Mas esse dado não conta a história inteira.

No quarto trimestre de 2025, a taxa de informalidade no Brasil foi de 37,6% da população ocupada. Em alguns estados, o quadro foi ainda mais duro. Maranhão registrou 57,3%, Pará teve 56,7% e Amazonas chegou a 51,6%.

A maioria da população trabalha sem contrato. A informalidade não é apenas um espírito empreendedor. Muitas vezes é fuga:

  • Fuga de custo
  • Regra
  • Taxa
  • Papelada
  • Obrigação trabalhista
  • Contador
  • Alvará
  • Fiscalização

O Estado chama isso de problema social. Mas ajuda a fabricar o problema.

O governo transforma dificuldade em dependência

O Estado pesa sobre quem produz e depois distribui benefícios como se fossem generosidade política. Encarece a vida, promete aliviar as taxações, mas acaba tirando do trabalhador pela tributação. Por fim, devolve uma parte com discurso de cuidado.

Esse ciclo cria uma dependência conveniente para quem manda no orçamento.

O Orçamento de 2025 previu R$ 972 bilhões para a Previdência Social e R$ 158 bilhões para o Bolsa Família, segundo a Agência Senado. Ao mesmo tempo, foram previstos R$ 245 bilhões para saúde pública e R$ 226 bilhões para educação pública.

A discussão aqui não é negar a importância de políticas sociais. O ponto é outro. Um país que gasta tanto e entrega tão pouco precisa parar de tratar qualquer cobrança por eficiência como ataque aos pobres.

Debate trabalhista virou vitrine eleitoral

A Câmara instalou, em 29 de abril de 2026, uma comissão especial para analisar o fim da escala 6×1. O colegiado discute a redução da jornada para 36 horas semanais e o fim do modelo de seis dias de trabalho por um de descanso. A pauta é necessária, porque há trabalhadores exaustos no comércio, na segurança e nos serviços. O problema é transformar uma discussão séria em peça de campanha.

O trabalhador quer tempo para viver, e isso é justo. Mas reduzir jornada sem discutir produtividade, custo de contratação, impacto sobre pequenas empresas e informalidade pode virar promessa bonita com conta escondida. Além de descanso, o trabalhador precisa de emprego, salário digno, transporte decente e segurança pública.

Mas a política evita encarar questionamentos incômodos, como: quem pagará a conta quando a regra mudar por decreto e a produtividade continuar travada? Se a resposta vier em aumento de preços, menos contratação ou mais informalidade, o trabalhador volta a pagar.

O salário mínimo virou peça de propaganda

O salário mínimo de R$ 1.621,00 em 2026 também aparece todo ano como troféu político. Governo anuncia reajuste, sindicato cobra aumento, partido tenta capturar a pauta e quase todo mundo finge que a canetada resolve a vida real. Mas o custo de vida não obedece discurso.

Segundo o DIEESE, em março de 2026, o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ter sido de R$ 7.425,99. O valor equivalia a 4,58 vezes o mínimo vigente, dado também repercutido pelo Sindmetal.

O Brasil criou uma distância brutal entre o que o trabalhador ganha e o que ele precisa para viver com dignidade. Essa distância não fecha com palanque. Fecha com produtividade, investimento, educação que funcione, menos insegurança jurídica, menos desperdício público e menos Estado sugando a renda antes que ela chegue à mesa da família.

Falsa guerra entre patrão e empregado esconde o terceiro beneficiário

A velha leitura política tenta resumir o Dia do Trabalhador a uma guerra entre patrão e empregado, mas essa leitura ficou pequena. No Brasil, existe um terceiro personagem sentado à mesa, que não vende, não entrega, não contrata, não pega sol na obra, não fecha caixa, não varre rua e não carrega mercadoria, mas recebe. Esse personagem é o Estado.

O patrão pode falir, o empregado pode ser demitido, o autônomo pode ficar sem renda e o pequeno comerciante pode quebrar, mas a máquina pública continua cobrando.

Estudo do IBPT sobre retorno dos tributos aponta o Brasil entre os países que menos transformam arrecadação em bem-estar. Essa é a provocação que deveria abrir o 1º de Maio.

O trabalhador precisa de uma economia eficiente

O trabalhador brasileiro não precisa de homenagem ensaiada. Precisa de menos imposto, transporte decente, escola que prepare, saúde que atenda, segurança para viver e regra simples para empreender.

O 1º de Maio deveria ser menos fantasioso e mais de cobrança pública, porque o trabalhador não vive de discurso. Vive do próprio tempo, muitas vezes confiscado por um Estado caro e ineficiente.


Alan Martins é jornalista, designer gráfico e analista de comunicação do Ranking dos Políticos