O Brasil Pode Dar Certo
17 de agosto, 2026

Defesa como política de Estado: caminhos para o Brasil até o fim da década

Defesa como política de Estado: caminhos para o Brasil até o fim da década
Foto: Paulo Alvarenga é um dos autores do livro O Brasil Pode Dar Certo | Ranking dos Políticos

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Este texto integra O Brasil Pode Dar Certo, livro de propostas de reforma institucional organizado pelo Ranking dos Políticos com apoio da Atlas Network.

Já não é de hoje que a defesa nacional brasileira vem sendo tratada como uma variável residual do ciclo orçamentário. O país ainda não trata a defesa como política de Estado. O resultado são descontinuidades, contingenciamentos e baixa previsibilidade.

Essa postura contrasta cada vez mais com a dinâmica geopolítica contemporânea. Afinal, os conflitos armados se intensificaram e a competição estratégica entre grandes potências voltou ao centro do tabuleiro. Além disso, novos domínios como o ciberespaço se militarizaram, enquanto as cadeias globais de valor se reconfiguram rapidamente.

Nesse cenário, a capacidade de defesa deixa de ser um tema estritamente militar. Ela passa a ocupar posição central na soberania, na autonomia decisória e na estratégia de desenvolvimento das nações.

Gastos militares crescem no mundo e o Brasil fica para trás

Essa mudança de paradigma aparece no crescimento expressivo dos gastos militares globais. Entre 2022 e 2025, os dispêndios em defesa superaram US$ 2,7 trilhões por ano no mundo. O dado é do SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute), referência global no tema.

A guerra na Ucrânia, as tensões no Indo-Pacífico e a instabilidade no Oriente Médio explicam boa parte desse movimento. Em resposta, países de postura fiscal historicamente mais contida mudaram de rota. Passaram a implementar planos plurianuais robustos, ancorados em fundos extraordinários e em articulação entre defesa, inovação e política industrial.

A Alemanha virou o exemplo mais emblemático dessa inflexão estratégica. O país criou um fundo especial de € 100 bilhões após a invasão russa da Ucrânia. Com isso, elevou seus investimentos para além de 2% do PIB (Produto Interno Bruto).

Ambição diplomática do Brasil exige capacidade militar

O Brasil não se envolve em conflitos armados diretos há mais de um século. Ainda assim, está plenamente inserido nesse ambiente internacional mais volátil.

A aspiração de ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU ilustra a ambição do país. É um objetivo antigo e cada vez mais distante. Mesmo assim, o Brasil deveria ao menos ser reconhecido como capaz de projetar influência regional.

Para que essa pretensão seja crível, porém, o protagonismo diplomático precisa vir acompanhado de compromisso com a segurança internacional. Isso pressupõe capacidades mínimas de dissuasão, proteção da soberania e resposta a ameaças. Nesse sentido, o nível de investimento em defesa vira elemento-chave de credibilidade estratégica.

Atlântico Sul e Amazônia Azul pedem vigilância permanente

A relevância geopolítica do Atlântico Sul reforça essa necessidade. A região não é apenas rota comercial. Ela virou espaço de disputa por recursos energéticos, minerais e infraestrutura crítica, como cabos submarinos.

A proteção da Amazônia Azul, do Pré-Sal e das extensas fronteiras terrestres exige capacidades permanentes. O mesmo vale para os sistemas digitais estratégicos, que dependem de vigilância, monitoramento e resposta contínuos.

A instabilidade recorrente no norte da América do Sul também pesa. As tensões entre Estados Unidos e Venezuela mostram como disputas entre grandes potências afetam a segurança brasileira. Diante disso, cresce a necessidade de capacidades próprias de dissuasão e autonomia estratégica.

O Brasil gasta menos da metade da média mundial em defesa

O país responde por mais de 2% da economia global. Porém, sua fatia nos gastos militares mundiais fica abaixo de 1%. Enquanto a média mundial gira em torno de 2,5% do PIB, o Brasil destina cerca de 1,1%.

Na América do Sul, o país tem apenas o 6º maior orçamento relativo entre 13 nações. A assimetria entre peso econômico, extensão territorial e capacidade efetiva de defesa revela vulnerabilidade estrutural.

Esse quadro não resulta de uma opção deliberada por política externa pacífica. Ele decorre de décadas de subinvestimento, fragmentação decisória e ausência de política de Estado consistente para o setor.

Pessoal consome 75% do orçamento e o investimento fica em 8%

O desequilíbrio aparece na composição do orçamento do Ministério da Defesa. Em 2025, a pasta contou com cerca de R$ 130 bilhões, dos quais aproximadamente 75% foram para despesas de pessoal.

Esse dado, por si só, não deve ser interpretado de forma distorcida. As despesas de pessoal foram se tornando proporcionalmente mais relevantes à medida que os investimentos eram sacrificados. Afinal, a supressão dos investimentos atravessou sucessivos ciclos de ajuste fiscal.

A parcela voltada a investimentos gira em torno de 8% do orçamento. O patamar é insuficiente até para a manutenção dos meios existentes. Por isso, modernizar equipamentos, incorporar novas tecnologias e recompor capacidades operacionais fica ainda mais distante.

Frota naval mostra a perda de capacidade

As consequências desse padrão são visíveis na perda gradual de capacidades. No domínio naval, estimativas indicam que até 70% da frota poderá ser desmobilizada até 2028 por obsolescência. Com isso, a vigilância dos territórios marítimos fica comprometida.

Nos domínios aéreo e terrestre, houve avanços pontuais. Porém, persistem lacunas estruturais em defesa antiaérea, logística, cibernética e espacial. Essas fragilidades reduzem a dissuasão, ampliam a dependência externa e limitam a autonomia do Estado em cenários de crise.

A Base Industrial de Defesa é ativo estratégico e ponto frágil

A Base Industrial de Defesa (BID) aparece ao mesmo tempo como ativo estratégico e ponto de vulnerabilidade. O Brasil dispõe de competências consolidadas em aeronáutica, sistemas navais, veículos blindados e tecnologias de comando e controle.

Contudo, a volatilidade da demanda governamental compromete a sustentabilidade do setor. A ausência de encomendas seriadas e as restrições ao financiamento de longo prazo agravam o problema.

O ambiente internacional é marcado por controles de exportação e politização das cadeias de suprimento. Dessa forma, a dependência externa representa risco direto à soberania.

Como outros países tratam a defesa como política de Estado

Experiências internacionais recentes oferecem referências claras para o redesenho da política de defesa. Estados Unidos, Reino Unido, Índia e China investem entre 2% e 5% do PIB no setor. Os países da OTAN, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, seguem o mesmo caminho.

Esses países combinam planejamento plurianual, governança robusta e integração entre defesa, inovação e política industrial. Além disso, ampliam parcerias público-privadas e contratos baseados em desempenho. Também avançam em estratégias de uso dual, nas quais os investimentos militares geram capacitações tecnológicas de aplicação civil.

Uma agenda de defesa como política de Estado entre 2026 e 2030

À luz desse diagnóstico, o período de 2026 a 2030 representa uma janela de oportunidade para corrigir distorções históricas. Ao mesmo tempo, exige ação emergencial. Sem isso, a exposição estratégica pode virar perda de soberania, de liberdade e de riquezas da nação.

Previsibilidade orçamentária e piso de 2,5% do PIB

O primeiro eixo dessa agenda é a estabilidade e a previsibilidade orçamentária. Ela passa pela elevação progressiva do gasto em defesa para, no mínimo, 2,5% do PIB. Esse é o patamar da média mundial.

O percentual deveria ser entendido como piso estratégico. Ele sinaliza credibilidade, responsabilidade fiscal e compromisso de longo prazo. Contudo, o aumento precisa ser paulatino, para que a cadeia produtiva se organize e atenda à demanda de forma competitiva.

Ao mesmo tempo, é preciso assegurar que o aumento vá para investimento, e não para despesas ordinárias. Só assim as capacidades operacionais serão recompostas e ampliadas, sobretudo no aspecto tecnológico.

Por último, deve-se privilegiar a cadeia produtiva local. Dessa forma, o país assegura autonomia e soberania estratégicas. A medida também funciona como indutor de crescimento, de renda e de progresso econômico e social.

Um plano plurianual protegido de contingenciamentos

Para viabilizar esse objetivo, recomenda-se a criação de um Plano Plurianual de Capacidades de Defesa. O horizonte mínimo seria de dez anos, integrado ao planejamento federal. Ainda assim, o plano precisaria de governança própria e de proteção dos investimentos estratégicos.

Nesse sentido, a Lei Complementar nº 221/2025 representa um marco institucional. A norma estabelece diretrizes para projetos estratégicos de defesa e os articula ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

A lei ainda viabiliza o uso de fundos públicos sem impacto direto sobre as metas fiscais da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias). Além disso, autoriza a exclusão de recursos do teto de gastos para essa finalidade.

Encomendas nacionais para sustentar a indústria

O fortalecimento da BID é outro eixo estruturante. Para tanto, é necessário priorizar encomendas nacionais em programas estratégicos. Também é preciso assegurar cláusulas efetivas de conteúdo local e de transferência de tecnologia.

O acesso a financiamento de longo prazo precisa ser ampliado. Da mesma forma, a diplomacia econômica deve se voltar à promoção de exportações do setor. A indústria merece tratamento de parceira estratégica do Estado, e não apenas de fornecedora.

Governança, transparência e prestação de contas

Paralelamente, é necessário sustentar esse movimento com melhor governança orçamentária. Ganhos de eficiência administrativa e digitalização de processos ajudam nessa tarefa. Isso porque transparência e qualidade institucional são condições indispensáveis para a estratégia se sustentar.

Programas estratégicos devem adotar elevados padrões de prestação de contas. Metas, cronogramas e indicadores de desempenho precisam ser claros, respeitados os limites do sigilo militar. Com isso, a previsibilidade reduz riscos, atrai investimentos privados e fortalece a legitimidade social da política de defesa.

Defesa é projeto de Estado, não de governo

A defesa nacional deve ser compreendida como um projeto de Estado, e não de governo. Ela é um investimento estratégico de longo prazo.

O Brasil tem necessidade e oportunidade de alinhar sua capacidade militar à sua dimensão territorial. O mesmo vale para sua relevância econômica e para as exigências de um ambiente internacional mais incerto.

Com planejamento, responsabilidade fiscal e foco em inovação, é possível construir uma política de defesa moderna e eficiente. Ela pode ser compatível com os compromissos democráticos e com o desenvolvimento econômico sustentável.


Paulo Alvarenga

CEO TKMS Brazil, CEO thyssenkrupp nucera South America, Vice-Chairman ABIHV (Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde), and Board Member AHK (Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha).