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08 de maio, 2026

Quais cidades têm mais beneficiários do Bolsa Família no Brasil

Quais cidades têm mais beneficiários do Bolsa Família no Brasil
Foto: Qual cidade tem o maior número de beneficiados pelo Bolsa Família | Ranking dos Políticos

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Em pelo menos 10 municípios brasileiros, há mais famílias no Bolsa Família do que domicílios registrados pelo IBGE. O levantamento foi feito pelo Poder360, a partir de dados do Ministério do Desenvolvimento Social e do Censo 2022, com registros públicos de janeiro de 2025.

A diferença expõe um problema difícil de separar. De um lado, pode haver cadastro errado, benefício irregular ou fraude. De outro, o Censo pode ter deixado parte da população fora da conta em cidades pequenas, com comunidades rurais espalhadas e acesso difícil.

Pelas regras do Bolsa Família, cada família recebe o benefício por meio de um único titular. Pessoas do mesmo núcleo familiar não podem receber ao mesmo tempo.

Cidades onde há mais inscritos do que casas

O município Serrano do Maranhão (MA) tem 3.953 domicílios contabilizados pelo IBGE e registrou 5.041 famílias no Bolsa Família, o que equivale a 127,5% do total de residências. Mas a prefeitura da cidade, comandada por Val Cunha (PL), contestou os dados do Censo.

O argumento é que o recenseamento teria cometido erros na contagem de povoados da zona rural. A prefeitura mencionou o povoado de Boa Esperança, com cerca de 800 moradores, que, segundo o governo local, não recebeu visita de recenseadores. O IBGE negou as falhas.

O segundo caso discrepante é São Paulo de Olivença (AM), com 7.722 famílias no programa e 6.845 domicílios. Já Autazes (AM) aparece em seguida, com 16.457 titulares e 15.544 domicílios.

No total, as 10 cidades com essa distorção ficam nas regiões Norte e Nordeste, que também concentram os maiores índices de pobreza e dependência de programas de transferência de renda.

O que o governo diz sobre a discrepância

O Ministério do Desenvolvimento Social reconhece a existência de diferenças entre os registros do Censo e os do Cadastro Único (CadÚnico). Segundo a pasta, o Cadastro Único identifica o perfil das famílias com maior frequência de atualização do que o Censo, que mapeia domicílios de forma estática.

O ministério também destacou o conceito de “famílias conviventes”, que é quando mais de uma família mora na mesma residência. Isso ocorre com frequência em áreas de maior vulnerabilidade. O CadÚnico registra essas famílias separadamente, mesmo que dividam o mesmo endereço. Já o Censo conta apenas o número de domicílios físicos.

Essa diferença metodológica explica parte da distorção. Não explica toda ela.

Concentração regional

O Nordeste concentra o maior número de famílias atendidas pelo Bolsa Família. A região reunia 8,7 milhões de beneficiários, segundo dados da Agência Gov. O Sudeste vem em seguida, com 5,2 milhões, depois o Norte, com 2,4 milhões.

Em 807 municípios, pelo menos metade dos domicílios tem alguém recebendo o programa. Em 70 cidades, esse percentual passa de 80%.

Segundo a economista Carla Beni, professora da FGV e conselheira do Corecon de São Paulo, cidades com mais de 80% dos domicílios no programa já deveriam ser alvo de investigação. Beni avalia que a existência de mais famílias do que residências é um sinal de irregularidade.

A professora pondera que há um efeito multiplicador do Bolsa Família nessas localidades. Parte da economia local gira em torno do dinheiro do programa, que movimenta o comércio e os serviços. Mesmo assim, a concentração extrema de beneficiários acende um alerta sobre a qualidade do cadastramento.

Como o programa funciona

O Bolsa Família é o maior programa de transferência de renda do Brasil. O valor base é de R$ 600 por família, com adicionais de R$ 150 para crianças de 0 a 6 anos e R$ 50 para jovens de 7 a 18 anos. Para ser elegível, a renda mensal per capita da família não pode ultrapassar R$ 218.

O pagamento é feito pela Caixa Econômica Federal e pode ser movimentado pelo aplicativo Caixa Tem. A inscrição depende do cadastro no CadÚnico, feito presencialmente nos CRAS (Centros de Referência de Assistência Social) de cada município.

Existe uma regra chamada Regra de Proteção, que permite à família continuar recebendo metade do benefício por até dois anos caso a renda per capita suba acima do limite, mas fique abaixo de meio salário mínimo. A ideia é evitar que o medo de perder o programa desestimule a busca por emprego formal.

Para permanecer no programa, as famílias precisam cumprir as condicionalidades, como manter a vacinação das crianças em dia, fazer o acompanhamento nutricional de menores de 7 anos e garantir a frequência escolar mínima: 60% para crianças de 4 a 6 anos e 75% para jovens de 6 a 18 anos.

Pente-fino no programa

O Bolsa Família passou por uma expansão acelerada durante o governo Bolsonaro. Em dezembro de 2018, antes do início do mandato, o programa atendia 14,1 milhões de famílias. No fim de 2022, esse número havia subido para cerca de 21,9 milhões. Parte dessa alta ocorreu durante a pandemia de covid-19, quando os critérios de inscrição foram flexibilizados e o cadastro presencial foi dispensado em muitos casos.

Com a volta do nome Bolsa Família em março de 2023, no governo Lula, começou uma revisão cadastral que o governo chama de “pente-fino”. O foco principal foram as chamadas famílias unipessoais, formadas por uma única pessoa. Esse grupo saltou de 2,2 milhões em 2021 para 5,9 milhões em janeiro de 2023. Até 2025, o número caiu para 4,1 milhões.

O Ministério do Desenvolvimento Social informou que, entre 2023 e 2024, identificou 3,7 milhões de cadastros com inconsistências. Foram excluídos beneficiários com renda acima do limite, cadastros duplicados e registros que não correspondiam à composição real da família.

Em janeiro de 2025, o programa atendia 20,5 milhões de famílias. Ao longo do ano, exclusões reduziram o número. Em agosto de 2025, eram 19,1 milhões.

Já em dezembro daquele ano, o programa chegou a 18,7 milhões de famílias cadastradas. O valor médio de R$ 691 por beneficiário e um investimento mensal de R$ 12,7 bilhões.

Bolsa Família vs. emprego formal

Card informativo mostra ranking de 10 cidades onde o número de famílias atendidas pelo Bolsa Família supera o total de domicílios registrados no Censo, com tabela de beneficiários, domicílios e relação proporcional.
Levantamento mostra municípios em que famílias atendidas pelo Bolsa Família superam o total de domicílios registrados no Censo | Ranking dos Políticos

O estado do Maranhão liderava o top 10, com 1,77 beneficiário para cada empregado formal. Pará, Piauí e Bahia vinham na sequência. Todos os 10 estados nessa situação ficam no Norte ou no Nordeste. Já no lado oposto, Santa Catarina tinha 12 empregos formais para cada beneficiário do programa.

Apesar desse cenário, houve melhora. Em janeiro de 2023, 13 estados tinham mais beneficiários que trabalhadores com carteira. Em fevereiro de 2026, o número caiu para 9. A redução se deve tanto ao crescimento do emprego formal quanto às exclusões feitas pelo pente-fino.

No nível municipal, 2.639 cidades ainda registravam mais inscritos no Bolsa Família do que empregos formais.

Concentração em certas cidades

A concentração de beneficiários não se deve a um fator único. Há pelo menos três elementos que se combinam:

  • 1º – Municípios com pouca atividade econômica, dependência de repasses federais e baixo emprego formal tendem a ter mais famílias dentro dos critérios do programa.
  • 2º – O CadÚnico depende da estrutura das prefeituras. Em cidades pequenas, equipes reduzidas limitam a checagem dos dados, mesmo com o reforço dos cruzamentos a partir de 2024.
  • 3º – Comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas espalhadas por áreas extensas dificultam a contagem de domicílios e a fiscalização dos cadastros.

Perspectivas para o programa

O governo federal anunciou algumas medidas de controle em 2025, como a conferência da renda declarada, a atualização obrigatória dos dados a cada 24 meses e a verificação cruzada com registros de óbitos. A Rede Federal de Fiscalização do Bolsa Família e do Cadastro Único, criada em junho de 2023, é o instrumento que coordena essas ações.

Além disso, o MDS passou a exigir biometria vinculada à Carteira de Identidade para novos cadastros. Famílias unipessoais também passaram a receber visitas domiciliares feitas por assistentes sociais.

Para 2025, o orçamento do programa ficou em torno de R$ 167 bilhões. A meta do governo é economizar R$ 2 bilhões com exclusões de cadastros irregulares, sem reduzir o alcance das famílias que cumprem os critérios.

O Bolsa Família permanece como a maior política de transferência de renda do país. Sua gestão envolve decisões que afetam diretamente a vida de quase 50 milhões de pessoas, considerando todos os membros das famílias atendidas. A qualidade do cadastramento e a capacidade de fiscalização são os dois pilares que determinam se o dinheiro chega a quem precisa.


Alan Martins é jornalista, designer gráfico e analista de comunicação do Ranking dos Políticos