
Compartilhar
Compartilhe o artigo via
Ou copie o link
A entrevista de Lula na Record foi checada pelo Ranking dos Políticos afirmação por afirmação. Ao todo, 12 declarações do presidente passaram pela verificação, com base em dados do IBGE, do Banco Central, da FAO e dos ministérios da Saúde e da Educação.
Por isso, o resultado aponta 5 afirmações verdadeiras, 4 imprecisas e 3 falsas. Dessa forma, o eleitor consegue separar o que é dado oficial do que é comparação construída.
✅ Siga o Ranking dos Políticos no LinkedIn
🗒️ Clique aqui e ajude a manter este conteúdo
Além disso, dois problemas se repetem em relação às entrevistas anteriores. O presidente volta a errar sobre o crescimento do PIB e volta a comparar índices de inflação que não usam a mesma métrica.
Boa parte dos erros já havia aparecido na checagem da entrevista no Jornal Nacional e na checagem da sabatina no SBT, o que reforça o padrão de repetição.
Para começar, cada afirmação foi comparada com a fonte primária correspondente. Além disso, a apuração cruzou os dados com checagens já publicadas por veículos independentes, o que permite identificar quando um erro é reincidente.
Além disso, esta rodada usou uma escala de cinco vereditos, mais detalhada que a das sabatinas do Jornal Nacional. Por isso, a categoria “impreciso” cumpre aqui o papel que a categoria “parcial” cumpria nas checagens anteriores.
Nota: os percentuais desta apuração não são diretamente comparáveis aos das sabatinas anteriores, porque a escala usada tem cinco categorias em vez de quatro.
No primeiro caso, o problema já era conhecido. Lula afirmou que a economia só voltou a crescer acima de 3% com seu retorno à Presidência. Contudo, o PIB cresceu 4,8% em 2021 e cerca de 3,0% em 2022, ambos sob o governo anterior.
Vale notar que a mesma frase já havia sido classificada como incorreta por checagem independente em março de 2025. Portanto, trata-se de um erro reincidente, e não de um lapso pontual.
Já o segundo caso é mais sutil e envolve metodologia. O presidente comparou uma inflação de alimentos de 56% herdada com 13% no próprio governo. Na prática, os dois números vêm de categorias diferentes do IPCA.
Os 56% correspondem à subcategoria “alimentação no domicílio”, que mede só a comida consumida em casa. Já os 13,6% usam o grupo mais amplo “alimentação e bebidas”. Usando a mesma categoria nos dois períodos, o número do governo anterior cai para cerca de 46%.
Diz que o país só cresceu acima de 3% em seu governo, mas 2021 e 2022 também cresceram nesse ritmo. – FALSO
Compara a inflação de alimentos usando categorias diferentes do IPCA em cada período. – FALSO
Este é o caso mais delicado da checagem. Lula citou três valores para o quilo do arroz em sequência: R$ 4,96 no início do governo, R$ 8,43 como referência e R$ 4,93 hoje.
Na prática, o valor do meio não é um preço real observado em momento algum. Trata-se de uma projeção hipotética, uma estimativa de quanto o arroz custaria caso a inflação do governo anterior tivesse continuado. Entretanto, ele foi apresentado na mesma entonação e no mesmo formato dos outros dois.
Dessa forma, ao inserir um número simulado entre dois números reais, sem sinalizar a diferença, a frase induz o ouvinte a tratar a projeção como fato. Além disso, a apuração não localizou série pública que confirme com precisão os dois valores reais no mesmo recorte metodológico.
Apresenta uma projeção hipotética de preço do arroz no mesmo formato de dois valores reais. – FALSO
Por sua vez, o bloco seguinte reúne três dados imprecisos por motivos diferentes. No caso da fome, o ponto de partida está correto: os 33,1 milhões de pessoas em insegurança alimentar grave em 2022 batem com o inquérito da Rede Penssan.
Contudo, o problema está na conclusão. O Brasil de fato saiu do Mapa da Fome da FAO em julho de 2025, mas esse é um critério técnico estreito, ligado à subalimentação calórica. Pelo mesmo relatório da ONU, cerca de 28,5 milhões de brasileiros seguiam em insegurança alimentar no período.
Já os outros dois casos são erros numéricos em direções opostas. As reservas internacionais foram citadas abaixo do valor real, e a extensão da fronteira terrestre, bem acima.
Trata a saída do Mapa da Fome como fim da fome, embora 28,5 milhões sigam em insegurança alimentar. – IMPRECISO
Cita reservas de US$ 270 bilhões, quando o Banco Central registrava valores acima de US$ 320 bilhões. – IMPRECISO
Fala em 18.600 km de fronteira seca, mas a extensão oficial é de cerca de 15.719 km. – IMPRECISO
Por um lado, a expansão da rede federal de ensino é fato documentado. O país saiu de cerca de 140 unidades técnicas em 2002 para mais de 680 em 2024, com anúncio de novos campi depois disso.
Por outro lado, os números citados na entrevista não batem entre si nem com as fontes oficiais. O ponto recorrente é a confusão entre criar um instituto federal novo e inaugurar um campus de instituto já existente. Esse mesmo erro categorial já havia sido apontado por checagem em julho de 2024.
Mistura criação de institutos federais com abertura de campi de institutos que já existiam. – IMPRECISO
Ao todo, cinco afirmações se confirmaram. Os dados sobre endividamento das famílias batem com a pesquisa da CNC, tanto no percentual de endividados quanto no de inadimplentes. Da mesma forma, os números do Bolsa Família e das cirurgias eletivas do SUS conferem com as fontes oficiais.
Além disso, o caso Marielle Franco também se sustenta. Os apontados mandantes foram presos em operação da Polícia Federal em março de 2024 e condenados pelo STF em fevereiro de 2026. Por sua vez, a fala sobre o FMI é correta, mas mistura episódios de anos diferentes.
O pagamento ao FMI e o empréstimo ao Fundo são reais, mas ocorreram em momentos distintos. – VERDADEIRO, COM RESSALVA
Os percentuais de famílias endividadas e inadimplentes batem com a pesquisa da CNC. – VERDADEIRO
O Bolsa Família atende perto de 20 milhões de famílias, número igual ou acima do citado. – VERDADEIRO
O SUS realizou cerca de 14,7 milhões de cirurgias eletivas em 2025, recorde da série. – VERDADEIRO
Os mandantes do assassinato de Marielle foram presos pela PF e condenados pelo STF. – VERDADEIRO
Em resumo, o padrão identificado é de comparação seletiva, mais do que de invenção de dados. Na maior parte dos casos, os números existem e vêm de fontes reais. O problema aparece na escolha do período, do índice ou da categoria usada em cada lado da comparação.
Aliás, esse padrão já havia sido observado nas checagens anteriores. Vale conferir também as sabatinas de Flávio Bolsonaro e Augusto Cury para comparar o tipo de imprecisão entre os presidenciáveis.
Consequentemente, todo o processo segue os mesmos critérios e metodologia aplicados na série. Consequentemente, o eleitor tem mais elementos para avaliar o discurso de campanha com base em fatos.
LEIA MAIS