
Compartilhar
Compartilhe o artigo via
Ou copie o link
A audiência do STF sobre as bets, realizada em 3 de novembro de 2026, foi checada pelo Ranking dos Políticos fala por fala. O ministro Luiz Fux convocou as duas sessões, da manhã e da tarde, na ADI 8027 e nas ações conexas que questionam a medida provisória que proibiu as apostas no país.
Ao todo, 239 afirmações verificáveis passaram pela checagem, ditas por representantes do governo, de clubes, de comitês esportivos e de entidades do comércio, da indústria e do setor de apostas. Do total, 119 (49,8%) são verdadeiras, 71 (29,7%) têm algum problema (imprecisas, exageradas, enganosas ou falsas) e 49 (20,5%) não têm evidência pública.
Houve afirmações com problema em todos os grupos de oradores. O peso de “sem evidência” cresce à tarde porque muitos participantes apresentaram projeções das próprias entidades, sem documento público que permita conferir os números.
Cada quadrado é uma afirmação. Toque em um quadrado para ler a fala e o veredito, ou no total do grupo para ver o recorte.
| Veredito | Falas |
|---|---|
| Verdadeiro | 119 (49,8%) |
| Impreciso | 56 (23,4%) |
| Sem evidência | 49 (20,5%) |
| Exagerado | 7 (2,9%) |
| Enganoso | 4 (1,7%) |
| Falso | 4 (1,7%) |
| Total checado | 239 (100%) |
A manhã teve 40 afirmações checadas, com o relator, o governo (Justiça e AGU), seis clubes e a federação dos atletas. A tarde teve 199, com o ministro da Saúde, a Fazenda, três secretarias do Ministério da Justiça, o Ministério do Esporte, clubes, CBF, COB e CPB, e entidades do comércio, da indústria, dos municípios e do setor de apostas.
| Sessão | Falas | Vereditos |
|---|---|---|
| Manhã | 40 | 42,5% verdadeiras, 32,5% imprecisas, 7,5% exageradas, 2,5% enganosas, 2,5% falsas, 12,5% sem evidência |
| Tarde | 199 | 51,3% verdadeiras, 21,6% imprecisas, 2,0% exageradas, 1,5% enganosas, 1,5% falsas, 22,1% sem evidência |
| Dia inteiro | 239 | 49,8% verdadeiras, 23,4% imprecisas, 2,9% exageradas, 1,7% enganosas, 1,7% falsas, 20,5% sem evidência |
Três padrões aparecem quando as falas são lidas em conjunto. O primeiro é o das projeções próprias: muitos números de perdas, de clubes, da CBF e do COB são estimativas das entidades que os divulgam, e por isso entram no placar com a origem declarada.
O segundo padrão é o uso de dados fora do recorte original. Os números do LENAD III, por exemplo, apareceram em falas do ministro da Justiça, do ministro da Saúde e de uma advogada. Em cada caso, a checagem apontou que o dado não corresponde ao recorte descrito, seja de modalidades, de período ou de base populacional.
O terceiro é a dependência de monitores mantidos pelo setor de apostas. Parte das contagens de sites ilegais vem do LegitBet, mantido pela ANJL. Isso não invalida os números, mas pede cautela na leitura de qualquer série que comece antes da medida provisória.
Quinze afirmações merecem destaque pelo impacto e pelo potencial de circulação, do veredito mais duro ao menos duro. Cada uma abre com a fonte de quem falou e o que os dados mostram.
Quem disse: Alexandre Padilha, ministro da Saúde, na sessão da tarde.
O que dizem os dados: Na verdade, a Índia, mais populosa que o Brasil, proibiu em agosto de 2025 os jogos on-line a dinheiro, incluindo apostas. A China também proíbe o jogo fora de Macau.
Quem disse: Representante da ANJL, na sessão da tarde.
O que dizem os dados: Porém, o estudo da CNC diz que a entidade é contra os cassinos on-line, que não geram valor para o País, e defende só a regulação de cassinos físicos. A CNC entrou no STF em setembro de 2024 pedindo a suspensão da Lei das Bets.
Quem disse: Udo Varejão, SAF Botafogo, na sessão da manhã.
O que dizem os dados: A comparação, contudo, é entre domínios, não entre mercados: cerca de 350 operadores estavam por trás de quase 50 mil sites bloqueados.
Quem disse: Representante da Ponte Preta, na sessão da tarde.
O que dizem os dados: O estudo Rede em Jogo (PUC-Rio), por sua vez, apontou que 84% das bets recomendadas pelo algoritmo a quem segue contas de apostas não tinham licença. O estudo mediu recomendações de perfis, não a publicidade da plataforma.
Quem disse: Ana Clara Marques de Barros Santos, advogada, na sessão da tarde.
O que dizem os dados: Os 0,8% referem-se à população acima de 14 anos, e não aos apostadores. Entre os 28 milhões que apostam, 10,9 milhões jogam com algum nível de risco, o que não sustenta a leitura de que mais de 90% apostam apenas por lazer.
Quem disse: Wellington César Lima e Silva, ministro da Justiça, na sessão da manhã.
O que dizem os dados: As ações, no entanto, tratam do mínimo existencial no superendividamento, e o julgamento está suspenso. Ministros citaram as bets como um dos fatores, em falas, não em decisão da Corte.
Quem disse: José Francisco Manssur, Cruzeiro, na sessão da manhã.
O que dizem os dados: Foram, na prática, 85 outorgas e R$ 2,55 bilhões. A MP de fato exclui devolução e indenização.
Quem disse: José Francisco Manssur, Cruzeiro, na sessão da manhã.
O que dizem os dados: Segundo a ANJL, foram mais de 3.500 demitidos e 4.167 em férias coletivas. Os 15 mil são o total de empregos do setor.
Quem disse: Representante da CNC, na sessão da tarde.
O que dizem os dados: Já o estudo do Made-USP estima perda de R$ 120 bilhões a R$ 141 bilhões, equivalente a 0,9% a 1,1% do PIB, não 1,5%.
Quem disse: Matheus Montenegro, Fluminense, na sessão da manhã.
O que dizem os dados: Em 2025, foram cerca de R$ 6,8 bilhões. Os R$ 11,12 bilhões são de 2026 e incluem loterias.
Quem disse: Alexandre Padilha, ministro da Saúde, na sessão da tarde.
O que dizem os dados: Esse fator de 15 vezes vem de um estudo sueco sobre pessoas com transtorno do jogo em geral, não sobre bets. O resumo do estudo não sustenta o risco maior entre mulheres.
Quem disse: Rodrigo Toneto, Ministério da Fazenda, na sessão da tarde.
O que dizem os dados: No estudo do Insper, portanto, a proporção de inadimplentes fica cerca de 20% maior após a primeira aposta. Os quase 40% referem-se à fração da fatura do cartão em atraso.
Quem disse: Matheus Montenegro, Fluminense, na sessão da manhã.
O que dizem os dados: O TCU calculou 11,3%, mas a alta decorre sobretudo sobretudo ao Imposto Seletivo cobrir só 40% da receita do IPI. As bets não são citadas.
Quem disse: Secretário Nacional de Segurança Pública, na sessão da tarde.
O que dizem os dados: Esse levantamento não foi publicado. O balanço oficial mais próximo fala em 73 mandados de busca, 15 de prisão e R$ 4,17 bilhões em pedidos de sequestro, que não são valores bloqueados.
Quem disse: Alexandre Padilha, ministro da Saúde, na sessão da tarde.
O que dizem os dados: O Ministério não divulgou esse número. O dado público mais próximo é de 6.912 cadastrados nos três primeiros meses. Além disso, o serviço começou em março, e não em julho.
Falso. A audiência anterior teria sido em dezembro de 2024. Foi em novembro de 2024.
Enganoso. 188 sites legais seriam menos de 0,3% da oferta, diante de 66 mil sites bloqueados. A conta compara domínios, não mercado: cerca de 350 operadores estavam por trás de quase 50 mil sites bloqueados.
Exagerado. O STF teria apontado as apostas como o maior fator de endividamento nas ADPFs 1005, 1006 e 1097. As ações tratam do mínimo existencial no superendividamento, e o julgamento está suspenso. Ministros citaram as bets como um dos fatores, em falas, não em decisão da Corte.
Impreciso. Seis ADIs contra a lei" e, depois, "quatro mais quatro, oito São três ações contra a lei e quatro contra a MP: 8024, 8027, 8028 e 8035. A lista lida pelo cerimonial omitiu a 8027, ação em que a audiência foi convocada.
Sem evidência. 85% dos apostadores nas classes C, D e E. O dado mais próximo localizado é o do Instituto Locomotiva: 79%.
Verdadeiro. Audiências de 11 e 12/11/2024 nas ADIs 7721 e 7723. Em novembro de 2024 o STF ouviu mais de 50 participantes sobre a Lei 14.790, questionada nas ADIs 7721, 7723 e 7749. Depois, Fux diz que a sociedade foi ouvida "em 2023": lapso, foi em 2024.
Foram checadas apenas afirmações verificáveis: números, datas, leis, estudos e decisões. Opiniões, propostas e teses jurídicas ficaram de fora, assim como as falas de condução do relator e o trecho em vídeo de um voto antigo do ministro Fux exibido à tarde.
Cada afirmação conta uma vez por fala. Quando um orador repetiu à tarde um fato já checado pela manhã, a nova fala entra no placar com o mesmo veredito. Para cada afirmação, a apuração registrou o orador e a entidade e buscou fontes primárias sempre que possível: legislação, Fazenda, Banco Central, Ministério da Saúde, STF, TCU e os estudos citados pelos oradores. A base é a transcrição automática da transmissão da TV Justiça.
Os critérios de checagem usados nesta audiência do STF sobre as bets são os mesmos das demais séries. A audiência do STF sobre as bets também é tratada em detalhe no Radar Político Edição 289.
O Ranking dos Políticos é uma organização apartidária e aplica os mesmos critérios e metodologia a todos os oradores checados. Leia também a checagem do debate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Globo.