Artigo de opinião
19 de agosto, 2026

‘Bandidolatria’: a cultura que armou o crime

‘Bandidolatria’: a cultura que armou o crime
Foto: “Bandidolatria”: a cultura que armou o crime

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Seis meses depois da megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, o Brasil colecionou respostas institucionais ao crime organizado. Repetiu, no entanto, o velho costume brasileiro de usar leis para tapar um problema estrutural. Nenhuma delas mexeu na bandidolatria.

Lula (PT) sancionou a Lei Antifacção, de relatoria do deputado Guilherme Derrite (PL). O texto criou o crime de “domínio social estruturado”, com pena de até 40 anos.

As respostas institucionais que não tocam a bandidolatria

O governo lançou um programa de R$ 11,1 bilhões contra as facções. Esses recursos só apareceram, porém, depois de um movimento dos governadores de direita. Eles se reuniram no Palácio Guanabara e tomaram a pauta da segurança das mãos do Planalto.

Tudo isso às vésperas de uma eleição em que Lula mostra uma rejeição muito grande. No Congresso, além disso, a PEC da Segurança está travada. No Senado, a CPI do Crime Organizado terminou em abril sem relatório aprovado.

Nada disso, contudo, tocou a raiz do problema. Isso porque a raiz não está no Código Penal nem no orçamento do Executivo. Esse problema mora na cultura.

Onde nasce a cultura do banditismo

Há 30 anos, no artigo “Bandidos & Letrados”, Olavo de Carvalho identificou aquilo que chamou de cultura do banditismo. Nela, o policial nunca é bom e o criminoso é sempre vítima da sociedade. A culpa moral pelo crime se dilui em explicações sociológicas que dispensam o agente do seu ato.

Olavo escreveu esse diagnóstico ainda em 1994. “Há sessenta anos os nossos escritores e artistas produzem uma cultura de idealização da malandragem, do vício e do crime.” Estamos hoje próximos do centenário dessa onda cultural.

A instrução do Comintern e a segunda realidade

Não foi um acidente, algo que veio por acaso da pena de certos intelectuais. Olavo recorda a instrução do Comintern de 24 de abril de 1933, que orientava o PCB a se aproximar de quadrilhas.

O objetivo era revestir o conflito de uma segunda realidade, uma narrativa fictícia que se sobrepõe à experiência concreta e a substitui. Dessa forma, o bandido virava herói trágico, a vítima virava mera estatística e o policial virava inimigo mortal.

A bandidolatria virou produto de streaming

Desde então, a indústria cultural parece ter dobrado a aposta e aumentado sua bandidolatria. Tremembé, série da Prime Vídeo, virou um dos maiores sucessos da plataforma em 2025. A segunda temporada já está confirmada, com gravações iniciadas em maio.

Tremembé e o domínio simbólico estruturado

Suzane von Richthofen, Anna Carolina Jatobá, Lindemberg Alves, Robinho e Thiago Brennand estão na trama. É uma galeria de assassinos, sequestradores e estupradores reembalada numa estética premium. Atores globais como Marina Ruy Barbosa e Giovanna Antonelli ocupam os papéis principais.

A Amazon celebra publicamente o “engajamento excepcional” como prova de que compreende seu público e o que ele demanda. Com isso, a glamourização do crime se tornou um produto altamente lucrativo.

O novo tipo penal descreve impor controle social ou dominação sobre atividades econômicas, comerciais ou serviços comunitários. Enquanto a Lei Antifacção tenta tipificar esse domínio, as produções brasileiras seguem em outra direção. Elas produzem um domínio simbólico estruturado sobre a imaginação popular.

Segurança pública e bandidolatria no debate de 2026

Ora, todo esse cenário no Brasil é de guerra, e cada dia mais territórios são tomados pelo crime organizado. Diante disso, precisamos conhecer as entranhas desse debate em 2026 para chegar a uma síntese.

A segurança pública já será um dos temas centrais da campanha. O eleitor vive a violência nas ruas e quer respostas. Quatro em cada dez já dizem ao Datafolha que o crime organizado atua no bairro onde moram.

A armadilha de discutir só o instrumental

Mas há uma armadilha que cerca esse debate. Por quanto mais tempo continuaremos discutindo o instrumental e deixando de lado o cultural? Claro que discutir penas, equipamentos, blindados, federalização e orçamento é importante. Ainda assim, acho que já podemos dizer que é insuficiente.

Se aquele que chegar ao poder decidir atacar o problema apenas por tal via, vai apenas administrar um ciclo já consolidado. Talvez até consiga controlá-lo por um tempo e diminuir o número de vítimas. As ruas ficariam um pouco mais seguras, e tudo isso já seria muito bom.

Mesmo assim, é uma questão de tempo para que retornem com uma nova face. Voltarão amparados pelos bandidólatras.

As perguntas que os candidatos precisam responder

Precisamos que os candidatos cheguem às perguntas sérias. Que pacto entre o Estado e a indústria cultural permite que assassinos sejam apresentados como protagonistas trágicos? Como recuperar, na escola pública, a distinção elementar entre vítima e agressor?

Quais critérios morais devem orientar a formação de magistrados? Muitos saem hoje das faculdades “vermelhos”, convencidos de que punir o crime é violência de classe. Que linguagem senadores, deputados, governadores e políticos em geral estão dispostos a usar quando falamos de bandido?

Teremos coragem de chamar o crime organizado pelo que ele é, ou seja, terrorismo? Se essas perguntas lhe causam desconforto, é porque a cultura bandidólatra tem tomado conta do seu imaginário.

Se não revermos a linguagem que usamos, o Brasil repetirá a coreografia conhecida. É a de uma sociedade que aplaude o bandido no palco e chora o cidadão no obituário. Operações serão necessárias, porque estamos em uma guerra contra o terror. Elas não são, porém, a única coisa que precisamos fazer.


Por Yuri Quadros, diretor do Instituto Aliança, fellow do Amplifica e conselheiro da Rede Liberdade.