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Seis meses depois da megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, o Brasil colecionou respostas institucionais ao crime organizado. Repetiu, no entanto, o velho costume brasileiro de usar leis para tapar um problema estrutural. Nenhuma delas mexeu na bandidolatria.
Lula (PT) sancionou a Lei Antifacção, de relatoria do deputado Guilherme Derrite (PL). O texto criou o crime de “domínio social estruturado”, com pena de até 40 anos.
O governo lançou um programa de R$ 11,1 bilhões contra as facções. Esses recursos só apareceram, porém, depois de um movimento dos governadores de direita. Eles se reuniram no Palácio Guanabara e tomaram a pauta da segurança das mãos do Planalto.
Tudo isso às vésperas de uma eleição em que Lula mostra uma rejeição muito grande. No Congresso, além disso, a PEC da Segurança está travada. No Senado, a CPI do Crime Organizado terminou em abril sem relatório aprovado.
Nada disso, contudo, tocou a raiz do problema. Isso porque a raiz não está no Código Penal nem no orçamento do Executivo. Esse problema mora na cultura.
Há 30 anos, no artigo “Bandidos & Letrados”, Olavo de Carvalho identificou aquilo que chamou de cultura do banditismo. Nela, o policial nunca é bom e o criminoso é sempre vítima da sociedade. A culpa moral pelo crime se dilui em explicações sociológicas que dispensam o agente do seu ato.
Olavo escreveu esse diagnóstico ainda em 1994. “Há sessenta anos os nossos escritores e artistas produzem uma cultura de idealização da malandragem, do vício e do crime.” Estamos hoje próximos do centenário dessa onda cultural.
Não foi um acidente, algo que veio por acaso da pena de certos intelectuais. Olavo recorda a instrução do Comintern de 24 de abril de 1933, que orientava o PCB a se aproximar de quadrilhas.
O objetivo era revestir o conflito de uma segunda realidade, uma narrativa fictícia que se sobrepõe à experiência concreta e a substitui. Dessa forma, o bandido virava herói trágico, a vítima virava mera estatística e o policial virava inimigo mortal.
Desde então, a indústria cultural parece ter dobrado a aposta e aumentado sua bandidolatria. Tremembé, série da Prime Vídeo, virou um dos maiores sucessos da plataforma em 2025. A segunda temporada já está confirmada, com gravações iniciadas em maio.
Suzane von Richthofen, Anna Carolina Jatobá, Lindemberg Alves, Robinho e Thiago Brennand estão na trama. É uma galeria de assassinos, sequestradores e estupradores reembalada numa estética premium. Atores globais como Marina Ruy Barbosa e Giovanna Antonelli ocupam os papéis principais.
A Amazon celebra publicamente o “engajamento excepcional” como prova de que compreende seu público e o que ele demanda. Com isso, a glamourização do crime se tornou um produto altamente lucrativo.
O novo tipo penal descreve impor controle social ou dominação sobre atividades econômicas, comerciais ou serviços comunitários. Enquanto a Lei Antifacção tenta tipificar esse domínio, as produções brasileiras seguem em outra direção. Elas produzem um domínio simbólico estruturado sobre a imaginação popular.
Ora, todo esse cenário no Brasil é de guerra, e cada dia mais territórios são tomados pelo crime organizado. Diante disso, precisamos conhecer as entranhas desse debate em 2026 para chegar a uma síntese.
A segurança pública já será um dos temas centrais da campanha. O eleitor vive a violência nas ruas e quer respostas. Quatro em cada dez já dizem ao Datafolha que o crime organizado atua no bairro onde moram.
Mas há uma armadilha que cerca esse debate. Por quanto mais tempo continuaremos discutindo o instrumental e deixando de lado o cultural? Claro que discutir penas, equipamentos, blindados, federalização e orçamento é importante. Ainda assim, acho que já podemos dizer que é insuficiente.
Se aquele que chegar ao poder decidir atacar o problema apenas por tal via, vai apenas administrar um ciclo já consolidado. Talvez até consiga controlá-lo por um tempo e diminuir o número de vítimas. As ruas ficariam um pouco mais seguras, e tudo isso já seria muito bom.
Mesmo assim, é uma questão de tempo para que retornem com uma nova face. Voltarão amparados pelos bandidólatras.
Precisamos que os candidatos cheguem às perguntas sérias. Que pacto entre o Estado e a indústria cultural permite que assassinos sejam apresentados como protagonistas trágicos? Como recuperar, na escola pública, a distinção elementar entre vítima e agressor?
Quais critérios morais devem orientar a formação de magistrados? Muitos saem hoje das faculdades “vermelhos”, convencidos de que punir o crime é violência de classe. Que linguagem senadores, deputados, governadores e políticos em geral estão dispostos a usar quando falamos de bandido?
Teremos coragem de chamar o crime organizado pelo que ele é, ou seja, terrorismo? Se essas perguntas lhe causam desconforto, é porque a cultura bandidólatra tem tomado conta do seu imaginário.
Se não revermos a linguagem que usamos, o Brasil repetirá a coreografia conhecida. É a de uma sociedade que aplaude o bandido no palco e chora o cidadão no obituário. Operações serão necessárias, porque estamos em uma guerra contra o terror. Elas não são, porém, a única coisa que precisamos fazer.
Por Yuri Quadros, diretor do Instituto Aliança, fellow do Amplifica e conselheiro da Rede Liberdade.