Artigo de opinião
24 de setembro, 2026

Antissemitismo e silenciamento nos campi

Antissemitismo e silenciamento nos campi
Foto: Antissemitismo e silenciamento nos campi | Reprodução/Internet

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A perda da pluralidade na universidade pública não constitui uma formulação teórica abstrata. Trata-se de uma realidade cotidiana e dolorosa vivida na própria pele.

Na prática acadêmica diária, assisti a colegas de longa data questionarem com agressividade o convite a palestrantes. Que trariam a perspectiva israelense ao campus. Um suposto rigor metodológico e ético que jamais é aplicado aos infindáveis eventos de viés antissionista radical. Realizados sem qualquer abertura para o contraditório.

Presenciei, estarrecido, grupos estudantis exigirem a expulsão de uma organização não governamental. Que buscava construir pontes e debates plurais sobre o Oriente Médio. Evidenciando que a tolerância universitária passou a ter lado definido. Essa atmosfera beligerante transbordou dos murais físicos para os canais institucionais oficiais.

Nas listas de e-mail corporativo, que reúnem compulsoriamente todo o corpo docente e funcional, discussões sobre o cenário internacional degeneram rotineiramente. Em linchamentos virtuais covardes.

Setores radicalizados monopolizam os espaços de interlocução. Promovendo o assassinato de reputações de qualquer acadêmico que ouse sair do atual modus operandi ideológico. E defender Israel como um Estado que tem o direito de existir. Como expressão legítima da autodeterminação do povo judeu. Sem ferir o direito dos demais povos, sejam quais forem.

O aspecto mais alarmante dessa realidade é a completa inércia das instâncias diretivas. Ignoram-se códigos de ética. Omite-se a abertura de Processos Administrativos Disciplinares (PADs). Para frear ofensas e intimidações explícitas.

O resultado prático é o silenciamento pelo desgaste emocional. Forçando dezenas de acadêmicos a abandonarem canais de trabalho transformados em trincheiras ideológicas.

O impacto no ambiente universitário

O tecido das relações interpessoais desfez-se por completo. Após o massacre terrorista de 7 de outubro de 2023, docentes passaram a utilizar redes sociais. Para classificar a resposta defensiva de Israel genericamente como genocídio. Esvaziando a precisão conceitual do Direito Internacional e interditando o diálogo qualificado.

A contaminação ideológica atingiu níveis estarrecedores. Em determinado processo seletivo para contratação de docentes na área de Relações Internacionais, o edital oficial incluiu a absurda e aberrante equiparação. Entre nazismo e sionismo. Distorção histórica que só foi retificada após firme intervenção de entidades representativas da comunidade judaica. Junto à reitoria da época.

Antissemitismo e formação dos estudantes

O impacto mais perverso e desolador dessa atmosfera recai diretamente sobre a formação dos estudantes.

Fui procurado por um pós-graduando que, ao pesquisar o Oriente Médio sob orientação de outro professor, foi alvo de perseguições antissemitas. E necessitou de suporte para não interromper a carreira.

Da mesma forma, acolhi um aluno de graduação que desejava desenvolver seu Trabalho de Conclusão de Curso. Com abordagem analítica equilibrada. Mas temia represálias e notas punitivas por parte de professores com posturas abertamente militantes.

Não importa o rigor metodológico ou a excelência curricular. Quem destoa do dogma dominante é sumariamente estigmatizado como “reacionário”. Ou cúmplice de atrocidades.

Israel no debate acadêmico

Reduziu-se Israel a um espantalho monolítico. Sequestrado tanto pela extrema-esquerda quanto pela extrema-direita. Para alimentar guerras culturais domésticas.

Ignora-se solenemente a vibrante e complexa realidade social de Israel. Onde judeus, árabes, drusos, cristãos, laicos e religiosos debatem e divergem intensamente. Na única democracia do Oriente Médio.

Achatar essa pluralidade empobrece o debate científico. E desumaniza o ambiente educacional.

O duplo padrão apontado pelo autor

Esse ecossistema de intolerância universitária não flutua no vácuo. Ele se sustenta em um duplo padrão moral inaceitável.

Convivemos no campo das Relações Internacionais com a aceitação diplomática de autocracias consolidadas e teocracias opressivas. Que violam sistematicamente direitos humanos básicos. Nenhuma delas tem sua existência posta em xeque nos centros acadêmicos.

Contudo, o único Estado judeu do planeta, que também é a única democracia do Oriente Médio, é tratado como uma anomalia. Que deveria ser varrida do mapa. Que é o significado literal do slogan “Do Rio ao Mar”. Amplamente divulgado nas manifestações supostamente pró-palestinas.

Enquanto diretórios acadêmicos e grêmios estudantis silenciam sobre o massacre de civis no Irã, a fome no Sudão ou a perseguição religiosa na Nigéria. Proliferam faixas nos saguões universitários. Com manifestações que desafiam a existência de Israel. E mascaram o antissemitismo com um verniz de “crítica geopolítica”.

Antissemitismo, silenciamento e liberdade acadêmica

Publicar estas reflexões trará consequências imediatas. Notas de repúdio de centros acadêmicos, hostilidade nos corredores e novos ataques digitais. Contudo, o silêncio confortável seria a cumplicidade definitiva com a destruição do pensamento crítico.

Expor a engrenagem do autoritarismo institucional é um dever cívico indeclinável. A universidade pública brasileira só voltará a cumprir seu papel emancipatório. No momento exato em que o medo de falar for menor do que a vergonha de se calar.

Artur Zimerman

Artur Zimerman

Professor titular da Universidade Federal do ABC (UFABC).