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Sempre que o acordo entre Mercosul e União Europeia (UE) volta ao debate público, a discussão tende a cair nos mesmos clichês.
A narrativa dominante é simples: o Brasil exporta soja, carne e minério, enquanto a Europa envia automóveis, máquinas e vinhos. Sob essa lógica, o acordo Mercosul-UE seria uma ameaça à indústria nacional e um benefício quase exclusivo ao agronegócio. Essa leitura, porém, está desatualizada.
A ideia de que o comércio global ainda funciona sob as mesmas premissas de décadas atrás é anacrônica.
A globalização baseada apenas na busca pelo menor custo, que deslocou cadeias produtivas para a Ásia, entrou em crise. Alguns eventos recentes reforçam isso:
O resultado é claro: depender do humor de governos rivais para garantir microchips ou gás natural é um modelo de negócios que não se sustenta a longo prazo.
Surge então um novo conceito central no comércio internacional: friendshoring.
Em vez de produzir onde é mais barato per si, países passam a priorizar:
Nesse cenário, o Brasil ganha relevância. O Brasil não é apenas um exportador de commodities, é um parceiro potencialmente confiável em um mundo cada vez mais instável.
Afinal, não temos ogivas nucleares apontadas para os vizinhos, nem disputas territoriais. Nossos dramas são estritamente paroquiais: enquanto a Europa acorda tensa tentando antecipar o próximo movimento bélico de Vladimir Putin, a Faria Lima acorda tentando adivinhar quantas namoradas tem Daniel Vorcaro e o escândalo do Banco Master.
Um dos principais gargalos da Europa hoje é a energia.
A indústria europeia enfrenta:
O modelo anterior, baseado em gás russo barato, colapsou.
Nesse contexto, o Brasil apresenta uma vantagem clara: trata-se de uma das matrizes energéticas mais limpas e abundantes do mundo! E isso altera completamente o papel do país no acordo Mercosul-União Europeia.
Ao contrário da narrativa dominante, o acordo não levará necessariamente à desindustrialização.
Ele pode:
A lógica deixa de ser apenas exportar commodities e passa a incluir a produção industrial com base em energia limpa e segurança geopolítica.
Contudo, potencial não é destino. O capital global pode até estar fugindo de zonas de conflito, mas ele continua sendo alérgico à ineficiência. Para capturar essa oportunidade, o Brasil precisa fazer o seu dever de casa. Precisamos consolidar um sistema tributário racional e avançar em reformas, como a administrativa, que coloquem o Brasil na primeira prateleira em termos de ambiente de negócios.
O acordo Mercosul-União Europeia é um tratado comercial que representa uma oportunidade estratégica de reposicionamento global. Ele pode funcionar como:
A janela de oportunidade está aberta. A questão é simples: vamos aproveitá-la ou ficaremos apenas assistindo aos navios passarem?
Maurício Bento é mestre em Economia e professor de Economia Internacional na Hayek Global College. Foi presidente do Instituto de Formação de Líderes de Brasília (IFL-BSB) em 2025-26 e possui trajetória multidisciplinar nos setores público, privado e no terceiro setor, com atuação no Brasil e no exterior.